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JK, um "bom moço" na Presidência

Hábil e carismático, Juscelino Kubitschek marcou a história do país


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Por Renato Marques

Há pouco mais de 50 anos chegava ao poder um dos políticos mais carismáticos da História do Brasil, o popularíssimo Juscelino Kubitschek. Ao assumir a Presidência, em 31 de janeiro de 1956, sob o famoso slogan de campanha "50 anos em 5", JK prometia dar ao país o maior avanço da sua História. Cinqüenta anos depois, suas realizações, seus planos, sua ousadia e, principalmente, seu jeito de fazer política voltam à cena na mídia brasileira.

Ainda hoje as ações econômicas do governo JK são bastante discutidas. Seu carisma e habilidade política, no entanto, não. Durante os cinco anos em que permaneceu à frente do governo federal, Juscelino Kubitschek enfrentou duas tentativas de golpes militares. Resistiu a ambas, sem pegar em armas e, principalmente, sem apelar para um regime ditatorial. Mais do que isso, ainda anistiou os golpistas - que, durante a ditadura militar, voltariam à carga, caçando seu mandato de senador.

"Juscelino Kubitschek foi um homem cordial que nas várias vezes em que se levantaram contra ele, inclusive com armas, ele concedeu anistia e o perdão antes mesmo da declaração de arrependimento de quem quer que fosse. Ele tinha o espírito de tolerância típico dos mineiros", afirma o historiador da UnB (Universidade de Brasília) Octaciano Nogueira. "Os mesmos militares que ele anistiou não tiveram a grandeza que Juscelino revelou como chefe de Estado. Foi injustiçado em vida."

? importante, no entanto, que não se deixe passar a imagem de um "santo". Juscelino também tinha seus problemas pessoais. Um exemplo é a postura que mantinha em relação ao jornalista Carlos Lacerda, seu maior rival. Mesmo depois de extinguir a censura prévia da imprensa, herança do governo Getúlio Vargas, JK proibiu Lacerda de falar no rádio. Naturalmente, para impedir o crescimento do adversário, uma vez que, em meados dos anos 50, a TV ainda engatinhava na sociedade brasileira - o rádio é que tinha força.

Sua postura política pode ser classificada, sem juízo de valores, como a de uma "raposa". Habilíssimo na política, sabia dobrar seus adversários e manter por perto seus aliados. Construía alianças e amizades que o permitiam trafegar entre as mais diversas camadas da política mineira, no início de carreira, e brasileira, no auge. Era também um empreendedor. Ao assumir o governo de Minas, chacoalhara com a estrutura econômica do estado, o que faria também à frente do país.

"O empreendedorismo e a habilidade política eram muito bem conjugadas em sua personalidade. Nesse aspecto, ele inaugurou também um período moderno na política nacional, que seria reproduzido muitas vezes no futuro", relata o professor do Departamento de História da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) João Pinto Furtado. "Juscelino era um político habilíssimo. As coisas não aconteciam por acaso. Na série (JK, exibida pela TV Globo), os dilemas pessoais dele estão muito romanceados. Pelo perfil que traçou a vida inteira, a última coisa que se vê nele é um médico."

Simpatia derrotada

Nem toda a simpatia e o carisma de Juscelino, no entanto, foram suficientes para bater o fenômeno Jânio Quadros na eleição de 1961. Em meio a um crescente descontentamento popular motivado pela alta da inflação e pela falta de ações sociais, JK não conseguiu 'transferir' seu carisma e popularidade para seu candidato, Henrique Lott. De certa forma, nem a derrota de Lott o abalou muito, pois estava de olho no pleito seguinte, as eleições de 1965.

"Juscelino Kubitschek era uma liderança muito carismática, mas era personalista, uma imagem ligada à pessoa dele. E isso ele não conseguiu transferir", explica Furtado. "JK cumpriu seu mandato sem restrições e transmitiu legalmente o cargo a Jânio Quadros. Ele perdeu as eleições para o sucessor, mas isso não o impediu que tivesse um comportamento exemplar ao passar a faixa a ele", complementa Nogueira.

Ao mirar antecipadamente a sucessão de Jânio, JK já começava a preparar sua nova campanha para o governo. Seu slogan não seria mais o memorável "50 anos em 5", mas passaria a ser "5 anos de agricultura para 50 anos de fartura". As alianças em torno da nova candidatura ainda não estavam prontas, mas a caminho. Os possíveis adversários também já estavam traçados (o pior deles deveria ser Carlos Lacerda, da UDN). Juscelino, no entanto, não contava com a renúncia de Jânio Quadros e o conseqüente golpe militar. Ali, sim, sofreu sua mais dura derrota.

"Depois do Jânio Quadros, com aquela renúncia estapafúrdia, veio o João Goulart, que foi um ator que tentou se amparar muito no carisma que possuía junto às classes trabalhadoras. Mas isso não era o suficiente para ele estabilizar o país, certamente não", explica Furtado. "Juscelino, assim como Getúlio (Vargas), conseguia lidar bem com as demandas populares, com o imaginário da massa. E, ao mesmo tempo, conseguia circular com muita desenvoltura em meio às elites, e isso fazia com que ele fosse um candidato forte para as eleições de 65."

Essa percepção sobre a popularidade de JK parece ter sido a mesma da ditadura militar. Em 8 de junho de 1964, Juscelino Kubitschek teve o mandato de senador por Goiás cassado por ordem do presidente Castello Branco. Suas esperanças de voltar à Presidência se diluíram e sua carreira política terminou. Por três anos, ficou exilado em Lisboa. Quando voltou, foi preso e proibido de entrar em Brasília, a cidade que ele havia tirado do papel.

"Talvez JK tenha sido a principal vítima do golpe de 64. A sociedade inteira foi vitimada pelo golpe, mas o foco inicial era uma possível reeleição de JK, coisas que os militares não desejavam", comenta o professor Furtado. "Ele era um candidato com muita força, sobretudo, em função do desastre que se seguiu a ele, quer dizer, o desastre que tem nome: Jânio Quadros. Foi uma gestão muito tumultuada, confusa e que simbolicamente já apontava isso, porque Jânio não foi sequer receber a faixa do presidente."

O estadista

Após sua morte, em um acidente na Rodovia Presidente Dutra, em 1976, JK foi ainda mais rechaçado pelo governo militar, que o tachava de corrupto e o culpava pela crescente dívida externa. Sua imagem, no entanto, começou a ser recuperada nos anos seguintes, retomando o status de estadista. Neste ano, completam 50 anos da posse e 30 anos de sua morte. Para o professor Nogueira, da UnB, as seguidas homenagens estão fazendo justiça a JK.

"Sua história contribui para fazer de Juscelino, nesse período da vida política de 1945 em diante, realmente um estadista. Ao meu ver, ele não tem sido injustiçado. Em vida, sim, foi injustiçado", explica Nogueira. "O valor dele hoje está sendo, aos poucos, recuperado. Essa pecha de ladrão acabou maculando muito sua presença no imaginário simbólico nacional. JK foi a melhor expressão desse período democrático do Brasil. Governou até o fim do mandato e conseguiu debelar duas grandes ameaças militares sem precisar recorrer a regimes de exceção. Isso, por si só, já é um qualificativo interessante."







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