Sunday :: 23 / 11 / 2014

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Guerra Fria: o equilíbrio do terror

* Por Manuel Cambeses Júnior


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Durante as quatro décadas em que subsistiu a Guerra Fria, nascida ao final da Segunda Guerra Mundial, a negativa ao uso de armamento atômico foi considerada sinônimo de sua própria existência.

A dissuasão nuclear foi vista como uma garantia da não utilização de armas de destruição em massa, o que poderia levar a uma confrontação direta entre os principais protagonistas - Estados Unidos e União Soviética - e, conseqüentemente, à mútua aniquilação. Daí, a profunda ambigüidade da Guerra Fria, que, enquanto garantia a paz mundial por meio do equilíbrio nuclear das potências envolvidas, conferia a qualquer conflito regional uma dimensão planetária.

Diferentemente do que havia ocorrido até então nos conflitos internacionais, a disputa agora não consistia em conquistar maiores cotas de poder - em nível mundial - mas sim, conseguir capacitação militar para a obtenção de êxito num possível enfrentamento entre dois sistemas diemetralmente opostos.ÿ

Os Estados Unidos defendiam a democracia e o liberalismo, enquanto que a União Soviética postulava o comunismo; sistemas de governo, portanto, irreconciliáveis.

A forma com que o mundo chegou a esse tipo de confrontação não foi espontânea. Tratou-se do produto de uma série de fatores que deram lugar ao que os observadores denominaram de mundo bipolar - Este/Oeste - com as lideranças bem definidas em torno dos quais se organizaram seus respectivos aliados em blocos políticos, econômicos e militares.ÿ

Dentre os fatores que levaram ao surgimento da Guerra Fria encontra-se o vazio de poder gerado na Europa após o esfacelamento da Alemanha. A isso somou-se um novo elemento que mais adiante se constituiria em um perigoso agravante, qual seja, o expansionismo soviético que pretendeu preencher o espaço deixado pelo colapso germânico.

Nesse contexto, a principal preocupação geopolítica do ex-Premier soviético Iossif Stálin, foi consolidar a segurança de seu país por meio da criação de uma esfera de influência direta, que teve seu desenvolvimento na Europa Oriental e que cumpriu com o objetivo de resguardar a União Soviética frente a uma potencial ofensiva ocidental.

O analista John Bolton, do American Enterprise Institute, de Washington, assevera que: - "A Guerra Fria foi forçada nos Estados Unidos pelo expansionismo soviético".ÿ

A exportação da ideologia marxista, impulsionada por Moscou, foi outro fator que incendiou a tensão Leste-Oeste. A União Soviética apoiou diretamente vários esforços revolucionários que tentaram mudar, pela força, a situação mundial onde prevalecia o capitalismo."O ponto central da opinião estadunidense, durante a Guerra Fria, foi a forte crença de que estávamos em uma guerra de vida ou morte contra o comunismo", sustenta Bolton.

De todos estes fatores, aquele que realmente promoveu o maior nível de fricção geopolítica, foi o poder nuclear, inicialmente reservado para os Estados Unidos, mas que a União Soviética não tardou em equiparar-se quando, em 1949, testou com êxito a sua primeira arma atômica. Washington e Moscou empreenderam, a partir daí, uma louca e desenfreada corrida armamentista de modo a equiparem-se do maior número de armas nucleares, pensando, não tanto em utilizá-las contra o rival, mas sim em convencê-lo de desistir de qualquer idéia que implicasse no uso do poder atômico, como tática dissuasória.ÿ

O uso dessas armas deixava para trás a guerra convencional já que, fundamentalmente, assegurava a destruição recíproca entre as duas potências nucleares.

Nos primeiros anos do pós-Segunda Guerra Mundial, Washington tratou de manter uma atitude de aproximação com Moscou. Entretanto, em pouco tempo, as nações ocidentais compreenderam que era necessária uma postura mais rígida frente à avassaladora "maré vermelha" disseminada por Stálin. Dessa maneira, surgiu a política de "contenção" diplomática-militar impulsionada pelos Estados Unidos e que ficou conhecida como "Doutrina Truman". Esta, baseava-se na crença de que a única maneira de frear o expansionismo soviético era consolidar uma férrea defesa ocidental democrática que se opusesse frontalmente a Moscou.ÿ

Tal defesa consistiria, primacialmente, em fortalecer os países aliados e intervir quando perigasse o alinhamento desses países aos Estados Unidos.ÿ

Num outro extremo, a política externa soviética privilegiou a expansão mundial com métodos militares, muitas vezes utilizando, como fator coercitivo, pressões de ordem econômica.

