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Como identificar a depressão infantil?

      

Título: Depressão infantil, Rendimento escolar e estratégias de aprendizagem em alunos do ensino fundamental.

Miriam Cruvinel, autora da tese
Autor: Miriam Cruvinel, psicóloga graduada pela PUCCAMP, (Pontifícia Universidade Católica de Campinas), com formação em Terapia Cognitiva e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano pela UNICAMP, (Universidade Estadual de Campinas), defendeu sua dissertação de mestrado, na faculdade de educação, sobre a depressão infantil, rendimento escolar e estratégias de aprendizagem em alunos do ensino fundamental.

Objetivo: Partindo da idéia de que os fatores psicológicos e emocionais exercem influência importante no rendimento escolar dos alunos e considerando o aumento crescente do número de crianças com sintomas depressivos, o estudo contou com dois objetivo principais: conhecer a prevalência de sintomas de depressão em escolares de 3¦ , 4¦ e 5¦ séries de uma escola municipal de Campinas e investigar a existência de relação entre sintomas depressivos, estratégias de aprendizagem e rendimento escolar dos alunos.

Tempo de elaboração: março de 2001 a agosto de 2003

Processo de elaboração:

Inicialmente a psicóloga levantou informações a respeito do assunto mediante consulta a artigos, livros, participação em eventos científicos e contato com profissionais que já haviam trabalhado com a depressão na infância. Após se inteirar do tema, foi feito contato com algumas escolas municipais de Campinas, até que uma delas aceitasse participar da pesquisa. O primeiro contato foi com o diretor da escola, quando Miriam explicou os objetivos e o procedimento do estudo. A psicóloga afirma que, nesse sentido, foi assegurado à escola que o nome do colégio, dos professores e dos alunos seriam mantidos em total sigilo. Neste primeiro encontro, Miriam combinou com a direção da escola que os alunos que apresentassem problemas de depressão seriam encaminhados para tratamento.

Após a aceitação da escola, foi solicitada aos pais ou responsáveis pelo aluno uma autorização por escrito. A partir daí, foi enviado aos pais o termo de autorização, esclarecendo a forma de participação. Essa carta foi encaminhada por intermédio da criança. Na carta, os pais foram orientados a respeito dos objetivos do estudo, do tipo de participação requerida, bem como da ausência de prejuízos decorrentes da participação. Foram informados também que a adesão era voluntária e que a pesquisadora estaria disponível para esclarecimento de dúvidas.

Os alunos que entregaram o termo de autorização, cujos pais permitiram a participação na pesquisa, foram convocados para entrevista. Durante esse contato inicial, as crianças foram orientadas sobre o trabalho. Nesse contexto, foi assegurado a elas o caráter confidencial do estudo e também que suas respostas não influenciariam de forma alguma suas notas ou desempenho na escola.

De acordo com a psicóloga, a aplicação dos questionários foi realizada no próprio ambiente escolar, em uma sala ampla, com iluminação e material adequados, cedida pela escola. O primeiro questionário aplicado foi a Escala de Estratégias de Aprendizagem para avaliar o uso e freqüência dessas estratégias. Em seguida, foi aplicado o Inventário de Depressão Infantil, com o objetivo de identificar sintomas de depressão.

Os dois instrumentos foram aplicados em pequenos grupos de, no máximo, quatro crianças e em apenas uma única entrevista conduzida em horário escolar, sem utilizar o recreio para a coleta de dados. A entrevista teve duração de aproximadamente 40 ou 50 minutos, dependendo da idade das crianças, ou seja, quanto menor a taxa etária, maior o tempo utilizado para preencher os questionários. Para avaliar o rendimento escolar dos alunos, foram solicitados à direção da escola os conceitos nas disciplinas de português e matemática durante o primeiro bimestre. A coleta de dados foi precedida de um estudo piloto cuja finalidade consistiu no refinamento dos instrumentos e procedimentos de coleta de dados.

Aplicação prática: A psicóloga espera que este estudo possa contribuir para uma melhor compreensão da depressão infantil e suas relações com o rendimento escolar e uso de estratégias de aprendizagem. Segundo Miriam, existe a expectativa de que os dados obtidos possam ser traduzidos em informações úteis a serem compartilhadas com educadores e pais, a fim de que estes sejam melhor orientados e informados a respeito da depressão e de suas repercussões no desempenho escolar da criança.

