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Situação da Mata Atlântica

Dados recentes confirmam que devastação segue em ritmo acelerado


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Por Carlos Brazil

Não é das melhores a situação da Mata Atlântica, bioma formado por diferentes formações florestais - incluindo mata densa, restinga, manguezais e até florestas de araucárias. De sua área original de cerca de 1,35 milhão de quilômetros quadrados - segundo os limites estimados para o bioma a partir do Decreto Federal 750/93 e do Mapa de Vegetação do Brasil do IBGE de 1993 -, apenas 7% estão preservados em pequenas porções distribuídas ao longo de 17 estados do país. Em termos percentuais, a diferença é a seguinte: antes, a Mata Atlântica cobria por volta de 15% do território nacional; hoje, ocupa cerca de 1% da extensão de nosso país.

"Nós estamos em um momento extremamente crítico, porque ou a gente estabelece realmente uma política de longo prazo de proteção da Mata Atlântica, com projetos completos - criação de novas unidades de conservação, adoção de diversas formas de intervenção -, ou, realmente, nós vamos perder o controle", avalia Luiz Paulo Pinto, diretor para a Mata Atlântica da ONG (organização não-governamental) Conservação Internacional.

Para tentar reverter esse quadro, ONGs, órgãos do governo, instituições e personalidades isoladamente têm buscado soluções visando a preservação e, se possível, a reconstituição do bioma.

Atlas da Mata Atlântica

? o caso da Fundação SOS Mata Atlântica, que recentemente divulgou o Atlas dos Municípios da Mata Atlântica - Período 1995/2000, trabalho baseado em seu tradicional Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, produzido em parceria com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). A idéia, segundo a ONG, é levar às pessoas a noção de que a mata está muito mais próxima do que imaginamos.

"Nós estamos fazendo uma coisa que é importante para manter a água que a gente bebe. Isso não é só para proteger mico-leão-dourado. Nós escapamos um pouco disso. Por que fizemos nesse formato de apresentação (por municípios)? Para tentar fazer com que as pessoas percebessem que a floresta está mais próxima. Ninguém sabe da região onde mora: se você perguntar para alguém no município de Sorocaba se há Mata Atlântica ali, a pessoa não sabe responder. E não existe informação em lugar algum sobre isso", diz Mário Mantovani, diretor de Relações Institucionais da SOS Mata Atlântica.

"Então, resolvemos colocar por município, pois as pessoas se vêem ali. Tentamos fazer essa chamada: `Olha, procure saber qual é o tamanho da Mata Atlântica, se a cidade onde você vive está na Mata Atlânticaï, coisas do tipo. Resolvemos trazer isso para o dia a dia das pessoas, mostrando muito mais próximo onde é que há Mata Atlântica para que as pessoas reajam. Por exemplo: que nessa campanha eleitoral (de 2004) elas cobrem de seus candidatos a prefeito e vereador um posicionamento sobre a Mata Atlântica", indica.

O Atlas dos Municípios da Mata Atlântica - criado a partir de imagens obtidas por satélite -, além dos dados específicos de preservação referentes a cada área de no mínimo 10 hectares (porções menores que esta não foram contabilizadas), montou um ranking com os municípios que mais preservaram o bioma. No topo da lista está Ilha Bela/SP (com 92% de preservação), seguida por Barro Preto/BA e Riozinho/RS (90%), Ubatuba/SP (89%), Iporanga/SP, Uruçuca/BA e Morretes/PR (88%), Antonina/PR e Tapiraí/SP (87%), Pedro de Toledo/SP e Guaratuba/PR (84%). (clique aqui e veja a lista dos 100 municípios que mais preservaram a mata)

A questão da educação ambiental também é citada como fator essencial para a reversão do quadro de destruição atual, como afirma o professor Waldir Mantovani, do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da USP (Universidade de São Paulo): "Uma sociedade que não é cidadã, como é a nossa, tem ainda um longo caminho à preservação. A ação de alguns grupos tem conseguido levar a mudanças de comportamentos em algumas situações, mostrando que, necessariamente, as alterações de comportamento e as ações à conservação dependem de educação".

