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Guerra da água ameaça o século*

Previsões de escassez global impõem ação rápida para evitar catástrofe de abastecimento e crise de segurança


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Por Flávio Henrique Lino**

A fartura de água no planeta Terra é enganadoramente aparente. Apenas 2,5% da massa líquida são compostos de água doce, e menos de 0,01%, de potável. Com o explosivo crescimento demográfico no século XX, a população triplicou nos últimos 70 anos, enquanto o consumo de água sextuplicou. Cerca de 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 bilhões, a saneamento básico. Dos recursos hídricos disponíveis anualmente, 54% já são utilizados e, em 2025, poderemos estar usando 70%. As previsões da ONU são de que nesse ano dois terços da Humanidade viverão em países sofrendo de escassez de água. Para atender às demandas de água potável e saneamento básico são necessários investimentos de US$ 23 bilhões por ano, mas apenas US$ 16 bilhões são investidos, abrindo espaço, segundo a Organização Mundial de Saúde, para a morte anual de 3,4 milhões de pessoas por doenças transmitidas pela água.

Acabar com o desperdício, o maior desafio das próximas décadas

O quadro anunciado de escassez mundial de água nas próximas décadas põe na ordem do dia uma questão básica: como aproveitar melhor os recursos hídricos em função do crescimento populacional acelerado. O melhor aproveitamento da água é um dos caminhos apontados para tentar desativar o que especialistas consideram uma bomba-relógio.

Nas últimas três décadas, a área de terra irrigada - que responde por 40% da comida produzida no planeta - subiu de 200 milhões de hectares para 270 milhões, sugando 70% da água doce consumida anualmente. No entanto, 60% dessa água (ou seja, 42% do total geral consumido a cada ano) se perdem por ineficiência dos sistemas de irrigação. Para corrigir esse e outros problemas estruturais de aproveitamento da água, a ONG de pesquisa ambiental americana Worldwatch Institute propõe uma "revolução azul".

- · medida que a água se torna mais escassa no mundo, o desafio é descobrir como melhorar sua utilização e gastar menos - explica Sandra Postel, diretora do Projeto de Políticas Globais para água do Instituto. - Teremos de combinar um uso mais eficiente da tecnologia com políticas corretas de alocação e gerenciamento de água. Assim, conseguiremos satisfazer as necessidades humanas sem tirarmos mais água do meio ambiente, protegendo a saúde dos rios, lagos e ecossistemas que sustentam nossas vidas e nossa economia.

Segundo Postel, está ocorrendo uma rápida deterioração dos ecossistemas de água doce e a não utilização do precioso líquido de forma sustentável já está gerando sérias conseqüências atualmente.

- Vários rios importantes secam em parte de seu percurso durante certas épocas do ano e muitas espécies de peixes e moluscos de água doce estão correndo o risco de extinção por mudanças em seu hábitat - adverte ela.

Uma outra mudança que o manejo adequado dos recursos hídricos vai exigir é a criação de uma nova mentalidade em relação à água. Até países como o Brasil - dono de quase um quinto das reservas de água doce da Terra e em tese a salvo de escassez - terão de se adaptar à futura realidade de um planeta que até 2050 verá sua população aumentar em 50%, passando a abrigar nove bilhões de habitantes.

- Precisamos mudar essa visão da sociedade de que a água é um recurso inesgotável e mostrar quer seu uso nos últimos séculos não foi eficiente - diz o pesquisador Samuel Roiphe Barreto, da sucursal brasileira da ONG ambientalista WWF, cujo Projeto de Conservação e Gestão de água Doce visa a implantar um novo modelo de gerenciamento dos recursos hídricos do país por parte das autoridades e incutir uma nova mentalidade na população.

Além de incentivar uma postura mais responsável da sociedade em relação ao uso da água, Barreto cobra também do poder público uma linha de atuação diferente da atual.

- Qualquer intervenção nos rios hoje no Brasil passa por obras de engenharia, enquanto na Europa, por exemplo, já estão "renaturalizado" os cursos d'água, deixando-os correr livremente. Queremos garantir o atendimento da demanda de água, mas mantendo ao mesmo tempo a integridade dos sistemas aquáticos.

O Brasil já está dando passos na direção de uma nova visão de seu patrimônio líquido. Em 1997 foi aprovada a Lei no 9.433, instituindo a Política Nacional de Recursos Hídricos, que estabeleceu processos participativos da sociedade e novos instrumentos econômicos visando ao uso mais eficiente da água. Em 2000, foi criada a Agência Nacional de águas (ANA) para implementar a lei. Com isso, espera-se que o país esteja finalmente rumando para corrigir a distorção de ser o detentor de 17% da água doce do planeta e ter 8,8 milhões de residências sem água. Estima-se que para garantir acesso à água a todos os brasileiros até 2010 seriam necessários investimentos da ordem de R$ 38 bilhões.


Na questão de saneamento básico, as estatísticas são piores: somente 49% dos brasileiros têm acesso a esses serviços. O investimento para resolver os dois problemas, no entanto, é autofinanciável a médio e longo prazos.

Estima-se que 70% das internações hospitalares no Brasil decorram de doenças transmitidas por água contaminada, gerando um gasto adicional anual de US$ 2 bilhões ao sistema de saúde. Ou seja, com água corrente na torneira e esgoto em casa garantidos a todos os brasileiros, tais recursos poderiam ser redirecionados para outras áreas.

Um outro aspecto importante em relação à água é que, num futuro de possível escassez generalizada, ela tem um potencial significativo de tornar-se fonte de conflitos armados, assim como o petróleo no século XX.

Há mais de 200 bacias hidrográficas partilhadas por dois ou mais países, abrigando 40% da população do planeta. Treze dos maiores rios - como o Amazonas, o Danúbio e o Nilo - cruzam as fronteiras de mais de cem nações.

- Uma feroz competição por recursos hídricos pode resultar em violentos conflitos internacionais - alertou o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, no Dia Mundial da água, em março.

A solução, apontam os pesquisadores da área, é o manejo integrado dos recursos hídricos pelos países que partilham a mesma bacia hidrográfica, de forma que todos possam utilizá-la sem que uns prejudiquem os outros.

*Flávio Henrique Lino é jornalista.

** Artigo publicado no suplemento especial Planeta Terra do jornal O Globo, em 7 de agosto de 2002.







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