Miriam conta que, atualmente, cresce a crença de que conhecer melhor o transtorno depressivo na infância e suas características possibilitará tanto o encaminhamento precoce quanto uma atuação preventiva por parte de professores, educadores e familiares. Além disso, tendo em vista a escassez de literatura na área é necessário que novas pesquisas a respeito desse tema sejam realizadas, principalmente nos dias atuais, em que a infância está marcada pelo impacto de muitas mudanças em seu cotidiano, como ausência dos pais em função da necessidade de trabalho, competitividade na escola, excesso de atividades extracurriculares e mudança na forma de lazer.

O que pretende fazer agora: Miriam conta que pretende começar o doutorado no próximo ano. Sua intenção é continuar estudando este tema, enfatizando, no entanto, aspectos referentes ao tratamento da depressão na infância, utilizando uma abordagem que pode ser realizada dentro da própria escola. A psicóloga afirma que pretende desenvolver um programa de intervenção para ser aplicado dentro do contexto escolar.

Tendo em vista o interesse de professores e profissionais a respeito da depressão, Miriam está realizando palestras e treinamentos voltados para os educadores, uma vez que estes têm mais contato com as crianças e desconhecem o problema da depressão infantil. "Essas palestras têm o objetivo de informar, esclarecer e orientar os professores que têm diante de si crianças com essa problemática", afirma a psicóloga.

A TESE:

SUMáRIO
Leia aqui o resumo da tese em
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A dissertação de mestrado foi dividida em cinco capítulos, sendo que o primeiro deles aborda a importância das influências psicológicas na aprendizagem, refletindo a respeito da relevância do tema, bem como apresentando os objetivos do presente estudo. O segundo capítulo se inicia com uma breve descrição dos principais modelos explicativos da depressão, partindo de um enfoque de doença no adulto. São apresentados, ainda, estudos brasileiros a respeito da depressão na infância e, por último, relatadas suas relações com desempenho escolar e com as estratégias de aprendizagem. No terceiro capítulo é apresentada a metodologia do estudo pretendido. A amostra estudada, os procedimentos de contato com a escola, de coleta e de análise de dados, os instrumentos empregados no presente estudo são descritos em detalhes. No quarto capítulo são expostos os resultados obtidos e, finalmente, no quinto e último capítulo, esses dados são discutidos.

Fazendo um levantamento do tema, a psicóloga verificou a forte relação existente entre os fatores emocionais e o processo de aprendizagem, ou seja, estas duas variáveis caminham juntas, uma interferindo na outra. Assim, uma criança com problemas escolares freqüentemente apresenta uma queixa de dificuldades de comportamento. E o inverso também é verdadeiro, uma criança com problemas emocionais, como a depressão, também pode apresentar dificuldades escolares.

Miriam afirma que ainda são poucos os estudos que visam avaliar problemas emocionais em crianças. Segundo ela, a escassez de pesquisas nessa área deve-se ao fato desses problemas terem sido considerados, durante muito tempo, como dificuldades transitórias e pouco graves. Partindo-se dessa visão, a psicóloga diz que pouca importância foi dada ao tema e poucos estudos realizados. No entanto, os problemas emocionais podem conduzir a futuras formas de "inadaptação" tanto em nível individual, como em nível escolar e social, uma vez que tais dificuldades não são tão passageiras e leves como se acreditava anteriormente. "Em relação à depressão os estudos tem revelado que são grandes os prejuízos e as conseqüências para a criança. Os dados sugerem que a depressão apresenta uma prevalência considerável nessa faixa etária, interferindo no desenvolvimento e funcionamento dessas crianças", explica.

De acordo com a psicóloga, é freqüente uma criança com sintomas depressivos apresentar problemas associados como dificuldades de relacionamento, dificuldades escolares e alterações de comportamento. Segundo Miriam, essas dificuldades dão início a um círculo vicioso, uma vez que tais problemas contribuem para acentuar os sintomas de depressão e tornam a vida da criança ainda mais disfuncional. "Reconhecer os sintomas depressivos nas crianças tem sido uma tarefa difícil para os pais e professores, dada a sua similaridade com outras dificuldades como hiperatividade, distúrbio de conduta, agressividade e outros. A dificuldade em identificar os sintomas depressivos conduz ao não encaminhamento dessa criança para um tratamento, agravando o problema", lamenta Miriam.

Miriam conta que existe muita discussão a respeito do diagnóstico da depressão infantil. Segundo ela, especialistas ainda não sabem se devem usar os mesmos critérios de diagnóstico para crianças e adultos. Apesar das controvérsias, o (DSM IV 1995), Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, descreve que os sintomas básicos de um quadro de depressão "maior" são os mesmos para crianças e adolescentes. De forma que a depressão na população infantil pode ser diagnosticada pelos mesmos critérios que a depressão no adulto.

