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Coragem e trabalho duro

      

Abrir uma empresa aos 21 anos de idade e chegar aos 27 bem-sucedido é fruto de muito trabalho, boas idéias e paixão pelo empreendedorismo. Este é o caso do baiano Fabrício Bloisi que, junto com seu sócio Fábio Póvoa, decidiu em 1998 abrir seu próprio negócio após três anos envolvido no trabalho da COMPEC (Empresa Junior de Computação) da Unicamp, onde cursava Ciências da Computação.

A empresa de Fabrício, a Compera, tem sede em Campinas, e fornece soluções tecnológicas, no mercado de internet móvel, para corporações. Entre os clientes estão a Minasgás, Camargo Correa, Ultragás, IBM e 60% das operadoras de telefonia celular do país, entre outras pela América Latina. Em 2001, a empresa recebeu recursos do grupo Rio Bravo Investimentos, cujo sócio é o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, que desde então é conselheiro da Compera. Do início da empreitada em 1998 até hoje, o faturamento não pára de crescer. Em 2003, foram R$ 2,5 milhões e a previsão é fechar 2004 com R$ 4 milhões.

Nesta entrevista, Fabrício Bloisi conta sobre a trajetória de seus negócios e dá dicas para jovens empreendedores.

Você e seu sócio receberam noções de empreendedorismo quando estavam na universidade?
Um mês depois que ingressei na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), em 1995, entrei para a COMPEC, a Empresa Junior de Computação da universidade, totalmente gerida pelos alunos. Lá, passei por todas as etapas possíveis, fui desenvolvedor, analista, gerente de projeto, diretor comercial e presidente do conselho. Acho que esse tipo de iniciativa é uma grande contribuição das instituições para o ensino do empreendedorismo, pois aos 19 anos um aluno estará com uma empresa - ainda que pequena - nas mãos, tendo de fazer planejamento e direcionar seus negócios. Eu recomendo realmente que as pessoas tenham essa experiência, pois se aprende muito, o estudante cresce e amadurece bastante.

Foi através da COMPEC que surgiu a idéia de montar uma empresa com um colega de turma?
Tomei a decisão depois de três anos na COMPEC, em 1998. Percebi que era uma boa idéia montar uma empresa de novas tecnologias com um colega, o Fábio Póvoa, que na época era gerente de projetos da Empresa Junior. Nossa primeira sede foi na sala da casa dele, onde ficamos por volta de cinco meses. Peguei meu micro, ele pegou o dele, ligamos em rede, e trabalhávamos das 8h às 18h. Ficamos um ano sem ganhar nada até conseguirmos nosso primeiro cliente. Depois disto, participamos de um edital de uma incubadora de Campinas, a Ciatec (Companhia de Desenvolvimento Pólo de Alta Tecnologia de Campinas), e fomos selecionados. Ganhamos um espaço de 3x4 metros quadrados e uma linha de telefone para trabalhar.

Quando montaram a empresa, qual grande produto ou idéia vocês tinham em mãos?
Nenhum produto, começamos totalmente do zero, apenas com vontade. Na época, eu tinha lido em uma revista sobre uma empresa e resolvi fazer igual. Só tínhamos um plano, de começar do nada e ter um grande negócio. Eu gosto muito do Bill Gates, e pensava "puxa, ele montou uma empresa legal que é a Microsoft, por que não montar um competidor para ela?" Aí escolhi uma área que nos interessava, que é a de tecnologias Web e Internet. Eu e o Fábio fomos a uma livraria, compramos alguns livros e começamos a estudar sobre o assunto para descobrir como é que se desenvolvia algo nesta área.

Como se deu o processo de crescimento da empresa?
Um ano e meio depois de iniciarmos nosso trabalho com Internet e e-business, resolvemos direcionar nosso foco para Internet móvel que, naquela época, nem existia ainda. Não havia o SMS (serviço de envio de mensagem de texto por celular) e começamos a vender soluções para mensagens de texto. Daí partimos para todo tipo de tecnologia móvel, seja SMS, WAP, navegação pelo celular, computador de mão ou outros recursos. Crescemos de duas pessoas para pouco mais de 50, mas nossa meta é ter 5.000 pessoas trabalhando em todo o mundo, levando a empresa à atuação global.

O que é mais difícil, abrir ou manter o negócio?
Eu costumo dizer que as duas coisas são igualmente difíceis. Ser empreendedor é sempre muito, muito complicado. Só consegue desenvolver uma empresa quem tem uma paixão, uma motivação própria, um sonho pessoal. Nós, por exemplo, passamos o primeiro ano correndo atrás de clientes e não tínhamos sequer um e por isso não ganhávamos um centavo. Ainda bem que estávamos na faculdade e ainda conseguíamos receber uma mesada para sobreviver. Dava um desânimo imenso, mas a principal característica do empreendedor é justamente essa, não desistir e conseguir encontrar incentivo sozinho. Nós acreditávamos apaixonadamente na nossa idéia e queríamos que ela fosse uma brincadeira com muitos e muitos anos pela frente.

Quais as principais dificuldades que um empreendedor enfrenta?
Não querendo desanimar ninguém, mas ser empreendedor no Brasil é algo muito difícil. Precisamos mesmo expor estas dificuldades e esperar resultados por parte do governo e da sociedade, a fim de que isso melhore especialmente quanto às questões tributárias e trabalhistas. Esta burocracia é uma das piores do mundo. Outro ponto é que no país é praticamente impossível conseguir dinheiro para investir. Com tudo isto para enfrentar, é preciso trabalhar muito, em um ritmo alucinante.

Destaque um ponto importante, além do trabalho, para o sucesso de uma empresa.
Planejamento. Quando fazemos o planejamento para os próximos dois anos da empresa, o mais comum é que tudo saia completamente diferente, sejam os prazos, os números, enfim, tudo. Ainda assim, ele é importantíssimo, pois desta forma é possível manter o "norte" e alinhar as pessoas e os parceiros para caminhar, mesmo que haja algum imprevisto ou a estratégia mude.

Você e seu sócio eram colegas na Empresa Junior. Que dica você daria para a escolha do sócio na abertura de um empreendimento?
Não sei se chamar o melhor amigo é a melhor forma para se iniciar uma empresa. Os sócios podem até ser amigos, mas o principal é que consigam trabalhar juntos e se completem. Um tem algumas características mais fortes, o sócio deve ter outra, e assim se conseguem resultados. Eu, por exemplo, penso em longo prazo, o Fábio, mais em curto prazo. Vejo muitas empresas começarem entre amigos, mas tem que se ter em mente que a relação pode mudar com os anos, com o desgaste do dia-a-dia.

Quais características você destacaria como importantes em um empreendedor?
Coragem, sede pelo desafio, paixão por montar uma empresa e batalhar para fazê-la acontecer. O desejo de ser empreendedor tem que realmente vir do íntimo, não pode ser imposto por outras pessoas. E, insisto, saber planejar.

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