Como ficou demonstrado nos últimos conflitos que tiveram como protagonistas terceiros países e que se desenvolveram durante a época mais tensa da Guerra Fria, a contenção não demonstrou ser uma ferramenta muito efetiva de política externa, principalmente porque o lado soviético não parecia amedrontar-se e pôde expandir sua ideologia a diversas regiões do mundo.

Dessa maneira, um novo esquema de relações internacionais denominado "détente" ou distensão, terminou por substituir a política de contenção. Este enfoque pretendia abrir novos canais de comunicação e intercâmbio entre Estados com distintas orientações e interesses, porém, sempre através da negociação e não do enfrentamento direto.

Se bem que durante a vigência da Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética, felizmente, nunca chegaram a uma confrontação direta. A luta por impor suas distintas ideologias levou a que, em mais de uma oportunidade, as monopólicas superpotências aumentassem consideravelmente os decibéis emocionais passíveis, portanto, a estrondos bélicos de conseqüências imprevisíveis.ÿ

Como a situação na Europa parecia condenada a um ameaçante "status quo", que mantinha as potências dirigindo a atenção para Berlim, a União Soviética passou a espraiar os seus interesses a outras regiões do globo terrestre.ÿ

Em 1950 irrompe a Guerra da Coréia. Os Estados Unidos participaram ativamente nessa contenda, enquanto que Moscou contemplou importante apoio logístico aos norte-coreanos, sendo que a República Popular da China - o novo e importante ator nesse intricado cenário - surpreendentemente somou-se ao expansionismo comunista.

Na década de sessenta, o Vietnã se converteria no cenário da confrontação com uma guerra devastadora para os EUA, que novamente viu-se envolto em um conflito, longe de suas fronteiras, na tentativa de frear o avanço comunista.

Os conflitos de Angola, na áfrica; El Salvador e Nicarágua na América Central; as repressões na Checoslováquia e Hungria, na Europa; a Guerra dos Seis Dias, no Oriente Médio, bem como os dois bloqueios que sofreu Berlim, acenderam, por algumas vezes, a chispa detonante da confrontação.

Segundo Henry Nau, professor de Assuntos Internacionais da Universidade George Washington e autor do livro: "O Mito do Declínio Estadunidense", o uso do poder militar durante a Guerra Fria não fracassou: "Os perigos foram altos, não há dúvida, porém as contingências e os benefícios justificaram esses perigos", afirma.

Entretanto, nenhum dos conflitos mencionados levou o mundo tão próximo de uma guerra mundial como a crise dos mísseis em Cuba, quando Moscou implantou rampas de foguetes, na ilha comunista, que tinham como objetivo atingir o território norte-americano. O bloqueio naval imposto pelo então presidente John Kennedy - para impedir a chegada de novos artefatos bélicos, oriundos da União Soviética -, foi coroado de êxito; porém, foi uma manobra muito arriscada e que colocou o mundo à beira da pior tragédia de sua história. Nem Kennedy, nem seus assessores, tinham plena convicção de que os soviéticos voltariam atrás e não responderiam com um ataque direto que poderia derivar, conseqüentemente, em uma conflagração nuclear, de proporções inimagináveis e inconseqüentes.

Jakub M. Godzimirski, analista do Centro de Estudos Russos do Instituto de Assuntos Internacionais da Noruega, afirma que "os grandes conflitos da Guerra Fria foram decisivos para demonstrar a vontade das partes em defender seus valores e posições no mundo".

Analistas coincidem que a maior peculiaridade da Guerra Fria foi, precisamente, a forma com que as partes puderam conter-se sem chegar ao enfrentamento total.ÿ

"Ainda que tenhamos lutado em outros países, o grande alívio é que nem os EUA, nem a URSS, chocaram-se diretamente. Na atualidade, existe quem argumente que haviam tácitas "regras de ataque" que tornavam inviável uma confrontação direta, porém sempre existiu a possibilidade de que ambas as partes se excedessem", assinala Henry Nau.

