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Noticia

A linguagem dos jovens

20/5/2005


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Universia Brasil

O uso do ïinternetês` e o exagero do gerúndio no dia-a-dia de universitários preocupam os professores de Língua Portuguesa. Especialistas apontam se os jovens sabem distinguir o momento de usar a norma padrão da língua.

Junto com o surgimento dos comunicadores instantâneos (chats online, blogs, MSN, ICQ), surgiu também uma linguagem típica da Internet. Ela é caracterizada pela agilidade e facilidade de escrita, e, por isso, é composta quase que inteiramente por abreviações - ou podemos até dizer por códigos. Aliás, se uma pessoa que não está acostumada a conversar em chats online, se deparar com a frase abaixo, dificilmente conseguirá entender muita coisa:

Pq vc naum xego na hr q eu t flei?

Traduzindo, seria: "Por que você não chegou na hora em que eu te falei?". Esse é o chamado "internetês", a linguagem típica usada para se comunicar na Internet. Para os jovens acostumados com esse linguajar, o mais importante quando se está conversando virtualmente é se fazer entender e, mais do que isso, da maneira mais rápida. Porém, não é apenas no mundo virtual que os jovens mantêm relações sociais. Diariamente, ele é cobrado na escola, universidade ou no trabalho para que tenha o português impecável. Mas, será mesmo que os jovens de hoje escrevem corretamente?

"Com base na minha experiência como corretor de vestibulares de grandes universidades públicas e particulares, diria que muitos jovens escrevem muito bem, com originalidade e criatividade. Todas as generalizações são perigosas, como dizer que ïos jovens de hoje não escrevem bem como os de antigamente`. Um bilhete para uma empregada, uma carta de amor, um requerimento para o INNS e um trabalho acadêmico para uma revista têm diferentes finalidades", explica o professor do Departamento de Lingüística Aplicada da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), John Robert Schmitz. "Um requerimento e um trabalho em revista científica devem obedecer às regras da norma culta. Numa declaração de amor ou em um bilhete, quem escreve tem mais liberdade redacional."

Já a professora do Departamento de Metodologia do Ensino da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Claudia Reyes, acredita que os jovens têm muita dificuldade em escrever corretamente. "Isso tem um pouco a ver com a história da leitura e escrita no Brasil. Na década de 80 houve uma interpretação errônea por parte de quem estava aplicando as políticas públicas de Educação, pois achavam que não se deveria corrigir os alunos para não reprimir a escrita. Foi por isso que os estudantes tiveram muitas dificuldades em se adequar à norma padrão, ortograficamente correta, quando chegaram na universidade", conta.

Nesse contexto, é necessário que os jovens saibam distinguir exatamente os momentos em que precisam usar a norma culta daqueles em que podem usar uma linguagem mais informal, ou mesmo o "internetês". Esse é o ponto principal. "Em si, o ïinternetês` é igual a qualquer outro gênero de escrita, e deve ser usado em ambiente próprio", alerta a também professora do Departamento de Lingüística da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Maria Irma Hadler Coudry. "O que é desaconselhável? Usar o ïinternetês` fora de seu ambiente, por exemplo, para escrever textos solicitados pela escola. O jovem deve ajustar o tipo de escrita para o seu leitor. O ïinternetês` em si não faz mal nenhum; a criatividade humana tem inventado diversos tipos de escrita. Isso é uma característica da própria escrita."

Claudia conta que alguns de seus alunos da graduação em Pedagogia resolveram fazer um estudo a respeito da linguagem dos chats. A questão principal, colocada no trabalho, era se ela interferia na escrita padrão dos jovens. "Eles constataram que isto não interfere na norma padrão. Os alunos, por exemplo, querem escrever ïcada` e escrevem ïcd`, aí o professor corrige e eles passam a usar a norma padrão novamente. São linguagens diferentes, usadas em locais distintos. Assim como falamos outro idioma em outros países, quando estamos na internet falamos outra língua", explica.

