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Estranho no ninho

      
No primeiro dia de aula de 2002 do curso de Administração de Empresas noturno da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), a classe teve uma surpresa. Entre os alunos, estava André Heller, um dos maiores jogadores de vôlei brasileiros da atualidade, que, aos 26 anos, 12 de vôlei, começava a segunda faculdade (não concluiu a primeira). "Numa turma formada basicamente por grandes empresários e jovens recém-saídos do colegial, todos ficaram se perguntando o que eu estava fazendo ali", conta.

Ele explica: "acho que nós, atletas, não podemos ficar parados. ? bem provável que eu interrompa a faculdade várias vezes até o final do curso, mas não penso em parar de estudar." Neste semestre, por exemplo, André está com o curso trancado. Terminou o primeiro período e precisou parar os estudos para se integrar à seleção brasileira que disputou a Liga Mundial. "Como eu ia ficar o semestre todo fora, a universidade me ofereceu para fazer o segundo semestre à distância, via Internet, mas na seleção não dá. Lá, como não somos contratados, é uma competição muito grande. Preciso estar bem descansado pois estou sempre disputando posição. Pretendo voltar à faculdade no começo de 2003."

André começou a jogar em 1990, aos 14 anos, quando passou na "peneira" do Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo (RS), clube da cidade onde morava, que depois se transformou em Frangosul/Ginástica. "Gostava muito de esporte e sempre preferi o vôlei. Apesar de não ser muito bom, eu era alto (1,78m) e isso conta muito. Os treinadores preferem os adolescentes mais altos, mesmo que não sejam muito bons, aos mais baixos e melhores", explica o jogador, que hoje tem 2,00m de altura e está na seleção adulta desde 97 - à juvenil, foi integrado apenas três anos depois de começar a treinar, em 1993.

Segundo o esportista, a família, formada por duas irmãs mais velhas, hoje professoras de ensino médio, e a mãe, sempre o apoiou. "Enquanto eu ainda não tinha acabado o ensino médio, minha mãe só cobrava que eu priorizasse os estudos", conta. André cumpriu a função: terminou o terceiro colegial com 17 anos, sem perder nenhum ano. Mas, a partir daí, a prioridade do jogador passou a ser o vôlei. "? bem difícil conciliar os estudos e a profissão. Eu estava matriculado em cinco matérias no primeiro período e só consegui dar importância a três, senão, não ia conseguir terminar o semestre. Nunca deixei a faculdade prejudicar o vôlei, mas o contrário sempre acontece, várias vezes faltei às aulas para estar bem para um jogo importante no dia seguinte", explica.

De segunda à sexta-feira, André faz treinamento físico de manhã, das 9h às 12h, e coletivo à tarde, das 17h às 19h30. "Entre os dois períodos, eu descanso, porque no esporte isso é tão importante quanto o treinamento. Vou para a faculdade das 19h30 às 22h30. Quando tenho provas e trabalhos uso a tarde e a noite, depois que volto da faculdade, para estudar e fazê-los", conta o estudante-jogador. "Infelizmente, por enquanto, não consigo seguir o curso de maneira responsável. Preciso me doar muito para o vôlei. Mesmo assim, acredito que todo atleta deve estudar sem prejudicar sua carreira. Mais cinco jogadores do time da Unisul fazem faculdade na instituição. E, como não jogam na seleção, todos estão mais adiantados do que eu", afirma o rapaz, que é fã do ex-jogador Carlão, campeão olímpico em 1992.

Antes da Unisul, André havia começado o curso de Educação Física na Ulbra (Universidade Lutera do Brasil), instituição mantenedora do time que jogou depois de sair do Frangosul. "Mas lá também não consegui terminar porque fui convocado para a seleção e depois mudei de clube e de cidade; fui para Minas, onde não tinha como fazer faculdade". De volta ao Sul, o rapaz optou por Administração porque acredita que o leque de opções de trabalho oferecido por esta carreira é muito grande. "Posso, por exemplo, ser administrador esportivo. Como, depois de parar de jogar, aos 33, 34 anos, pretendo ficar nos bastidores ao invés de ser técnico, este curso pode me ajudar bastante."

O meio-de-rede, que adora assistir a filmes, escutar música e jantar com a namorada nas horas vagas, é tetracampeão brasileiro: duas vezes com o Ulbra, uma com o Frangosul/Ginástica e uma com o Telemig Celular/Minas. Além disso, participou das Olimpíadas de Sidney em 2000 e fez parte da equipe brasileira que foi Campeã da Liga Mundial no ano passado e vice-campeã do mesmo torneio este ano.
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