O custo dessa contenda foi altíssimo. Além das milhares de pessoas que morreram durante o período da Guerra Fria, um elemento-chave, para dimensionar a magnitude desta "guerra sem guerra", foi o montante de dinheiro destinado, nos orçamentos das partes em litígio, com o objetivo de atender às imensas necessidades em armamentos convencionais e nucleares.ÿ

Uma estimativa mostra que, durante essa época de equilíbrio do terror, o mundo chegou a gastar - somente em armamento - aproximadamente, oito trilhões de dólares.

As partes não pouparam recursos para assegurar sua subsistência, ainda que, ao final, como é sabido, a União Soviética não pôde continuar subvencionando o enorme gasto que implicava em competir pari-passu com os Estados Unidos. A juízo de Godzimirski, os grandes conflitos da Guerra Fria mostraram que os custos econômicos e políticos foram impossíveis para um dos polos, o polo que tratou de ideologizar o desenvolvimento econômico.ÿ

Por sua parte, Henry Nau afirma que "o fator que ganhou a Guerra Fria foi a política interna e o progresso econômico do Ocidente". Contudo, as reformas empreendidas por Mikhail Gorbachóv, a perestroika (reestruturação) e a glasnost (transparência) foram decisivas para trazer maior abertura à União Soviética, e que foi acompanhada de um processo de democratização que o regime soviético não pôde assumir e que derivou, como corolário, em seu colapso.

Ao final, verificou-se que a opção defendida pelos Estados Unidos terminou por ser a mais viável. Ainda que isso não implicasse que importantes mudanças tomassem forma, depois do colapso soviético, o final da Guerra Fria mostrou, claramente, que somente um mundo democrático e liberal poderia sobreviver nessa longa batalha ideológica.ÿ

Porém, deve-se reconhecer que o lado oposto, o comunismo, também teve um notável impacto na forma em que o mundo se desenvolveu, desde então. Mostrando-se como uma alternativa, forçou aos defensores do sistema capitalista a exercê-lo de forma mais humana e racional.

Podemos inferir que, durante 45 anos, o equilíbrio do terror funcionou porque na hora "H" os líderes de ambos os blocos ideológicos conseguiram, em felizes arroubos de racionalidade, colocar os interesses da Humanidade acima das vantagens inerentes aos sistemas capitalista e comunista.ÿ

No longo transcorrer da Guerra Fria, os povos de todos os rincões do planeta, muitas vezes, prenderam a respiração e, felizmente, conseguiram sobreviver.ÿ

Cronologia de Eventos:
1947: Surge a "Doutrina Truman", ou política de contenção diplomático-militar dos Estados Unidos, para opor-se à crescente influência soviética;
1949: Nasce a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para contrapor-se à permanência das tropas soviéticas na Europa;
1950: A paz mundial se vê ameaçada com a invasão da Coréia do Sul, guerra que finalizou com a assinatura de um armistício, em 1953;
1961: ? invadida a Baía dos Porcos, em Cuba, e levanta-se o Muro de Berlim;
1962: Crise dos mísseis em Cuba. O mundo vê-se à beira de uma guerra mundial;
1964: Os EUA decidem intervir diretamente na Guerra do Vietnã para frear a influência comunista na ásia;
1967: A Guerra dos Seis dias, entre árabes e isrãlenses, transforma-se em uma derrota estratégica para a União Soviética;
1968: Países do Pacto de Varsóvia e, especialmente, forças do Exército Vermelho, invadem a Checoslováquia para deter o processo liberalizador de Dubcek;
1972: ? assinado o Tratado de Mísseis Antibalísticos (ABM) e o Tratado de Limitação de Armas Estratégicas (SALT I);
1979: Tropas soviéticas invadem o Afeganistão;
1983: O presidente norte-americano Ronald Reagan propõe a Iniciativa de Defesa Estratégica (Guerra nas Estrelas), sistema de defesa estadunidense antimísseis. O projeto fracassa devido ao seu elevado custo.
1985: Mikhail Gorbachóv assume o poder na União Soviética. Dá-se início à perestroika e à glasnost;
1989: Cai o Muro de Berlin, barreira simbólica da separação Este-Oeste;
1991: Reformas democratizadoras de Mikhail Gorbachóv derivaram no colapso da União Soviética.


* Manuel Cambeses Júnior é coronel-aviador R/R, conferencista especial e membro-correspondente do Centro de Estudos Estratégicos (CEE) da Escola Superior de Guerra. E-mail do autor: cambeses01@globo.com

ÿ** Artigo originalmente publicado no site da ESG







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