Friday :: 19 / 09 / 2014

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A Construção de Brasília

Por Regina Maria Prosperi Meyer*


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A determinação desenvolvimentista do governo Juscelino Kubitschek (1956-1960) produziu fatos eloqüentes no terreno da urbanização e do urbanismo. A passagem do poder político e da iniciativa econômica para as mãos da burguesia industrial reforçou a cultura urbana. Enquanto a taxa de crescimento da população brasileira foi, na década de 1950, de 3,16%, o crescimento urbano brasileiro atingiu a cifra de 7,38%. Esta hegemonia da cidade sobre o campo refletiu-se no conjunto da rede urbana brasileira. A distribuição espacial e funcional deste crescimento produziu um quadro urbano no qual São Paulo emergiu como a metrópole nacional. O "Plano de Metas", concebido por Kubitschek e sua equipe para ser cumprido em quatro anos, continha uma "meta síntese" de grande impacto: a construção de Brasília, a nova capital.

Um grande concurso nacional que contou com todos os nomes relevantes da arquitetura e do urbanismo brasileiro premiou a proposta do arquiteto e urbanista Lucio Costa. Esquematicamente, o projeto foi concebido sob os princípios urbanísticos elaborados pelos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciams), especialmente aqueles formalizados durante o Congresso de 1933 e documentado na Carta de Atenas, publicada em 1942, que prevê um estrito zoneamento funcional, baseado nas funções morar, trabalhar, recrear e circular.

O projeto, segundo Lucio Costa, "nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz". Procurou-se em seguida uma adaptação à topografia local, ao escoamento das águas, à melhor orientação. Houve uma clara preocupação de aplicar ao urbanismo os princípios considerados mais avançados da técnica rodoviária. Foram eliminados os cruzamentos através de retornos em desnível. 

Conferiu-se ao eixo norte-sul a função circulatória-tronco, com pistas centrais de alta velocidade. Pistas laterais foram previstas para a distribuição do tráfego local, que conduz diretamente ao setor residencial. O eixo transversal leste-oeste, denominado "monumental", recebeu o centro cívico e administrativo, o setor cultural, o centro comercial e de diversões, o setor administrativo municipal. Destacam-se no conjunto os edifícios autônomos destinados aos poderes fundamentais - legislativo, executivo e judiciário - que formam a triangular Praça dos Três Poderes. A partir do edifício do Congresso Nacional, que ocupa o setor oeste da praça, rumo à interseção dos eixos, desenvolve-se a monumental Esplanada dos Ministérios. 

A solução encontrada para o setor residencial foi a criação das superquadras. São quadrados com 250 metros de comprimento, dispostas em ambos os lados da faixa rodoviária e emolduradas por uma larga cinta vegetal. No interior destas superquadras os blocos de residências podem dispor-se de maneira variada, obedecendo a dois princípios: gabarito máximo uniforme (6 pavimentos) e "pilotis" e estrita separação do tráfego de veículos do trânsito de pedestres.

Do ponto de vista das relações espaciais, o zoneamento estrito de Brasília corresponde a três escalas: a gregária, a residencial e a monumental. A primeira corresponde aos setores de diversões e comércio; a segunda, ao setor residencial; e a terceira, ao conjunto constituído pela Praça dos Três Poderes e pela Esplanada dos Ministérios.

O arquiteto Oscar Niemeyer é responsável pelos projetos de todos os edifícios públicos da capital. Existe uma perfeita e intensa relação entre o Plano Piloto concebido por Lucio Costa e os projetos de arquitetura de Oscar Niemeyer. Ambos criaram uma cidade integralmente projetada, considerada como um "objeto" global e único.

* Regina Maria Prosperi Meyer é arquiteta, com especialização em "Urban Design and Urban Planning" (Architecture School of Architecture, Londres), mestrado em Arquitetura e Urbanismo (Bartlett School of Archicteture, University College, London University) e doutorado realizado na FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). Atualmente é professora do Departamento de História da FAU-USP.

** Artigo originalmente publicado no site do Ministério de Relações Exteriores.







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