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Estudo da Unesp mostra diferenças ideológicas entre os skinheads

      
Jovens de cabeça raspada, coturnos e suspensórios, os skinheads são apontados pela mídia como ícones do neonazismo. Participantes ativos de manifestações favoráveis à extrema direita nas recentes eleições para a escolha do presidente da França, também costumam ganhar manchetes pela participação em atos de violência no futebol europeu - fenômeno conhecido como o hooliganismo.

Além disso, os meios de comunicação, ao longo das décadas de 1980 e 1990, noticiaram em reportagens, documentários e filmes diversas ações de skinheads contra imigrantes, negros, judeus e homossexuais.

No Brasil, onde também são chamados de Carecas, eles chocaram o País, em fevereiro de 2000, ao espancar até a morte o adestrador de cães homossexual Edson Neri da Silva, de 35 anos. Os autores do crime, ocorrido na Praça da República, em São Paulo, foram classificados pela imprensa como "nazistas". Para o sociólogo Sérgio Vinícius de Lima Grande, doutorando da Faculdade de Ciências e Letras (FCL), campus de Araraquara e autor da dissertação de mestrado Violência Urbana & Juventude em SP: um estudo de caso sobre os skinheads, essa generalização é incorreta. "Apesar de praticar ações violentas e discriminar certos setores sociais, o movimento skinhead possui diferentes facções, cada qual com os seus próprios valores e ideologias", conta. "Nada justifica a violência, mas ao noticiar o caso da Praça da República, a imprensa agiu de maneira sensacionalista e distorceu os fatos. No Brasil, apenas uma pequena parte das facções skinheads é, de fato, nazista. As demais, entretanto, configuram-se como facistas"

Em sua dissertação, o sociólogo aponta que os assassinos do adestrador de cães pertenciam ao grupo dos Carecas do ABC, uma facção que não é nazista, mas, em boa parte, adepta da doutrina integralista, fundada por Plínio Salgado, na década de 1930. "Ela apóia o anti-semitismo e o preconceito contra os homossexuais, mas não é a favor da discriminação racial", explica Grande. "Entre os Carecas do ABC também existem negros e descendentes de nordestinos, o que não foi devidamente noticiado pela imprensa. Trata-se de, efetivamente, conhecer o fenômeno", afirma Grande.

Com a intenção de proporcionar maior entendimento sobre o movimento skinhead no Brasil, a pesquisa, orientada pelo sociólogo Jorge Lobo Miglioli, do Departamento de Sociologia da FCL, discute os fatores que contribuem para a formação dos grupos juvenis nos grandes centros urbanos e reflete sobre o comum uso gratuito da violência. "Além de reunir informações sobre a origem do movimento skinhead no Brasil e no mundo, são apresentados depoimentos que esclarecem as opiniões de cada facção sobre questões como racismo, política e a violência praticada pelos seus integrantes", afirma o sociólogo.

Tendo em vista a carência de estudos sobre os grupos urbanos no Brasil - especificamente sobre os skinheads - e a sua relação com o aspecto ideológico da violência, desde a sua graduação na própria FCL, Grande interessou-se por compreender os fatores que motivavam o comportamento agressivo de grupos organizados de jovens. Seu interesse pelo assunto cresceu ainda mais no mestrado, quando, então, decidiu estudar os Carecas. Diferentemente do que acontece no banditismo ou nos crimes ligados ao tráfico de drogas, as agressões e os assassinatos cometidos pelos skinheads não estão vinculados à má distribuição de renda ou a diferença entre as classes sociais. "Essas práticas são sim estimuladas pela ideologia seguida por cada facção. Nenhum desses delitos tem qualquer relação com a pobreza ou com a busca por bens materiais", analisa. "Infelizmente, diversos grupos urbanos, como os Carecas, desenvolveram uma sociabilidade calcada na violência gratuita."

Após adquirir diversas publicações, nacionais e internacionais, sobre o movimento, Grande decidiu conferir, de perto, como funcionavam as facções skinhead no Brasil. Além de entrevistar integrantes dos três principais grupos - os Carecas do ABC, os Carecas do Subúrbio e os White Powers - o sociólogo também participou de um dos principais eventos de confraternização dos Carecas, o Dezembro Oi!. Realizado anualmente entre os integrantes das três facções, o evento promove discussões sobre os assuntos que permeiam o cotidiano dos skinheads no Brasil. "Trata-se de uma festa, que reúne grande parte dos Carecas e das Garotas Carecas e conta com apresentações de diversas bandas que fazem parte do movimento. Entre elas, a Vírus 27, que está na ativa desde os anos 1980", conta. "Todos se vestem a caráter, com coturnos engraxados, calças jeans dobradas para fora, tatuagens e suspensórios à mostra", detalha.

Grande constatou que as diferenças entre as três facções estão diretamente ligadas às suas origens históricas. Enquanto o grupo dos Carecas do Subúrbio é uma dissidência do movimento punk, combate o preconceito racial, o uso de drogas, os punks e prefere não se envolver com partidos políticos, os Carecas do ABC assimilaram o integralismo e apoiam partidos políticos vinculados ao pensamento de direita. A facção mais radical, os White Powers, por sua vez, é assumidamente defensora do nazismo. "Apesar das diferenças, todos são nacionalistas, contrários ao uso de drogas e abominam o homossexualismo", afirma o sociólogo. "É desses princípios que parte a violência praticada por eles".

Grande ressalta que a prática de violência seja pelos skinheads ou por qualquer outro grupo de jovens, deve ser condenada. "Atos de agressão não têm justificativa", aponta. Durante a sua convivência entre os integrantes dos três grupos que estudou, o sociólogo constatou que o autoritarismo caracteriza boa parte dos relacionamentos dos Carecas entre si e com a sociedade. "A agressividade é, se não a única, uma das principais formas de diálogo que esses jovens conhecem. Mesmo entre eles, a violência é praticada de maneira indiscriminada. Nos rituais de iniciação o novato é espancado pelos veteranos e nos seus encontros ocorrem confrontos corpo a corpo, sem um motivo aparente", constata. "Meu trabalho é, acima de tudo, uma forma de entender melhor as ideologias das diversas facções de skinheads e os motivos que levam a violência a estar tão presente no movimento."

Fonte: Unesp
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