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Resgatando heroínas em páginas de cordel

      
Resgatando heroínas em páginas de cordel
Resgatando heroínas em páginas de cordel  |  Fonte: Shutterstock
Sttela Vasco - Universia Brasil

Sttela Vasco

Sou jornalista e repórter na Universia Brasil. Apaixonada por livros, cinema, café e chocolate assino a coluna Sobre Elas, na qual falo sobre a mulher e a presença feminina nas mais diferentes áreas da sociedade

Há algumas semanas, questionei por que ainda não lermos tanto sobre as nossas autoras. Apesar de possuirmos grandes nomes, não se dá a elas o mesmo destaque que figuras como Jorge Amado ou Machado de Assis possuem – mesmo quando elas participaram até da idealização da Academia Brasileira das Letras, como é o caso de Júlia Lopes de Almeida. Foi pensando sobre isso e em como é preciso resgatar as nossas grandes figuras femininas que eu me deparei com a obra Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis, da Jarid Arraes. Escrito em forma de cordel, o livro de Jarid converge vários temas que já abordei aqui na coluna: o reconhecimento de figuras históricas femininas, a força das nossas escritoras e a necessidade de diversificar as histórias que contamos e de quem contamos.

O formato do livro, cordel, literatura típica do nordeste brasileiro, veio de família. O pai e o avô de Jarid são cordelistas, então, a ida para o gênero foi um passo natural. Porém, a falta de personagens femininas e de diversidade chateava a autora. “Me incomodava que os protagonistas das histórias fossem sempre homens e, quando mulheres, pessoas negras, gays e travestis apareciam, sempre fossem tratados com machismo, racismo e outros tipos de discriminação. Quando decidi dar continuidade à tradição do cordel, resolvi que escreveria protagonistas mulheres e que abordaria temas novos no cordel”, conta.

Decidida a transformar os cordéis em algo que se comunicasse mais com a atualidade e com a própria escritora, ela passou a se debruçar sobre a história de grandes mulheres negras. “Surgiu a ideia de escrever biografias de mulheres negras em cordel, pois, durante toda a minha vida escolar, na faculdade e até mesmo na mídia, eu nunca tinha ouvido falar de sequer uma mulher negra que tenha marcado a história do Brasil. Comecei por Dandara dos Palmares e ao longo desses quase 5 anos fui juntando sugestões dos leitores, pesquisando e desbravando um terreno muito difícil, já que os registros sobre essas heroínas negras são poucos e precários”.

Lendas de Dandara, predecessor do Heroínas e que conta a história de Dandara dos Palmares, companheira de Zumbi, veio após Jarid perceber que ela sempre era contada com ares de lenda ou deixada de lado em prol do companheiro famoso. “Muita gente diz que ela [Dandara] não existiu. Publiquei um texto em 2014 que falava sobre a Consciência Negra, perguntando se as pessoas conheciam a companheira de Zumbi e um comentário em especial me deixou incomodada: a pessoa dizia que Dandara era só uma lenda, algo que as pessoas negras inventaram. Fiquei pensando que nem mesmo as lendas de Dandara nós tínhamos, porque não aprendíamos nada a respeito de sua vida. Então, se ela é uma lenda, eu escrevi as suas lendas para que sejam espalhadas”. Unindo fatos históricos e fantasia, o livro aborda desde a infância da heroína até a sua participação no combate à escravidão e sua vida no quilombo.

E se o assunto são mulheres que a história – e a sociedade – deixaram de lado, é impossível não falar sobre Carolina de Jesus. Recentemente, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) anunciaram a inclusão da obra O Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada, principal obra da escritora, entre suas leituras obrigatórias. Uma das principais escritoras negras da literatura brasileira, Carolina foi relegada ao esquecimento por muito tempo. Para Jarid, esse é o primeiro passo para que as autoras negras consigam maior reconhecimento. “É uma forma de mostrar que a literatura é algo acessível e possível para todos, não é uma espécie de fetiche de poucos, como se fosse um dom dos mais especiais e daqueles que se enquadram numa aparência bem clichê de homem branco de meia idade. Acho que Carolina nos mostra algo que sempre repito: toda literatura é política, quer saiba disso ou não. Carolina sabia da importância política do que escrevia e o fato de ser tão tardiamente e lentamente reconhecida também é uma amostra de como o mercado editorial no Brasil faz política o tempo todo, mas sem se importar em combater seu machismo e seu racismo”.

Ela afirma que, apesar de mudanças graduais estarem ocorrendo, há uma necessidade de o mercado literário como um todo ser modificado para que, tanto escritoras, quanto personagens – fictícias ou históricas – negras tenham espaço. “O mercado, as livrarias, os eventos literários e a mídia ainda associam a imagem do homem branco de meia idade com a credibilidade e qualidade literária. Claro, tudo fruto de muito machismo e racismo ensinado por séculos. Escritoras negras são pouquíssimo publicadas no Brasil, histórias com protagonistas negras são raríssimas se comparadas aos números de histórias com protagonistas brancos (homens ou mulheres). É um quadro complicado porque é profundo e tem suas raízes, no Brasil, ainda nos pensamentos e práticas que foram plantadas no período da escravidão. Precisamos encarar isso de frente, discutir sobre as consequências da escravidão, falar com todas as letras que pessoas negras, por séculos, foram proibidas de aprender a ler e escrever”.

Dois anos e mais de 20 mil cordéis vendidos depois, a escritora ainda tem muitos planos pela frente. Tanto para as obras já lançadas, quanto para futuros projetos. Com um livro de poesias e um romance histórico a caminho, ela pretende se voltar também ao público infantil, mas sem esquecer os adultos. Jarid dá oficinas de escrita sobre heroínas negras e, ao final do livro em si, existe um espaço para que os leitores contem a história. O objetivo é algo mais do que necessário: difundir a cultura do cordel e fazer com mais histórias de outras heroínas sejam conhecidas.

Sobre a importância da obra, ela não tem dúvidas, Heroínas Negras Brasileiras dá um importante passo rumo ao reconhecimento dessas mulheres. [O livro] nos apresenta mulheres negras que foram líderes contra a escravidão, traz escritoras, figuras que falaram contra o racismo e o machismo. Enfim, mulheres negras que foram heroínas em várias épocas diferentes. Isso nos mostra uma luta contínua. E se elas precisaram de heroísmo é porque havia algo a ser combatido, certo?”. Como a própria autora diz, “vamos falar sobre esse algo de forma honesta”, afinal, essas histórias já ficaram esquecidas por tempo de mais.

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