A principal função da linguagem, tanto escrita quanto falada, é a comunicação entre duas ou mais pessoas. Assim, se a linguagem cumprir satisfatoriamente esse papel, não importa como é apresentada. "Qualquer linguagem particular obedece aos princípios gerais do sistema lingüístico, mas o restante é algo pessoal. Uma vez que é aceito, não há problema nenhum. O que acontece no linguajar da internet é que tudo hoje é mais corrido, por isso as palavras são cortadas ou abreviadas", relata o professor de pós-graduação em Lingüística e Língua Portuguesa da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e organizador do Dicionário Unesp de Português Contemporâneo, Francisco S. Borba. "O perigo que se corre é de chegar à uma forma tão condensada e complexa, que acaba sendo obscura e secreta - e aí ela perde a função comunicativa. Em princípio, tudo bem, cada um usa a linguagem do jeito que quer, na condição de que se faça entender."

Ainda assim, muitos professores de português estão assustados, achando que o internetês pode tomar conta das salas de aula e fazer com que os estudantes simplesmente desaprendam a norma culta da língua ou pior, nem aprendam. Com a argumentação acima, por que será que ainda assusta? "Talvez a escola não esteja dando conta de ensinar o português padrão e as crianças não estão aprendendo a escrever e, por conta disso, migram o internetês para a sala de aula. Isso não deve acontecer, pois cada gênero tem o seu ambiente próprio e a escola não precisa ficar assustada. Tudo é uma questão de ajuste. Não faz mal, é um outro tipo de escrita, um novo gênero de discurso", ressalta Maria Irma.

Uso do gerúndio

Outra questão que toma conta do português contemporâneo é o uso do gerúndio, o chamado "gerundismo". O professor Schmitz, da Unicamp, lembra que o termo não está registrado no dicionário Houaiss. "Imagino que ïgerundismo` seria o uso exagerado do gerúndio ou especificamente o uso do gerúndio em frases como: ïVou estar enviando um fax esta tarde`", explica.

No Brasil, os principais disseminadores do gerundismo são os atendentes de telemarketing. Cada vez se torna mais comum o uso de frases como: "Vamos estar passando a sua ligação para o outro setor" ou "vamos estar enviando o seu produto amanhã pela tarde". Sua utilização tem se proliferado pois a perífrase com o gerúndio tem um valor progressivo, dá a idéia de uma ação que continua. Mas, será necessária a construção de frases dessa maneira? "Considero o uso exagerado de qualquer construção problemático. A repetição constante de gírias, palavrões, e até mesmo o "né" doem nos ouvidos, sem dúvida. ? importante observar que o gerúndio é parte integrante do sistema verbal do português. Refiro-me ao fenômeno de aspecto verbal. O gramático Evanildo Bechara, membro da ABL (Academia Brasileira de Letras) na sua Moderna Gramática Portuguesa apresenta uma análise lúcida sobre o gerúndio", esclarece Schmitz.

Muitos gramáticos e lingüistas acreditam que o gerundismo surgiu da tradução literal do inglês. Na língua inglesa existe o tempo que diz ïeu vou estar fazendo`, que é o ïI will be doing`. "Esse tempo foi traduzido literalmente para o português e, de repente, essa coisa começou a pegar. Quem trabalha com Língua Portuguesa e Inglesa percebe que é uma tradução indevida, porque em Português há construções semelhantes e melhores do que essa com o gerúndio", rebate o professor de Inglês da Faculdade de Educação e Letras da Metodista (Universidade Metodista de São Paulo), Esdras Pinto da Silva.

"Lido muito com linguagem, só trabalho com a língua escrita. Estou a toda hora na internet, jornais, livros, em todo lugar e tenho percebido que o uso do gerúndio já está se arrefecendo. Na verdade, o que há aí, não é o uso indevido, é uma extensão do uso comum que é inadequada e, além disso, mais difícil do que a forma adequada ", analisa Borba.

Será que vai para frente?

