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Por meninas mais fortes

      
Por meninas mais fortes
Por meninas mais fortes  |  Fonte: Shutterstock
Sttela Vasco - Universia Brasil

Sttela Vasco

Sou jornalista e repórter na Universia Brasil. Apaixonada por livros, cinema, café e chocolate assino a coluna Sobre Elas, na qual falo sobre a mulher e a presença feminina nas mais diferentes áreas da sociedade

“Como mostrar para as meninas que elas têm o potencial de transformar o mundo?” Há algum tempo, lá no começo da coluna, eu questionei se nós mostrávamos às nossas meninas todas as possibilidades que elas têm e se permitimos que essas possam ser desenvolvidas. Sabemos que, além de nem mostrarmos às garotas que elas podem ser o que quiserem e que possuem todas as ferramentas para chegar aonde desejam, muitas vezes, também minamos sua autoestima durante fases que são crucias para o desenvolvimento. Foi pensando nisso que a pesquisadora nas áreas de Gênero, Liderança, Habilidades do Século XXI e o Futuro da Educação, Deborah de Mari, criou o “Força Meninas”, uma plataforma de liderança para meninas que tem o intuito de desenvolver habilidades nas meninas para que elas possam, no futuro, serem líderes em qualquer área que quiserem, inclusive, dentro de suas próprias vidas.

Com um histórico em gestão e cargos de liderança, Deborah conta que o empoderamento feminino, especialmente voltado às lideranças, nem sempre foi uma pauta que recebeu sua atenção. “Eu venho de uma carreira corporativa, eu tive cargo de gestão e eu sempre tive uma questão muito forte sobre ser líder, mas não tinha muita clareza sobre a questão da mulher nesse ambiente até ler o 'Faça Acontecer', da Sheryl Sandberg. Porque está embutido [o machismo], mas você nem sempre percebe”. No entanto, quando tal percepção veio, causou mudanças radicais na vida da também jornalista. Após dez anos no mundo corporativo, ela se mudou para Dublin, na Irlanda, onde se aprofundou no tema e começou a desenhar o que viria a ser o Força.

Em meio às pesquisas, Deborah percebeu que, durante a infância, principalmente das meninas, faltava ensinamentos essenciais como inteligência emocional e habilidades não cognitivas, algo que é pedido no futuro. O intuito do projeto, nesse caso, é mostrar às meninas como desenvolver tais pontos a fim de que, quando eles forem necessários, elas tenham consciência de que os dominam. “A gente fala sobre isso [tais habilidades] e eu percebi que a formação disso está na infância. O nosso trabalho tem muito esse fundamento e, quando você está em uma empresa, eles olham muito como você desenvolve tudo isso”. Foi então que sua pesquisa tomou um rumo curioso: as escoteiras. “As escoteiras da Irlanda têm uma lição muito ligada à cidadania. Mulheres que estão nos cargos de liderança foram escoteiras, eu fui entender isso”.

Após muito estudo, Deborah reuniu profissionais que poderiam auxiliar no projeto e deu início à parte prática da ideia. Atualmente, o “Força Meninas” conta, além de Ana Carolina Garini, sócia de Deborah, com mais nove mulheres que ajudam a elaborar os workshops e eventos do programa. Como o próprio projeto explica, “nós capacitamos meninas com habilidades para saberem como expressar todo o seu potencial e criarem uma mudança no mundo”. Para isso, são prestados serviços como mentoria, clubes e comunidade digital que são trabalhados em três níveis de acordo com cada faixa etária: dos seis aos dez anos, dos onze aos quatorze e dos quinze aos dezoito, tudo para que as meninas se desenvolvam confiando em si mesmas e em suas capacidades. “Buscamos o que é necessário para essa menina, para ela ser líder de si mesma e coisas que a gente só descobre às vezes muito adultas como ter autonomia, independência, autoconfiança e tolerância às falhas”, explica Deborah.

Cada “etapa” do programa, que utiliza metodologias como Projeto PBL, Storytelling e Design Thinking, é pensada de acordo com as necessidades das meninas conforme a faixa etária, indo desde o relacionamento consigo mesma até suas relações com os outros e com o mundo. A ideia é pegar momentos de vulnerabilidade, em que, na maioria das vezes, as meninas acabam perdendo a confiança em si, e transformar em pontos fortes. “A gente conversa pouco sobre como dar ferramentas para as meninas e mulheres, sobre como elas conseguem passar para outras meninas. Queremos dar para as meninas essas ferramentas que elas cheguem lá e assim inspirem outras mulheres”.

Muitas das pressões sociais – como padrões de beleza e estereótipos de gênero – são notados por Deborah durante os workshops e são eles que o projeto tenta descontruir. Entre eles estão, por exemplo, os padrões repassados por brinquedos – algo que, como já comentei anteriormente, a indústria está começando a mudar por questões mercadológicas e atuais. “A gente vive em uma sociedade com exigências muito efêmeras. Perguntamos para elas o que elas gostavam de fazer [quando crianças] e muitas responderam que era brincar de Barbie, mas brincar de Barbie era ter o corpo, a casa, o marido perfeito. Como ficou no meu inconsciente o que preciso alcançar para mim? Que eu preciso da vida perfeita. A gente faz esse despertar de como encontrar esse caminho delas”.

Ela cita ainda outra questão muito pertinente no desenvolvimento das garotas: o abandono de atividades que elas gostam em prol de uma maior aceitação. Como é o caso dos esportes. Uma pesquisa realizada pelo programa “Uma Vitória Leva à Outra”, da ONU Mulheres, revelou que que 49% das meninas abandona a prática esportiva por motivos como baixa autoestima e vergonha do próprio corpo. “Elas param de conviver socialmente, mudam seu jeito de vestir e param e isso é fatal para a autoestima. É como se eu tivesse abandonando quem eu era”, comenta Deborah.

Apesar de voltados às meninas e adolescentes, o projeto conta com uma grande participação das mães, uma presença que é motivada pelo próprio Força. “A gente começou com evento só para as meninas, mas sentimos a necessidade de começar com as mães, queremos mostrar que elas são exemplos de estudo, que as meninas vão se basear nelas também”, conta. A ideia agora é também incluir os pais e os meninos nessa história, levando, inclusive, o projeto para escolas. “[Precisamos] conscientizar que essa construção é conjunta. A liderança não é um espaço genuinamente feminino, a gente não aprende a história das mulheres”, afirma.

Ao longo de sua jornada, ela percebeu algo que muitas vezes ainda ignoramos: motivar e empoderar meninas é mais do que somente dar espaço para que haja maior igualdade, trata-se de um passo em direção a uma sociedade melhor, com novas oportunidades e caminhos. Como Deborah diz, “você é muito mais do que uma menina, você é futuro”. E ela não poderia estar mais certa.



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