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Donas da rua e da bola

      
Donas da rua e da bola
Donas da rua e da bola  |  Fonte: Shutterstock
Sttela Vasco - Universia Brasil

Sttela Vasco

Sou jornalista e repórter na Universia Brasil. Apaixonada por livros, cinema, café e chocolate assino a coluna Sobre Elas, na qual falo sobre a mulher e a presença feminina nas mais diferentes áreas da sociedade

Em 2016, durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro, algo curioso aconteceu: por algumas semanas, o futebol feminino ganhou tanta visibilidade e apoio – ou até mais – do que o masculino. Enquanto de um lado os homens começavam a competição com um jogo feio e pouco estimulante, do outro, as meninas levavam a torcida ao delírio. O ápice aconteceu em 13 de agosto, quando elas venceram a Austrália nos pênaltis em uma disputa literalmente gol a gol e foram à semifinal. Lembro de torcer, sofrer e vibrar junto com o time e, após um jogo muito tenso, falar com orgulho sobre o resultado e como elas haviam jogado bem. No entanto, passada a Olimpíada, o futebol feminino foi relegado ao escanteio novamente. O contraste entre esse momento de admiração e felicidade por ver mulheres conquistando um espaço predominantemente masculino – e serem reconhecidas por isso – e o súbito esquecimento do mesmo me fizeram pensar: por que o futebol ainda é um “esporte de menino”?

Apesar do debate sobre diversidade e mudança de estereótipos de gênero que vem ocorrendo, o futebol ainda é visto como um esporte masculino. Tanto para quem assiste e, principalmente, para quem joga. E isso vem desde a formação. Eu lembro de, durante as aulas de Educação Física na escola, os professores colocarem as meninas na arquibancada e dedicarem o período todo aos meninos, para eles jogarem bola. O nosso esporte era o handball e, nas poucas vezes em que o futebol entrava em cena, era para rirem do amontoado de pernas que se tornava uma partida feminina. Mas como jogar algo que você nem aprendeu?

Os garotos são, mesmo que de maneira inconscientemente, levados a saber e gostar de futebol desde que nascem. Se o tradicional símbolo da infância para a garota é uma boneca, para eles é a bola. Simples assim. E ensiná-los sobre o esporte – a jogar e a admirar – é um passo tão natural quanto aprender a falar. Infelizmente, percebo que, muito tempo depois, a realidade nas escolas permanece mais ou menos a mesma. O futebol é o esporte dos meninos, o incentivo às meninas é baixo e uma menina que gosta de jogar é exceção – e aclamada por ser uma exceção. No país do futebol, o jogo ainda é somente deles.

Pensando a respeito e buscando mudar um pouco esse fato, a Mauricio de Sousa Produções, em parceria com o time de futebol feminino Pelado Real, e por meio de seu projeto de empoderamento feminino, o Donas da Rua, criou em março de 2016 o Soccer Camp Donas da Rua: um torneio de futebol exclusivo para meninas e que visa difundir a cultura do futebol. A primeira edição ocorreu em 2016 e reuniu 56 meninas de seis a 18 anos. Programada para acontecer nas férias, a próxima edição ocorrerá nos dias 28, 29 e 30 de julho, dessa vez para meninas de 5 a 14 anos. As inscrições já estão abertas.

A participação efusiva das meninas no projeto e o impacto do mesmo também foi pauta do evento “Meninas que Jogam”, que ocorreu no Museu do Futebol no dia 6 de junho. Além do Soccer Camp, o encontro trouxe também dados obtidos por uma pesquisa realizada pelo programa “Uma Vitória Leva à Outra”, da ONU Mulheres, que apontaram que 49% das meninas abandona a prática esportiva por motivos como baixa autoestima e vergonha do próprio corpo. Ou seja, à primeira vista, pode parecer que se trata somente de um esporte, mas, na verdade, é muito mais do que isso.

Tal consciência chegou também às empresas. Há pouco tempo, eu comentei sobre como a indústria dos brinquedos, em especial a das bonecas, tem buscado se adaptar à atualidade para se manter no mercado. Isso também acontece com outros setores. A Always, por exemplo, levou um Emmy em 2015 pela sua campanha “Like a Girl”. Lançada no SuperBowl, a propaganda visava desconstruir percepções negativas sobre as meninas que vinham implícitas no termo “como uma garota”. Entre elas, estavam os esportes. A Nike, em março deste ano, colocou no ar a campanha “What are girls made of?” (Do que as meninas são feitas?, em tradução livre) com mulheres praticando as mais diferentes modalidades. Logo, mais do que cultural, há uma questão comercial e de ganhos financeiros e sociais na inclusão de meninas como público-alvo de esportes.

Em uma pesquisa desenvolvida pelo Studio Ideias para a marca de achocolatado Nescau, em parceria com a 6510, consultoria especializada em comunicação com mulheres, descobriu-se que enquanto 69% dos meninos entre 8 e 12 anos praticam esportes na rua, o número de meninas cai para 59%. Desse dado, nasceu a campanha da Ogilvy Brasil, “Meninas Fortes”, que tem como objetivo convidar o público a refletir sobre a importância do esporte no desenvolvimento dessas meninas e seu papel na vida adulta.

Os esportes e, no Brasil principalmente, o futebol, são mais do que diversão ou entretenimento. São lições de trabalho em equipe, de paixão, de acreditar em algo e, principalmente, em si mesma. Barrar as meninas do lembrar da existência de uma seleção feminina apenas quando elas brilham em uma Olimpíada não prejudica somente o esporte em si, mas todas aquelas – e aqueles também – que seriam inspiradas e impactadas por ele. Está mais do que na hora de deixar elas entrarem e serem donas da bola.

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