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A primeira dona da rua

      
A primeira dona da rua
A primeira dona da rua  |  Fonte: Divulgação
Sttela Vasco - Universia Brasil

Sttela Vasco

Sou jornalista e repórter na Universia Brasil. Apaixonada por livros, cinema, café e chocolate assino a coluna Sobre Elas, na qual falo sobre a mulher e a presença feminina nas mais diferentes áreas da sociedade

Personalidade forte, coelhinho azul na mão, vestido vermelho, dentucinha e sabichona. Se existe uma personagem que marcou a minha infância – e a de tantas outras gerações – com certeza foi a Mônica. Foi ela o meu primeiro exemplo de personagem feminina forte e, principalmente, protagonista. Claro que, com meus três ou quatro anos, eu não tinha consciência da importância que havia no fato de ela ser uma menina forte – literalmente – destemida, que se defendia e dava nome a uma turma cujos gibis são o primeiro contato com a leitura de muitas crianças brasileiras (eu inclusa). Eu não notava na época e levei alguns anos para perceber, mas a Mônica, sendo fora de qualquer padrão de beleza e com seu jeitinho único, ajudou a construir a minha identidade e a perceber que as meninas podem sim liderar e ser “donas da rua”.

A história da Mônica em si já tem tudo a ver com empoderamento e representatividade. Criada em 1963, a líder da turma não foi a primeira personagem de Mauricio de Sousa. Na verdade, ela apareceu pela primeira vez em uma tirinha do Cebolinha publicada na Folha da Manhã e veio após o desenhista ser cobrado por ter somente meninos em suas tiras, algo que fazia por acreditar que não saberia falar sobre mulheres. Porém, não foi preciso ir muito longe para encontrar a inspiração, sua filha, Mônica Sousa, na época com três anos, era fonte para várias tirinhas e situações engraçadas. E assim, sem ser planejada, nasceu a garotinha superforte do vestido vermelho. Em uma época em que as mulheres começavam a ganhar mais espaço, ter alguém como a Mônica, que não tinha medo de se impor e brigava com os meninos, era um passo importante e determinante para a formação de várias gerações.

Agora diretora-executiva da Mauricio de Sousa Produções, Mônica Sousa, diz que a personagem abriu espaço para as meninas, principalmente, ao assumir o protagonismo de algo que, antes, pertencia a um garoto. “Ela mostrou que não é preciso atender a padrões de beleza em troca, por exemplo, de respeito. A Mônica encantou o público com sua personalidade e isso fez com que ela, que havia sido criada como personagem secundária para as tirinhas, assumisse o papel de protagonista, deixando o Cebolinha como coadjuvante”, conta.

E o objetivo é utilizar cada vez mais a personagem para empoderar meninas. Para isso, a própria Mônica idealizou em 2016 o projeto Donas da Rua. Lançado no Dia Internacional da Mulher e com parceria com a ONU Mulheres – com quem, inclusive, a MSP assinou os Princípios de Empoderamento das Mulheres da ONU – ele utiliza o gancho e a força que a Mônica já possui para jogar luz sobre figuras femininas fictícias e reais. “Queremos usar essa força natural delas para que cada menina encontre o potencial que traz dentro de si, mostrando a beleza que existe na diversidade”, explica a criadora.

O formato, que é colaborativo, é bastante simples e mescla figuras históricas com personagens. A mais recente homenageada, por exemplo, foi Yayoi Kusama, uma das principais artistas da atualidade. No entanto, além de homenagear figuras famosas, o Donas da Rua dá espaço também a mulheres do nosso dia a dia, anônimas, para que elas contem suas histórias. Para participar, basta preencher uma ficha com dados e enviar o seu depoimento para o site. Após uma avaliação, ele é publicado junto a dezenas de outros relatos. São mulheres como eu e você que têm toda a liberdade de falar quem são e porque são donas da rua também.

Com slogans como “toda menina é uma dona da rua”, “somos todas donas da rua” ou “as meninas fortes de hoje serão as mulheres incríveis de amanhã”, a ideia é mostrar que as garotas podem ser tudo o que quiserem e que as barreiras sociais não devem impedi-las de conquistar seus sonhos. “O projeto tornou-se uma missão que nós temos com as nossas crianças para ajudá-las a conhecer e a entender os seus direitos. Acreditamos que meninos e meninas podem aprender a conviver respeitosamente desde cedo e nosso objetivo com o projeto é falar sobre a importância de um mundo com mais igualdade desde a infância”.

E as ações não ficam apenas nas histórias. Como eu contei na coluna anterior, o Donas da Rua criou em março de 2016 o Soccer Camp Donas da Rua: um torneio de futebol exclusivo para meninas e que visa difundir a cultura do futebol. A primeira edição ocorreu em 2016 e reuniu 56 meninas de seis a 18 anos. Programada para acontecer nas férias, a próxima edição ocorrerá nos dias 28, 29 e 30 de julho, dessa vez para meninas de 5 a 14 anos. As inscrições, inclusive, já estão abertas.

E se mesmo com todas essas ações restar alguma dúvida, Mônica é categórica: a personagem é sim feminista. “Eu mesma venho de uma família de matriarcas, de mulheres fortes, desde minha bisavó, a vó Dita. Além disso, sou a filha que serviu de inspiração para a personagem que se transformou em ícone de força feminina no Brasil e que é vista por muitos como símbolo da luta das mulheres por oportunidades iguais a dos homens”, diz.

Ela também comenta sobre a participação de mulheres em cargos de liderança, algo que ainda requer muita luta – atualmente, ocupamos apenas 37% dos cargos de direção e gerência. “Sei que ainda represento uma minoria no mundo e é por esse e outros contextos que queremos cada vez mais atrelar a imagem da Mônica a de uma personagem empoderada e cheia de si”. Como diz a própria personagem em sua música-tema, “se algum menino me contrariar vou mostrar que eu não sou boba não”. Afinal, essa garotinha – assim como todas nós – ainda tem muitas ruas para conquistar.

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