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A história da Guerra de Tróia

Homero narra em seus poemas Ilíada e Odisséia a saga do conflito


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Por Carlos Brazil

O filme Tróia foi baseado no chamado Ciclo Troiano - que reúne uma série de histórias e mitos relacionados à destruição pelos gregos da cidade de Tróia -, do qual os dois poemas épicos atribuídos a Homero - Ilíada e Odisséia - formam a principal base. Segundo a tradição histórica e literária, Homero teria vivido por volta do século VIII a.C. e referia-se em seus poemas épicos a episódios que teriam ocorrido cerca de 400 anos antes, por volta do século XII a.C.

· altura do século XII a.C., a escrita com base no alfabeto ainda não havia sido desenvolvida. Por esta razão, não há registros históricos que comprovem os eventuais fatos históricos ocorridos. Na ocasião, as tradições eram transmitidas oralmente, de geração a geração, por cantadores, e estavam sujeitas a todo tipo de alteração que essa categoria de divulgação provoca.

Assim, quando Homero - ele próprio uma figura sobre a qual não há comprovação histórica da existência, ou mesmo de que tenha, de fato, sido o autor original da Ilíada e da Odisséia - perpetuou seus poemas, fez com base naquelas histórias orais a que teve acesso e que relatavam feitos - reais ou imaginários - que vinham de uma tradição de centenas de anos.

Mescla de histórias

O filme Tróia, do diretor Wolfgang Petersene do roteirista David Benioff, acaba retratando episódios contados nos dois poemas de Homero e reconstruindo o que teria sido a Guerra de Tróia.

Segundo a obra de Homero, a Guerra de Tróia teria durado cerca de dez anos e seu início foi marcado pelo rapto de Helena, "a mais bela do mundo", mulher do rei Menelau, de Esparta. O autor do rapto foi Páris, filho de Príamo, rei de Tróia.

Para defender sua honra, Menelau e seu irmão, Agamenon, rei de Micenas (ou Argos), reúnem forças gregas de diversos reinos para resgatar Helena em uma ação contra Tróia, que é chamada de Ilion na história narrada por Homero (daí o nome Ilíada).

A Ilíada trata da chamada cólera de Aquiles, principal personagem da história, maior guerreiro grego que acaba se desentendendo com Agamenon - o chamado rei dos reis, líder dos gregos na campanha contra Tróia -, durante o período que situa-se na virada do nono para o décimo ano da guerra.

Aquiles decide deixar os combates após ter uma de suas escravas, Briseida, sua preferida, tomada de seu poder por Agamenon. Como nas guerras da época o saque das cidades dominadas era comum e os bens dessa comunidade eram divididos entre os vencedores - assim como as mulheres e crianças e velhos sobreviventes, que se tornavam escravos -, a pilhagem era também um motor das guerras.

Em uma das batalhas na campanha grega, Agamenon havia tomado como sua escrava Criseida, filha de Crisis, apóstolo de Apolo (divindade solar na tradição grega). Por esta razão, Apolo teria provocado uma praga entre os soldados gregos. Para abrandar a fúria de Apolo, Aquiles sugere a libertação de Criseida e sua devolução a seu pai. Agamenon aceita, mas, para compensar sua perda, exige a escrava Briseida de Aquiles. Após Agamenon se apossar da mulher, Aquiles se revolta e deixa a guerra, junto com seus homens leais.

O grande problema é que Aquiles era o grande guerreiro entre os gregos, a ponto de sua ausência provocar importantes revezes nos combates com os troianos, estes protegidos por uma grande fortificação em torno da cidade.

Aquiles é um semideus (ou herói), isto é, filho de uma deusa (Tétis) com um humano (Peleu). Apesar dessa ascendência, trata-se de um mortal. Na Ilíada, em um encontro com sua mãe, Aquiles é alertado de que se prosseguir na guerra, não voltará jamais.