Segundo esse manual, os sintomas de depressão são: humor deprimido na maior parte do dia, falta de interesse nas atividades diárias, alteração de sono e apetite, falta de energia, alteração na atividade motora, sentimento de inutilidade, dificuldade para se concentrar, pensamentos ou tentativas de suicídio. Para o diagnóstico de um episódio depressivo maior é necessário que o indivíduo apresente pelo menos cinco dos sintomas citados, sendo que um dos sintomas deve ser o humor deprimido ou falta de interesse e deve ocorrer em um período de pelo menos duas semanas.

Apesar de no DSM não existir uma diferenciação quanto à depressão infantil e à depressão no adulto, a psicóloga conta que, ainda assim, alguns autores se contradizem e afirmam que a sintomatologia desta doença na criança pode se manifestar de forma diferenciada e atípica, em função de algumas variáveis como idade e fases do desenvolvimento. "? freqüente que uma criança apresente um humor irritável em vez de tristeza e melancolia. ? comum o adolescente sentir tédio e sensação de vazio em vez de humor deprimido", explica.

Quanto à relação entre depressão e rendimento escolar, os estudos sugerem uma estreita relação entre as duas variáveis. Sabe-se que a taxa de prevalência de sintomas depressivos é mais elevada entre aqueles que apresentam alguma dificuldade escolar. O baixo rendimento escolar normalmente é resultado da depressão em si e não de um problema de inteligência ou mesmo intelectual. Nesse caso, os problemas escolares estariam atuando como uma possível expressão da depressão, diretamente relacionada à falta de interesse e desmotivação da criança depressiva em participar das tarefas escolares e em função dos sentimentos de auto-desvalorização apresentados por ela.

Segundo a psicóloga, esses dados revelam a importância do pensamento de uma criança diante dos eventos de sua vida e, particularmente, frente às situações acadêmicas, uma vez que, certamente, afetarão suas expectativas, a motivação para aprender, seu comportamento em sala de aula ou realização de tarefas. "O sucesso na vida escolar está relacionado a inúmeros fatores. As técnicas ou métodos que os alunos usam para adquirir uma informação são definidos como estratégias de aprendizagem e esses são aspectos que interferem fortemente sobre o assunto", afirma a psicóloga.

A literatura revela que estudos que visam a relação entre sintomas depressivos e o uso de estratégias de aprendizagem são escassos e, portanto, pouco se conhece sobre como os sintomasÿ podem interferir nesse aspecto. De maneira geral, a psicóloga afirma que os estudos sugerem que há relação entre as variáveis psicológicas e estratégias de aprendizagem, porém ainda se tem pouca informação sobre a interferência dos sintomas depressivos na utilização dessas estratégias.

Resultados e Discussão:

Relação entre sintomas depressivos e rendimento escolar

A Análise dos dados do trabalho de Miriam Cruvinel revelou que os alunos com sintomas depressivos tendem a apresentar mais problemas na disciplina de matemática. A hipótese seria que a disciplina de matemática exige habilidades como rapidez de raciocínio, memorização, atenção e concentração, habilidades deficientes na criança com depressão. "Foi interessante notar que os alunos com desempenho satisfatório e insatisfatório nas disciplinas de português e matemática apresentaram mais sintomas depressivos do que aqueles com bom desempenho", diz.

Quanto à relação entre sintomas depressivos e estratégias de aprendizagem, os resultados da pesquisa de Miriam sugeriram que os sintomas depressivos tendem a interferir de forma negativa na utilização das estratégias de aprendizagem, ou seja, quanto maior a presença de sintomas depressivos, menor o relato de uso de estratégias de aprendizagem pelos alunos.

Prevalência de sintomas de depressão:

De acordo com a psicóloga, cerca de 3,55% dos alunos apresentaram sintomas de depressão. A prevalência encontrada pode ser considerada expressiva, uma vez que indica que, de fato, a depressão está presente na infância. No entanto, é importante ressaltar que esse número poderia ser mais elevado, levando em consideração que um grande número de alunos não participaram da pesquisa, devido ao fato de seus pais não autorizarem. Segundo Miriam, apesar da ausência de relação significativa, as meninas e os alunos repetentes apresentaram mais sintomas da doença, tais como: tristeza, pessimismo, sentimento de culpa, choro excessivo e solidão.

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