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Para ler mais mulheres

      
Para ler mais mulheres
Para ler mais mulheres  |  Fonte: Reprodução
Sttela Vasco - Universia Brasil

Sttela Vasco

Sou jornalista e repórter na Universia Brasil. Apaixonada por livros, cinema, café e chocolate assino a coluna Sobre Elas, na qual falo sobre a mulher e a presença feminina nas mais diferentes áreas da sociedade

Recentemente, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) anunciaram a inclusão da obra O Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, principal obra da escritora Carolina Maria de Jesus, entre suas leituras obrigatórias. Carolina é uma das principais escritoras negras da literatura brasileira. Pouco depois, a Fuvest anunciou que Minha Vida de Menina – que narra, também em forma de diário, o cotidiano adolescente em Diamantina, Minas Gerais, no final do século XIX – de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, entraria em sua lista no lugar do clássico Capitães da Areia de Jorge Amado. A inclusão das duas autoras dentre alguns dos vestibulares mais importantes do país fez com que eu me questionasse por que, mesmo tendo grandes nomes, ainda não lemos tanto sobre as nossas autoras?

Eu proponho um desafio: cite em sessenta segundos o nome de cinco grandes escritoras brasileiras. Não vale consultar o Google e nem estourar o tempo. Fácil? Nem sempre, não é? A princípio, alguns mais famosos como Clarice Lispector ou Cecília Meireles até vêm rápido, mas conforme os segundos vão acabando, eles demoram um pouquinho mais a vir. “Como era aquele nome mesmo?”, “tem aquela, daquele livro”, talvez sejam alguns dos pensamentos que passem pela cabeça nessa hora. Por que será que, mesmo tendo uma gama de grandes autoras em nossa história, ainda não é tão fácil elencar várias rapidamente? Por que ainda conhecemos tão pouco sobre elas?

Hilda Hilst, Cora Coralina, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Teles, Pagu, Lya Luft, Adélia Prado. São apenas alguns dos nomes. Mas por que eles não estão tão inseridos no nosso cotidiano quanto o de grandes autores como Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis? Há algum tempo atrás, eu contei a história do As Mina na História, um site criado pela brasileira Bia Varanis que tem como objetivo resgatar a memória de mulheres importantes que foram esquecidas pela história. Dentre cientistas, pintoras e musicistas, havia escritoras. Dentre elas, a mesma Carolina de Jesus que eu cito no começo desse texto. Com os mesmos questionamentos que eu fiz aqui e notando que os nomes de grandes mulheres eram, muitas vezes, relegados ao segundo plano, Bia resolveu criar um portal que as reunisse e “apresentasse” para a geração atual.

Os nomes que eu cito no parágrafo acima são os que figuram entre os mais conhecidos, o que ouvimos falar ao menos uma vez na vida, nem que em uma aula de literatura. Mas e as outras? E tantas mais tão importantes e com obras tão relevantes quanto que acabam esquecidas até mesmo pela literatura? Maura Lopes Cançado, por exemplo, publicou grandes obras nos anos 1960 como O Sofredor do Ver. Diagnosticada com esquizofrenia, porém, foi internada e esquecida. Maria Firmina dos Reis é considerada a primeira romancista brasileira. Negra e nascida no Maranhão, ela também é a autora do que estudiosos consideram o primeiro romance abolicionista do país: Úrsula. Júlia Lopes de Almeida participou da criação da Academia Brasileira de Letras, mas você não ouviu seu nome nem mesmo em sala de aula, certo? A ABL, aliás, só passou a permitir mulheres em suas cadeiras a partir de 1977, com Rachel de Queiroz.

Foi pensando nisso e inspiradas pelo movimento #readwomen, criado pela escritora e ilustradora britânica Joanna Walsh e que tem como proposta priorizar um livro escrito por uma mulher na sua próxima leitura, que as brasileiras Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques se uniram e criaram o Leia Mulheres, um “clube de leitura” que tem como objetivo divulgar escritoras não tão conhecidas e incentivar a leitura de obras escritas por mulheres. Iniciado em São Paulo, o projeto já chegou a 45 cidades brasileiras e 20 estados. Além da leitura, a mediadora – que é sempre uma mulher - levanta debates sobre a importância do livro para a sua época, a obra na atualidade e o que ele representa.

Como a própria Juliana diz, não se trata de “literatura feminina” – afinal, não existe “literatura masculina” – mas sim literatura feita por mulheres. E uma literatura de muita qualidade, com relevância história que merece ser conhecida. Muitas das autoras que eu cito nesse texto não têm novas edições de suas obras publicadas há anos, várias possuem livros quase impossíveis de achar. Mais do que uma injustiça histórica, trata-se de uma pena e uma perda. Uma pena por ainda não darmos o destaque merecido a preciosidades encontradas no nosso quintal e uma perda para o público, que não tem acesso a uma gama de grandes obras nacionais.

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