Desinformação

Em geral as pessoas não têm consciência, mas a devastação da mata pode trazer danos irreversíveis à natureza e às próprias pessoas, afetando, diretamente, por exemplo, a oferta de água ou até as condições climáticas de regiões inteiras.

Segundo estudo em desenvolvimento na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o regime de distribuição de chuvas está mudando aceleradamente. "De um lado, temos o aquecimento global. Temos regionalmente um processo histórico de devastação de florestas e, localmente, temos as grandes metrópoles que geram aquecimento. Então, o aquecimento pela metrópole e pela devastação das florestas em âmbito regional, potencializado pelo aquecimento global, está resultando em uma mudança no regime de distribuição de chuvas", explica a professora Ana Luiza Coelho Netto, coordenadora do Laboratório de Geo-hidroecologia da UFRJ.

"De um lado, temos registros mostrando o aumento na freqüência das chuvas mais intensas, dessas tormentas de verão que causam muitos desastres. Do outro lado, estamos vendo uma redução das chuvas menores - menores que 20 mm por dia. O que significa: essas chuvas menores são muito freqüentes, são elas que sustentam a vida da biota, porque garantem água e nutrientes que circulam. Uma vez que elas estão diminuindo, você começa a afetar a dinâmica que envolve a vida dessa biota toda. Então, falamos de potencialização da retração e da degradação na escala secular, o que significa potencialização dos desastres naturais relacionados à água", alerta Ana Luiza.

Justamente por estar localizada em uma região densamente povoada, onde vivem cerca de 108 milhões de habitantes, em mais de 3.400 municípios, é que a Mata Atlântica está expostas mais diretamente a todo o tipo de agressão.

A SOS Mata Atlântica aponta ainda que, ao contrário da percepção que as pessoas geralmente vêm tendo de que a devastação da Mata Atlântica tem sido controlada, o ritmo de destruição é acelerado ainda. A ONG estima que a cada quatro minutos, o equivalente a um campo de futebol é destruído (cerca de 5.000 metros quadrados, ou meio hectare).

"O fenômeno da devastação é atual, não está no passado. Aliás, é muito maior agora que no passado. A devastação está sendo muito mais forte agora. A média de devastação dos 480 anos passados no Rio de Janeiro, por exemplo, era de 12.000 hectares por ano e passou para 16.000 hectares. Ficou muito forte essa devastação, e ela está sendo agora, bem recente", diz Mário Mantovani.

Cobranças

As cobranças recãm, sobretudo, na necessidade de mais planejamento, atenção à gestão dos recursos e investimentos públicos e privados, seja diretamente nas iniciativas voltadas à preservação e recomposição da natureza, seja na formação de pessoal especializado para a área.

"Se não houver medidas em torno do planejamento e da gestão urbana que contemplem a questão do lixo, da habitação, do repensar da estrutura urbana na vizinhança com a floresta, nós não vamos conseguir reverter a situação... Se a gente não reverter essa mentalidade, não chegaremos ao final do século com uma cobertura de floresta capaz de prestar os serviços ambientais gratuitos que a floresta conservada presta a todos nós: porque ela permite a estocagem de água, a estabilização das encostas. Se nós hoje temos problemas de água, de deslizamentos e enchentes, é porque muito da floresta foi embora", observa a professora Ana Luiza.

Neste sentido vai também Luiz Paulo Pinto: "Tem de haver um programa de gestão e manejo em várias partes da Mata Atlântica, e essas intervenções têm de ter uma base científica. Isso exige um investimento maior, seja do governo federal, dos governos estaduais, todas instâncias administrativas, incluindo os municípios. Também tem de haver uma política de formação de pessoal nas universidades voltada para o ramo da Biologia da Conservação, do manejo da fauna, flora, porque existe uma carência muito grande de pessoal".

