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Brasília já tem o seu dialeto

      

"O dialeto de Brasília caracteriza-se por não possuir traços marcantes estereotipados".

Brasília, por suas características formadoras, é um campo particularmente especial para o desenvolvimento de pesquisas de natureza sociolíngüística. Aqui convivem pessoas de todos os lugares do país. Essas pessoas trouxeram consigo o dialeto e a cultura regionais. ? comum, em Brasília, inferir sobre a origem das pessoas pelo seu estilo de fala. Diversos experimentos de sociolingüistas mostraram que o sotaque é, de fato, uma forte pista indicadora da procedência regional ou até mesmo social das pessoas. Outros estudos provaram que certas diferenças fonéticas entre sotaques podem ser estigmatizadas pela sociedade, da mesma forma que certas diferenças lexicais e gramaticais entre variedades sociais também o são. E ainda, que se pode associar determinado sotaque e dialeto a determinados traços da personalidade, pois, na maioria dos contatos diários mais superficiais, as pessoas julgam-se, mutuamente, como referência a certos estereótipos.

Cabe aqui um breve esclarecimento sobre o conceito de dialeto e sotaque. Entendemos dialeto como sendo uma variação de um código comum, pois uma língua não é um simples, um único código usado da mesma maneira por todos os falantes em todas as situações. ? fato claríssimo que nenhuma língua se apresenta como um sistema rígido e uniforme. A língua portuguesa no Brasil apresenta um alto grau de variação, quer no vocabulário, quer na pronúncia, quer na sintaxe, decorrente da vastidão de seu território associada com a estratificação social da população. Definimos o termo sotaque, de acordo com Mattoso Câmara, como um conjunto de traços fonológicos específicos que caracterizam a pronúncia numa modalidade regional de língua. A diferença que consideramos entre sotaque e dialeto é que o primeiro é restritivo à variedade de pronúncia, enquanto o segundo inclui também diferenças sintáticas e lexicais.

Brasília, aos quarenta anos, possui o seu próprio dialeto, seu sotaque?

A resposta a esta questão pode divergir a extremos afirmativo e negativo.

A situação lingüística de Brasília se constitui num caso peculiar no Brasil. A cidade foi criada, não surgiu espontaneamente, e povoada por pessoas de todas as regiões do país. Devido ao intercâmbio social constante de seus habitantes, podemos afirmar que Brasília vive uma situação particular de difusão dialetal. As diversas variedades regionais de fala estão, teoricamente, em competição. Para a formação do dialeto brasiliense dois processos lingüísticos podem ser evocados e qual estaria predominando: uma preservação das identidades pré-migratórias (divergência) ou a procura de um denominador comum (convergência)? O processo que prevalecerá, mais cedo ou mais tarde, será o de convergência. Brasília possui um dialeto emergente que se caracteriza por uma certa sobriedade fonética. O dialeto de Brasília caracteriza-se por não possuir traços marcantes estereotipados.

Realizamos uma pesquisa sociolingüística sobre as atitudes e as variedades regionais de fala no Brasil, trabalhando com os dialetos gaúcho, paulista, carioca, goiano, pernambucano e brasiliense. A pesquisa se baseou na hipótese de que certas diferenças fonéticas entre sotaques podem ser estigmatizadas pela sociedade, da mesma forma que certas diferenças lexicais e sintáticas. O significado social atribuído às variedades de sotaque e dialeto é determinado, na maioria das vezes, pelo que chamamos de estereótipos. As pessoas tentam, freqüentemente, eliminar aquilo que consideram como marca de status social inferior ou como regionalismo. Isso porque elas se firmam na crença generalizada de que a pronúncia tal é indicadora de superioridade/inferioridade social ou de educação.

Dos resultados obtidos pela pesquisa, a variedade de Brasília recebeu o valor mais alto de prestígio, embora não a relacionando à cidade. Isso porque o brasiliense mostrou ter preferência por uma variedade de fala sem traços estratificados socialmente. Em Brasília, convivem os principais dialetos regionais em situação de contato. Nenhum dos dialetos pesquisados possui, para o brasiliense, prestígio lingüístico suficiente para exercer forte pressão social e se sobrepor aos demais. Da situação de conflito, está surgindo um padrão brasiliense. Um padrão de equilíbrio entre os graus de diferenças dos sotaques regionais. Constatamos, porém, que ainda não há, na população, uma consciência clara do surgimento desse padrão de fala tipicamente brasiliense. Essa observação nos remete à conclusão, e a reforça, de que os jovens de Brasília, independentemente de sua origem familiar, já compuseram entre si um conjunto de normas lingüísticas que provavelmente se consolidará como o dialeto de Brasília. ? só uma questão de tempo.

*Djalma Cavalcante Melo é professor do Departamento de Lingüística, Línguas Clássicas e Vernácula da UnB (Universidade de Brasília).

** Artigo originalmente publicado no site do Correio Web.

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