Sunday :: 20 / 04 / 2014

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Na sala de aula, com prazer, aos 60, 70, 90 anos


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Eles estudaram, trabalharam, casaram, criaram filhos e tiveram direito à aposentadoria. Cada um a seu modo, vivenciaram o mundo e sobreviveram a ele. Fecharam um ciclo da vida e iniciaram outro, desta vez nas salas de aula. São senhores e senhoras que formam um grupo heterogêneo de alunos que, duas vezes por semana, freqüentam os cursos livres das faculdades e universidades do País.

Essa terceira idade bem informada e disposta a aprender é responsável por uma proliferação de cursos focados em quem já passou dos 60 anos. Sem exigências de diploma, processo seletivo, provas ou monografias finais, eles assistem a cada aula com uma perspectiva bastante diferente da dos jovens.

Não precisam de graduação, promoções no emprego ou títulos acadêmicos.

Simplesmente querem estar lá, por puro prazer. O resultado, segundo os professores, é uma pedagogia diferente, de educação permanente, continuada.

E também eclética: estudam-se orientações de saúde, cultura brasileira, estratégias de comunicação, biodiversidade, economia, filosofia, política internacional, informática e uma série de outras disciplinas, desde que acrescentem algo à formação e à compreensão da realidade.

"Me aposentei em 1996, depois de trabalhar por 47 anos numa mesma empresa.

Tenho biblioteca, livros e computador em casa. Mas aí eu lia um pouco e via televisão. Só que a televisão não era suficiente para mim. Um dia meu filho disse que tinha um curso para a terceira idade na PUC (Pontifícia Universidade Católica). Fui até lá e estou há sete anos", relembra Chaim Siche Kuperman, de 89 anos.

"? uma verdadeira terapia, a gente encontra colegas com interesses parecidos, que dá para bater um papo. Para aprender e ensinar."

Desde então, Kuperman conta que teve sua rotina alterada. Duas vezes por semana está na universidade e nos outros dias dedica-se a estudar os conteúdos aprendidos em sala de aula.

"O professor dá aula, tomo nota no caderno, chego em casa, pego os livros e começo a estudar. Também pesquiso no computador. Meu filho diz que o computador é burro e que a gente é que é inteligente, mas acho que comigo é o contrário, porque eu aprendo muita coisa pesquisando nele", diz, em tom de brincadeira.

Aqui e agora - Assim como foi para Kuperman, o convívio com outras pessoas que estão vivendo a mesma fase da vida, reinventando o perfil do idoso, é um dos principais fatores que explicam o sucesso desses cursos, de acordo com o sociólogo e gerontólogo Antônio Jordão Netto, presidente da Associação das Universidades e Faculdades Abertas para a Terceira Idade do Estado de São Paulo (Aufati) e coordenador dos cursos para a terceira idade da PUC-SP e da Uni Sant'Anna.

"São pessoas que se recusaram a assumir o papel de idoso desanimado, que fica em casa sendo babá de luxo dos netos. São pessoas com energia, ativas, que precisam de um canal de expressão", afirma Netto.

"Para simbolizar esse pensamento, nós rejeitamos a expressão "no meu tempo".

A gente trabalha com o conceito de que o "meu tempo" é aqui e agora. Não ficar atrelado ao passado, nem ansioso com o futuro."

De acordo com Netto, há cerca de 180 cursos em instituições de ensino superior públicas e particulares do País, aproximadamente 80 no Estado de São Paulo. A única exigência para o ingresso é a idade: alguns a partir dos 40, outros dos 50 e outros ainda dos 60 anos. Os preços variam de R$ 40 a R$ 100 por mês.

Todos baseiam-se no primeiro programa desse tipo, criado em 1973 pelo professor Pierre Vellás, da Universidade de Toulouse, na França. Observando o crescimento da população idosa, que cada vez mais buscava um novo padrão de vida, mais presente e participativo, Vellás organizou o primeiro curso livre da terceira idade - uma idéia que se espalhou pelo mundo na década de 80 e, em 1990, chegou ao Brasil, com a inauguração do primeiro curso na PUC de Campinas.

Extraclasse - Os cursos possibilitam também um convívio social renovado, que inclui parcerias para concertos, peças de teatro e reuniões nos fins de semana. "Quando me aposentei, fui fazer uma viagem de dois meses pelo mundo. Um dia depois de voltar fiquei com pneumonia. Fiquei com febre por mais dois meses, até descobrir o curso, num jornal que vi na farmácia. Quando comecei, nunca mais tive febre. Era falta do que fazer", diz a executiva aposentada Betty Jona, de 69 anos, uma das primeiras a se matricular no curso da PUC-SP, o primeiro da capital.

"Resultado: estou aqui há 12 anos e não pretendo parar. Venho todas as semanas, nem que seja de bengala."

Betty participa de todos os eventos sociais do grupo, o que inclui até visitas a sua chácara, no interior do Estado. "São pessoas mais heterogêneas. No meu trabalho era fechada, mais brava. Agora sou mais risonha, tenho novos amigos", completa.

O laço emocional fez com que o curso que, no início duraria três semestres, ganhasse uma continuidade indefinida. A cada semestre, novas disciplinas são oferecidas. Eles se recusam a parar e vão emendando os anos.

"Conversando com outras pessoas, trocando experiências, aprendendo, a gente percebe que coisas que antes eram um problemão não são tão graves assim.

Antes, eu via meus netos chegando de madrugada em casa e achava que era um fim de mundo. Agora, aprendi que não é assim, que a gente tem de viver a vida mais naturalmente. A gente já cumpriu nossa obrigação com eles e temos agora de aproveitar o nosso tempo", diz a pensionista Laura Pinto Bereoff, de 70 anos, que está no terceiro semestre do curso da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Atualização e reciclagem - Recentemente, para atender pessoas interessadas, mas que moram em outras cidades ou estão impossibilitadas de se deslocarem, a universidade criou o curso online, que pode ser acompanhado totalmente pelo computador. São os mesmos conteúdos dados em classe, colocados na internet.

Para a professora e idealizadora do projeto, essa é também parte da função do curso. "A gente trabalha para dar qualidade de vida ao idoso, levar informação e convívio. São atualizações e reciclagens de conhecimento, ensinamentos de saúde e informática", afirma Nadir Nogueira, responsável pelo programa da Unifesp.

"O desafio é ensinar de uma maneira que a gente não ofenda quem sabe bastante e não impossibilite o aprendizado de quem sabe menos. Temos alunos doutores, com diversas especializações, e outros que nunca fizeram um curso de graduação. Mas, nos trabalhos em grupo, todos se ajudam."

Pela resposta dos alunos e do número de cursos existentes, o desafio está sendo superado. Em uma sala de aula com jovens senhores e senhoras, nota-se o entusiasmo. "Essa nossa terceira idade é a melhor mesmo, não é?", diz Laura, sintetizando, talvez sem saber, a sensação de muitos dos seus outros colegas de classe.

Fonte: O Estado de S.Paulo







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