A instância governamental indica que iniciativas vêm sendo adotados no intuito de preservar a Mata Atlântica. Segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente responsável pela gestão e implementação das políticas ambientais oficiais), a criação de Unidades de Conservação (UC) tem-se mostrado a principal estratégia para a conservação de ecossistemas.

"Segundo o SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação), existem dois tipos de UC: de proteção integral e de uso sustentável. Na Mata Atlântica existem os dois tipos de UC. Todas elas contribuem para a conservação do bioma. As UC de Proteção Integral, como o próprio nome indica, têm contribuído para a garantia da proteção destas áreas. Um forte exemplo disso é o Parque Nacional do Iguaçu (PR). As imagens de satélites e fotos aéreas mostram claramente que a única área florestada que restou é a dos limites do parque. Todo o seu entorno foi desmatado e ocupado por agricultura ou pecuária. Procura-se, atualmente, viabilizar a recuperação de alguns poucos corredores ecológicos restantes. Por outro lado, as UC de uso sustentável têm procurado conciliar os objetivos econômicos e os ecológicos adotando o procedimento de inserção da população no processo de decisão sobre as questões ambientais. A APA (área de Proteção Ambiental) de Petrópolis (RJ) é um exemplo disso", indica Dione Angélica De Araújo Corte, coordenadora geral de Ecossistemas substituta do Ibama.

Participação da academia

Um elemento que é considerado essencial no combate aos efeitos danosos do desmatamento é o acúmulo de conhecimento sobre cada uma das realidades específicas da Mata Atlântica. Para isso, considera-se prioritário o envolvimento da academia nesse segmento.

"Existem vários fatores que estão exercendo pressão sobre esses fragmentos (de mata) e realmente não são bem documentados, ou não existem estudos que possam dar respostas imediatas a essa situação. Então, é necessário que a gente estabelece programas e estudos que venham a nos fornecer subsídios realmente consistentes, dando uma base de como a gente deve manejar esses fragmentos, como devemos intervir nessas áreas pequenas... Existem alguns cursos de pós-graduação hoje no Brasil - especialmente na região da Mata Atlântica, onde está concentrada a maior parte das universidades -, mas são poucos aqueles que dão uma orientação nesse sentido, que estão formando profissionais que têm capacidade de lidar com a situação que hoje a gente vive no campo", diz Luiz Paulo Pinto.

Mas as perspectivas, segundo avalia Luiz Paulo, não são as melhores: "Da forma como está o investimento nas universidades, a situação não é muito animadora. Isso é um lado negativo que causa preocupação. As universidades, principalmente as federais, estão bastante debilitadas, sem perspectivas de novos investimentos, indo aos trancos e barrancos".

Por outro lado, ele destaca a ampliação da participação da academia nas iniciativas pela preservação. "A Conservação Internacional tem uma experiência e uma tradição de trabalhar sempre com as universidades. Todos os parceiros que nós temos - ONGs - estão de alguma forma ligados às universidades. Essas ONGs possuem membros que são das universidades e atuam, então, nas duas esferas: na academia e nas atividades das ONGs. Então, eu vejo que há um interesse muito maior hoje do que há dez anos na inserção da academia nas questões práticas de conservação", pondera.

Ações de destaque

Entre as iniciativas desenvolvidas pela ONG Conservação Internacional, Luiz Paulo Pinto destaca o esforço pela formação dos chamados Corredores de Biodiversidade. "Estamos querendo levar a discussão, o tratamento e a gestão ambiental para um escala muito maior do que a exercida hoje. Hoje, os projetos de conservação são muito pontuais, geralmente ligados a uma área protegida, projetos de pequena escala. Então, os Corredores de Biodiversidade estão colocando as questões relacionadas à conservação e à gestão ambiental em uma escala maior", indica.