Quanto ao uso exagerado do gerúndio ser um modismo ou uma "mega" tendência que veio para ficar e se incorporar de vez à fala do brasileiro, as opiniões divergem. "Quem trabalha com idiomas sabe que a língua vai adquirindo, emprestando coisas, vocábulos e estruturas de outras línguas, mas o gerundismo é algo mecânico e desnecessário. Por que eu tenho que dizerïvocês vão estar trabalhando com este texto`, se ïvocês trabalharão com este texto` é mais simples, mais brasileiro?", comenta Silva. "O gerundismo foi uma moda, e agora já está diminuindo. As pessoas estão percebendo que é uma perífrase inútil e a inutilidade na comunicação humana é espontaneamente eliminada", acrescenta o professor da Unesp.

Já o professor Schmitz acredita que quando um advogado diz "vou estar cuidando do seu caso", ele quer dar a idéia que continuidade e mais apreço pelo cliente. Soaria mais frio e seco se o profissional dissesse, simplesmente: "Vou cuidar do seu caso". "Diria que não é uma tendência, é um fato. Veja qualquer texto escrito e ouça qualquer conversa. Neles, se encontram vários tipos de gerúndio, todos descritos no livro de Evanildo Bechara", observa.

Para o professor da Unicamp, é importante distinguir entre os que nunca tiveram a oportunidade de estudar e tachá-los de ïignorantes` por não falar de acordo com as regras do idioma. "A escola deve ensinar a norma padrão sem ofender os que ouviram outra variedade de português em casa. Trata-se de uma discriminação lingüística que, possivelmente, esconde outros preconceitos - de classe social, raça e religião", finaliza Schmitz. "Você não pode impedir o desenvolvimento de uma língua, pois é algo dinâmico. Não podemos dizer: isso não pode, isso não deve, isso é desaconselhável", explica o professor da Metodista.

A língua muda?

Que a Língua Portuguesa é muito complexa, todos nós sabemos. Tempos verbais diversos, advérbios, perífrases, verbo transitivo direto, intransitivo indireto, oração subordinada. Porém, será que o português do ano de 1500 é exatamente o mesmo que falamos hoje em dia, 2005? ? claro que não. Quem nunca ouviu falar de neologismos ou estrangeirismos? Define-se neologismo como toda palavra ou expressão de criação recente. Podemos citar a palavra xerox, que é usada no lugar de fotocópia. E estrangeirismos são palavras de outras línguas que foram ïaportuguesadas` e incorporadas ao dia-a-dia do brasileiro, como por exemplo, ketchup e abajur.

Tudo isso é sinal de que a língua está em constante evolução e mudança, o que é perfeitamente aceitável pelos lingüistas e gramáticos. "Veja por exemplo a forma de tratamento mais usual, o "você". Começou de uma expressão bem maior, que era "vossa mercê", um tratamento mais respeitoso. Depois foi "vosmecê", "você" e hoje "cê", observa Borba.

Para o professor Schmitz, até as telenovelas mostram as diferenças do português dos séculos dez e nove para a língua portuguesa contemporânea. "A língua muda paulatinamente e nem sempre percebemos as mudanças. ? só notar como é diferente o português do Padre Vieira do falado hoje em dia. Existem bons estudos sobre Gramática Histórica do Português e até Dicionários Históricos".

A linguagem é uma capacidade nata ao ser humano, usada para a comunicação. Essa habilidade se manifesta por meio de sistemas lingüísticos ou língua. A língua é o sistema que cada comunidade usa. Esse sistema vigente nas comunidades precisa ter um determinado equilíbrio ou as pessoas acabam não se entendendo. Mas esse equilíbrio é naturalmente instável, pois a língua está sempre em movimento - uma vez que as pessoas estão sempre falando. "A impressão que se tem é que é a mesma língua, mas cada um tem o seu linguajar. Com isso, ela vai sempre mudar e se movimentar, não só no aspecto fonético, mas também no sentido. Temos muitas palavras aqui no Sul que são diferentes na Bahia. Um exemplo clássico é abóbora, que no Norte é o jerimum. Por isso podemos dizer que a língua está sempre em mudança, no tempo e no espaço", esclarece o professor Borba, da Unesp.

Fonte:Site da CM Consultoria







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