Notícias

Falando sobre estereótipos: um livro para elas se rebelarem

      
Falando sobre estereótipos: um livro para elas se rebelarem
Falando sobre estereótipos: um livro para elas se rebelarem  |  Fonte: Shutterstock
Sttela Vasco - Universia Brasil

Sttela Vasco

Sou jornalista e repórter na Universia Brasil. Apaixonada por livros, cinema, café e chocolate assino a coluna Sobre Elas, na qual falo sobre a mulher e a presença feminina nas mais diferentes áreas da sociedade

Entre os temas mais debatidos aqui na coluna, acredito que representatividade seja um deles. Há pouco tempo, inclusive, escrevi sobre como se reconhecer em uma figura do cinema, da literatura ou da televisão. Esse tema esbarra em outro que é muito similar, os estereótipos: uma imagem pré-concebida de determinado grupo, pessoa ou situação e utilizado para definir e limitar os mesmos. Quando se fala sobre o universo feminino é comum encontrarmos um característico: princesas. Mas será que elas são a única opção encontrada na hora de retratar e dialogar com as meninas?

É claro que não há problema em uma menina se identificar com uma princesa. A primeira figura pela qual eu me senti representada foi justamente a Bela e ela é uma das princesas clássicas da Disney. O problema está, assim como na questão da representatividade, só existir esse modelo apenas, quando a realidade é muito mais diversificada e, principalmente, quando possuímos exemplos reais extremamente inspiradores. Foi pensando nisso que duas autoras italianas resolveram se unir e contar histórias reais que fogem totalmente ao padrão “realeza” com o qual estamos acostumadas.

Foi por meio de uma campanha de crowdfunding – uma vaquinha virtual – que Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes nasceu. Em suas páginas estão as histórias de figuras já muito conhecidas, como a Nobel da Paz Malala Yousafzai ou a ginasta americana Simone Biles, e não tão famosas, como Grace Hopper, pioneira cientista da computação e Amna Al Haddad, levantadora de pesos dos Emirados Árabes. Suas autoras, Elena Favilli e Francesca Cavallo, contaram à BBC que sentiram a necessidade de colocá-las no papel após perceberem que, apesar do amplo debate sobre estereótipos de gênero, os livros infantis, em sua maioria, mantiveram a fórmula “príncipe salva princesa”.

Um estudo feito pela Universidade do Estado da Flórida em 2011 mostrou que, de quase seis mil livros publicados entre 1900 e 2000, apenas 7,5% mostravam, por exemplo, animais do sexo feminino como protagonistas. Em que isso impacta? Em tudo. Como já mencionei em outras ocasiões, uma pesquisa feita recentemente pela New York University mostrou que meninas de seis anos associam brilhantismo e dom como traços masculinos. Ou seja, as garotas tendem a associar atitudes heroicas ou inteligentes a características exclusivamente masculinas, o que acaba sendo reforçado quando, ao procurar em animações e, principalmente, livros, elas encontram um garoto como protagonista e uma menina como a coadjuvante a ser salva ou destinada a ser apenas o par romântico.

Apesar de ser seu foco, o livro não colabora apenas na questão dos estereótipos. Ao apresentar figuras reais, a obra permite que jovens conheçam mulheres que, muitas vezes, são esquecidas ou pouco reconhecidas pela história. Quer um exemplo? Você sabia que Mozart teve uma irmã tão talentosa e genial quanto ele? Maria Anna Mozart, a Nannerl, chegou a ser considerada uma instrumentista superior ao irmão famoso e embarcou em uma turnê pela Europa com ele. Na época, ainda crianças, ambos eram extremamente aclamados. Porém, ao crescer, Nannerl deixou de receber o apoio da família e passou a se ocupar apenas das obrigações domésticas. A história, por sua vez, pouco lembrou de sua existência.

São histórias assim que a brasileira Bia Varanis também busca resgatar em seu site “As Mina na História”, que reúne mulheres importantes e seus feitos. São inventoras, cientistas, pintoras, poetas e outras das mais diferentes áreas e profissões. O propósito é um só: resgatar essas figuras e mostrar a outras mulheres a importância que elas tiveram para a construção da sociedade. E foi um incômodo similar ao que a dupla italiana sentiu que fez Bia começar o projeto. Após participar da Olimpíada Nacional de História do Brasil em 2015, ela percebeu que não fazia ideia de quem eram as mulheres importantes da História. “Em meio às questões, vi uma foto da Maria Bonita. Eu estava terminando o ensino médio e percebi que na escola nunca se ouvia sobre o protagonismo das mulheres no Brasil”, conta.

Projetos como o de Bia ou o livro de Elena Favilli e Francesca Cavallo são fundamentais para desconstruir uma cultura que ensina às crianças – e em especial às meninas – que só existe um papel que podemos despenhar nas nossas histórias. Ao enxergarem apenas princesas ou mocinhas indefesas nos livros que leem, como as meninas se sentirão heroínas? Como elas irão passar a associar tal postura como uma questão de personalidade e não gênero? De maneira lúdica e até mesmo didática, trabalhos assim colaboram para que modos de enxergar o mundo que já não correspondem à realidade sejam desconstruídos e memórias há muito esquecidas sejam resgatadas. Nas páginas de Histórias de Ninar lemos e também escrevemos um futuro que já está aqui.

Para quem se interessar pelo livro, ele já está disponível para compra em livrarias físicas e digitais do Brasil.



Tags:

Aviso de cookies: Nós usamos cookies próprios e de terceiros para melhorar os nossos serviços , para análise estatística e para mostrar publicidade. Se você continuar a navegar considerar a aceitação de seu uso nos termos estabelecidos nos Política de Cookies.