"São identificadas regiões de grande importância biológica onde há maior concentração de espécies endêmicas. Essas regiões são definidas como unidades de planejamento. Uma delas, por exemplo, é o que chamamos de corredor central da Mata Atlântica, que pega todo o sul da Bahia, a partir do Recôncavo Baiano, até o sul do estado do Espírito Santo, mais ou menos na altura do Parque Nacional do Caparaó. Essa região tem uma identidade biológica, compartilha uma fauna e flora ao longo de toda sua extensão", afirma Luiz.

Ele lembra que o esforço - apesar dessa dimensão mais ampla - também está voltado à preservação de pequenas frações de Mata Atlântica. "Hoje nós brigamos por qualquer hectare. Nós temos menos de 2% de todo o território da Mata Atlântica dentro de unidades de conservação de proteção integral - que são os Parques Nacionais, Reservas Biológicas, Estações Ecológicas -, aqueles que têm uma proteção mais restrita. Isso representa mais ou menos 2,5 milhões de hectares. Para você ter uma idéia, só o Parque Nacional de Tumucumaqui tem 3,8 milhões de hectares. Quer dizer, um parque na Amazônia tem quase o dobro de todas as unidades de proteção integral somadas da Mata Atlântica. Para se ver como é pulverizada a proteção dentro do bioma. Isso, no longo prazo, é um problema muito sério. Nós sabemos que a maioria dessas unidades de conservação não consegue manter populações de espécies no longo prazo sem que a gente tenha que fazer uma intervenção mais ampla em toda a paisagem", avalia.

Em nível federal, no último dia 7 de junho foi publicado o decreto de criação do Parque Nacional da Serra do Itajaí, na região leste de Santa Catarina. A Unidade de Conservação tem 57.000 hectares, tornando-se um dos maiores da Mata Atlântica. O decreto de criação é o primeiro passo para que a região seja de fato preservada, já que há a necessidade ainda de adoção de um Plano de Manejo, que estabelece quais as prioridades e razões para a preservação da área, e permite a conseqüente desapropriação futura das áreas privadas. Esse processo, em geral, leva anos.

O diretor da SOS Mata Atlântica Mário Mantovani lembra ainda uma iniciativa que vem tendo sucesso na recomposição de áreas anteriormente devastadas. Ela é implementada pelo fotógrafo Sebastião Salgado na região do seu município natal, Aymorés, em Minas Gerais. "Mas se você for pegar políticas públicas (para a restauração das matas), não há nada", conclui.

A Mata Atlântica

O professor Waldir Mantovani explica, ainda, que os principais biomas que compõem a Mata Atlântica são a floresta ombrófila densa ou pluvial tropical (localizada sobre a Serra do Mar e ao longo do litoral brasileiro, incluindo as planícies litorâneas), a floresta ombrófila mista, ou com araucárias (o conhecido pinheiro do Paraná, no sul do Brasil), a floresta estacional semidecidual (no interior do estado do Paraná, São Paulo, região da mata em Minas Gerais e parte do interior da Bahia, além de trechos em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e serras interioranas no Nordeste) e floresta estacional decidual (no arco de limite da caatinga, no interior dos estados de Goiás e do Rio Grande do Sul).

"O mais ameaçado destes é a floresta estacional semidecidual, por causa das culturas do café e, mais recentemente, de soja, citros e cana-de-açúcar, que já não tem áreas representativas do que era no passado. Em ordem decrescente, por ser menos conhecida e por ter áreas muito pequenas conservadas, está a floresta estacional decidual e, então, a floresta ombrófila mista. Ressalte-se que a floresta pluvial tropical resta em áreas de difícil acesso e que, por isto, tem sido mantida sem cortes rasos, principalmente nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Entretanto, dada sua distribuição desde o Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, os trechos nordestinos, exceto o sul da Bahia, não têm áreas significativas, capazes de indicar sua estrutura e composição originais. Portanto, perdeu-se, sem conhecer, uma diversidade biológica imensa", contabiliza o professor da USP.

Clique no mapa e vá direto à versão on-line do Atlas dos Municípios da Mata Atlântica







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