A busca por vingança

No entanto, Pátroclo, grande amigo de Aquiles, a pedido de Agamenon, tenta convencer Aquiles a voltar aos combates, dado o grande abatimento que se dá sobre os gregos após seu afastamento. Mas ele não consegue demover Aquiles da idéia de manter-se afastado. Pátroclo acaba pedindo a armadura e as armas de Aquiles para que seja confundido com o herói e lidere os gregos contra os troianos. Porém Pátroclo acaba sendo morto por Heitor, grande líder militar dos troianos, também filho do rei Príamo e irmão de Páris.

Após saber da morte de Pátroclo por Heitor, Aquiles decide vingar-se e volta ao campo de batalha. Ele se enfrenta em duelo com Heitor e acaba matando seu oponente troiano. O último canto da Ilíada narra o episódio de Príamo se dirigindo a Aquiles para resgatar o corpo de Heitor e realizar seus funerais.

Partes da Odisséia

No filme Tróia, são incluídos elementos da Odisséia, que é considerado um poema posterior à Ilíada e que narra as aventuras do herói Odisseu (Ulisses, segundo a tradição latina) em seu retorno da Guerra de Tróia para sua cidade, Ötaca.

Na Odisséia, personagens que teriam vivido a Guerra de Tróia ao lado de Odisseu rememoram os episódios passados para os mais diversos públicos. Uma das passagens da Odisséia é a história do cavalo de Tróia, em que os heróis gregos, liderados por Odisseu, constroem um grande cavalo de madeira e o deixam como oferenda aos troianos, em sinal de uma suposta capitulação aos combates. No entanto, guerreiros gregos liderados por Odisseu se escondem no cavalo e, na noite após o cavalo ser levada para dentro dos muros de Tróia, deixam a estrutura de madeira e conseguem abrir os portões da cidade para que as tropas gregas a destruam. Esse trecho da Odisséia é também reproduzido pelo filme estrelado por Brad Pitt, que vive justamente Aquiles na história.

"O filme, pelo que vi, vai contar a história toda. Não vai fazer aquilo que Aristóteles aconselhava: que a ação deve ser una, tem de fazer uma ação concentrada, não adianta querer contar tudo, porque, aí, você não vai conseguir contar bem nada. Mas pelo que vi, o filme vai contar tudo, desde o rapto de Helena até a destruição de Tróia", diz André Malta Campos, professor de Grego Antigo da FFLCH- USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo).

Além da aglutinação de histórias contadas nos dois poemas, o filme inclui ainda cenas editadas com "liberdade poética" que não são narradas por Homero. Há também uma grande influência da literatura posterior a Homero que desenvolve e dá seqüência a histórias e mitos inicialmente apresentados pelo autor.

"Isso (a livre adaptação de obras literárias) é muito comum no cinema. Eu acho que ele (o filme Tróia) vai ter um grande apelo de público, principalmente por causa do Brad Pitt, que faz Aquiles. Por exemplo, minha filha que tem um interesse cultural muito diferente do meu e que desde pequena sempre ouviu as histórias gregas, e nem por isso se interessou muito pelos gregos, como acontece em todas as famílias, já me falou desse filme por causa do herói. Os americanos têm uma tendência para não serem muito fiéis às histórias. Acho que eles têm mais um objetivo comercial", explica Filomena Hirata, professora de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH-USP.

"Mas eu acho que o cinema tem trazido boas reproduções dos mitos antigos. Pelo menos dentro daquilo que eu pude ver: Electra, de (Michãl) Cacoyannis, nos anos 60; a Ifigênia, também do Cacoyannis, mais recentemente; até uma versão de As Troianas, também do Cacoyannis, com atrizes americanas. Eu acho que há exemplos marcantes. O cinema tem feito, pelo menos, muito boas apresentações daquilo que são as tragédias gregas. Então eu acho que o cinema faz isso com sucesso... No geral eu gosto muito do que o cinema faz", diz a professora.







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