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Estudo analisa formação e desenvolvimento da Zona Leste de São Paulo

      
Tradicionalmente conhecida como uma região onde só existe pobreza, exclusão social e violência, a Zona Leste da cidade de São Paulo foi o tema do mestrado da arquiteta Mônica Virgínia de Souza, na Escola de Engenharia de São Carlos da USP. "A pesquisa desmistifica as imagens das periferias, áreas relativamente pouco estudadas e conhecidas apenas pelos seus estigmas, principalmente por aqueles que exploram seu cotidiano, como a imprensa sensacionalista e os políticos."

Mônica aponta a política capitalista como uma das principais causas da degradação e da separação sócio-espacial observadas nas periferias de São Paulo. "À medida que a cidade foi ganhando suas vilas e seus bairros, a divisão sócio-territorial da população ficou mais evidente: lugar dos grupos dominantes (minoria) e lugar dos grupos dominados (maioria)", conta a arquiteta. "O Estado, por sua vez, valorizou alguns locais com investimentos e infra-estrutura e criou condições favoráveis para a classe média, deixando de investir social e urbanisticamente nos bairros mais pobres."

Para entender a complexidade desse cenário, a arquiteta analisou a transformação da região Leste de subúrbio em periferia, desde as primeiras décadas do século 20 até os dias atuais, e estudou o desenvolvimento e a história dos bairros Vila Ré, Arthur Alvim, Cidade Patriarca e Cidade A.E. Carvalho.

"Aquela periferia de propriedade dos discursos tecnocratas, de políticos ambiciosos e oportunistas, de pesquisadores tendenciosos ou pouco imparciais ou da imprensa sensacionalista não são os mesmos personagens da periferia que entrevistei ao longo desse trabalho", revela a pesquisadora.

Subúrbio e periferia
Nas décadas de 20 e 30, a Zona Leste fornecia flores, legumes, hortaliças e frutas destinados principalmente ao consumo da capital. Nos anos 30 e 40 indústrias começaram suas atividades em Itaquera, Penha e São Miguel Paulista com a produção de tijolos (olarias) e a extração de areia e pedregulho.

"Em outras regiões da cidade, inúmeros projetos de urbanização e embelezamento eram implementados em bairros de classe alta e média, o que contrastava com a região Leste, cuja infra-estrutura, já na década de 40, era muito deficiente", explica Mônica. "Com o golpe militar de 64, a situação se agravou e o desenvolvimento sócio-econômico e urbano foi realizado em áreas habitadas por pessoas de melhor poder aquisitivo, gerando um distanciamento maior entre ricos e pobres."

Entre os bairros estudados por Mônica, Cidade Patriarca e Cidade A. E. Carvalho podem ser considerados exceções, pois foram planejados urbanisticamente, apesar de serem voltados para pessoas mais pobres. "Originalmente, a Cidade Patriarca se chamaria Patriarca City. O projeto seguiu os mesmos padrões do bairro paulistano dos Jardins, com ruas largas e praças e, atualmente, ainda mantém as mesmas características."

Segundo a pesquisadora, o termo "periferia" na visão de alguns moradores dos bairros analisados serve para designar locais muito distantes do centro da cidade, com urbanização e infra-estrutura muito deficientes, como é o caso de Guaianazes e Itaim Paulista, no extremo Leste da Capital. "Isso acontece porque quanto mais distante do centro, piores serão as condições de moradia e urbanização. Ao mesmo tempo, a proximidade com o metrô torna-se uma referência para que um lugar seja considerado bom."

A periferia da periferia
A pesquisa constatou que essa mesma "periferia" pode estar um pouco mais perto. Como na caso do Jardim Vila Nova, bairro constituído em um terreno público perto da estação Arthur Alvim do metrô, na Cidade A.E. Carvalho, invadido há 20 anos. Atualmente, o local tem cerca de 31 mil moradores. "É a periferia da periferia: a rede de esgotos não atinge o bairro inteiro; até pouco tempo não tinha sequer CEP; existem apenas duas escolas, sendo uma delas de "lata"; e os moradores reclamam que a concessionária de energia elétrica, ao invés de instalar um poste de iluminação de concreto, instalou um poste de madeira em uma das ruas", conta.

Além disso, segundo a autora, a área ocupada foi separada do restante do bairro com a construção de um muro chamado de "Muro da Vergonha". Para Mônica, isso mostra que, quanto menor poder aquisitivo tiver o morador, pior ele será tratado tanto pela população como pelo poder público, seja na Zona Leste ou em qualquer outra região de São Paulo. "Veja o caso de São Miguel Paulista. Com a predominância de operários e migrantes nordestinos houve muita desvalorização. O bairro foi uma das primeiras vilas da cidade, tem uma igreja tombada pelo Patrimônio Histórico, mas foi esquecido ao longo da história", lamenta.

A pesquisa também apontou que os movimentos sociais foram muito importantes para a conquista de melhorias urbanas. Mônica lembra que Cidade A E. Carvalho é tradicional na luta por benefícios como postos de saúde, campo de futebol e centros educacionais. "Nos outros locais analisados, a participação popular também exerce grande influência. No Jardim Vila Nova, os moradores também já conseguiram algumas benfeitorias. Hoje eles lutam mesmo para ter um mínimo de infra-estrutura, com escola e postos de saúde."

Fonte USP

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