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As doenças do gado

Por Mabel de Medeiros Rodrigues*


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Felizmente, e com toda justiça, os técnicos canadenses voltaram a seu país convencidos de que nosso rebanho bovino está livre da terrível doença conhecida como "síndrome da vaca louca". Mas o mesmo não se pode dizer dos animais europeus.ÿ

De fato, agora no início de 2001, a doença da vaca louca se espalha pela Europa ? Grã-Bretanha, Irlanda, Bélgica, Holanda, França, Espanha, Alemanha, Dinamarca e Portugal, causando grandes prejuízos e muitas vezes matança indiscriminada mas inevitável, de milhares de animais.ÿ

? evidente que uma tal situação vem causando muita preocupação em todo o mundo, e todas as precauções devem ser tomadas para evitar que atinja nosso país.ÿ

A doença da vaca louca é conhecida desde 1986, quando afetou grande parte do gado das Ilhas Britânicas, inicialmente o gado ovino.ÿ

Sendo uma moléstia neurológica, ela ataca o sistema nervoso do animal fazendo com que seu cérebro vagarosa e progressivamente seja destruído. Na realidade, é um tipo de encefalopatia espongiforme bovina. (Uma condição encefalopática implica no envolvimento do cérebro, e o termo espongiforme significa que o tecido cerebral adquire uma forma esponjosa, perdendo sua integridade.) Simplificadamente, pode-se dizer que é uma doença do cérebro, crônica e degenerativa, que afeta o sistema nervoso central, atacando principalmente o gado ovino e bovino.ÿ

Os primeiros casos da doença da vaca louca identificados na Grã-Bretanha em 1986, foram causados provavelmente por contaminação de ovelhas doentes que serviam de alimento ao gado bovino.ÿ

Os animais doentes esfregam seu corpo contra superfícies rígidas, como cercas ou paredes até perderem todo o couro ficando em carne viva. Ao mesmo tempo, o animal perde o controle muscular e as funções motoras, adquire aspecto e comportamento totalmente descoordenado, daí o nome "vaca louca", pelo qual a moléstia ficou conhecida. Por outro lado, ocorre como conseqüência, perda substancial de peso, não havendo até agora tratamento possível, sendo o prognóstico invariavelmente fatal.

Carne bovina: risco de contaminaçãoÿ

Estudos feitos principalmente por Stanley Prusiner (que ganhou o Prêmio Nobel pela sua descoberta), identificaram como agente infeccioso causador da contaminação da doença da vaca louca, uma forma de proteína que recebeu o nome de Príon. Os Príons estão também presentes em todos os animais saudáveis, porém a forma que é transmissora da doença é alterada ou mutante. Essa forma alterada, aparentemente interage com material genético (DNA) do hospedeiro e causa uma mudança, provocando uma reprodução celular anormal da forma alterada. Esse processo se propaga, e embora não tenha sido detectado diretamente nenhum agente infeccioso, bactéria, toxina ou virus, o processo é chamado, por analogia, de infecção. Entretanto não se conhece até agora, o mecanismo pelo qual o Príon mutante entra na corrente sangüínea e daí ao cérebro, causando a doença.ÿ

O período de incubação entre a contaminação e seu diagnóstico é de 4 a 5 anos em média, variando de animal a animal, o que dificulta sobremaneira seu diagnóstico e prevenção.ÿ

Quatro fatores provavelmente foram decisivos para o desencadeamento da moléstia, sobretudo nas Ilhas Britânicas:ÿ

  • grandes rebanhos de gado ovino;ÿ
  • alta incidência de ovelhas e carneiros infectados;ÿ
  • mudança tecnológica na manufatura das rações animais, incluindo com freqüência proteínas de ruminantes, possivelmente infectados;ÿ
  • utilização de rações feitas com carcaças de animais infectados.ÿ

Devido a esses motivos desde 1986, os Estados Unidos da América cortaram as importações de carne proveniente da Grã-Bretanha.ÿ

Uma forma humana de encefalopatia espongiforme relacionada com a doença da vaca louca é a doença de Creutzfeldt-Jakob. Ela é extremamente rara, sendo transmitida através de órgãos transplantados ou por produtos derivados do sangue (plasma, etc). Em janeiro de 2001, 90 casos foram reconhecidos na Europa e em todos eles a proteína Príon alterada está presente na corrente sangüínea dos indivíduos doentes. Como até então a doença era extremamente rara (cerca de 1 caso por milhão de pessoas) e o número de doentes agora detectado é extremamente alarmante, embora não haja nenhuma evidência de transmissão de animal doente para humanos. Forçoso é mencionar entretanto, que a Grã-Bretanha exportou para vários países, inclusive o Brasil, um número muito grande de ampolas contendo plasma e derivados de sangue humano, sendo posteriormente provado estarem infectados com Príons alterados, causadores da Doença de Creutzfeldt-Jakob.ÿ

Outra doença que ataca o gado e da qual tem-se falado muito ultimamente é a febre aftosa, da qual o Brasil não está completamente livre, muito embora apenas alguns casos isolados venham sendo mencionados.ÿ
A febre aftosa afeta basicamente animais de casco fendido, principalmente o gado bovino, suíno, ovino e caprino e é causada por sete tipos diferentes de vírus, todos do grupo dos Aftovírus.ÿ

? endêmica em algumas regiões da áfrica, ásia, Oriente Médio e América do Sul apresentando-se também como casos esporádicos em outras regiões do globo. Durante os últimos anos uma pandemia de um tipo especial (tipo O) tem flagelado muitos outros países, atingindo desde fevereiro de 2001, a Inglaterra e a França.ÿ

Os vírus causadores são encontrados nas vias respiratórias, saliva, fezes, urina, leite e sêmen dos animais infectados assim como na carne e derivados quando mantidos em meio alcalino.

São altamente transmissíveis pelo ar, água e alimentos contaminados crus, mas são sensíveis ao calor e à luz, sendo destruídos por aquecimento à 50OC.ÿ

Em inglês, o nome da febre aftosa é "Foot and mouth disease" (doença dos pés e da boca) devido à presença de vesículas e ferimentos na língua, gengivas, face, interior da boca, beiços, narinas, tetas, focinho, úbere, e sobretudo unhas (cascos) dos animais afetados. Além desses sintomas exteriores ela provoca tremores, perda de apetite, baba, ranger de dentes, tonturas, moleza nos membros e ação de chutar com os pés, além de redução drástica da produção de leite.

A doença não é fatal para todos os animais adultos, mas pode deixar lesões cardíacas severas, e sobretudo devido ao grande perigo de contaminação tem geralmente como conseqüência o sacrifício indiscriminado dos animais doentes.ÿ

Proteção e profilaxia? Há muitas medidas que podem e devem ser tomadas como o controle e proteção das regiões livres da doença; o sacrifício de todos animais infectados, dos suspeitos de infecção e mesmo dos recuperados; a desinfecção perfeita dos estábulos e pastos e de todo material possivelmente infectado (caminhões e tratores, implementos, roupas, etc); a destruição dos cadáveres, excrementos, produtos e subprodutos de animais nas áreas infectadas e suspeitas; medidas legais de quarentena. A principal medida é o uso da vacina que confere imunidade por 6 meses, após duas doses iniciais.

* Mabel de Medeiros Rodrigues é professora Dra. associada ao IQSC-USP (Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo).

** Artigo originalmente publicado no site da USP.







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