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20/02/2006
Priscilla Borges
Se conseguir uma vaga em universidade pública é por si só uma tarefa trabalhosa, imagine fazer pontos suficientes para colocar o candidato à frente de milhares de concorrentes. Exige esforço dobrado. No 1º vestibular 2006 da Universidade de Brasília (UnB), cinco candidatos - três deles ainda na adolescência - estiveram entre os primeiros colocados na classificação geral. Não, eles não são de outro mundo. São jovens como qualquer um de vocês, leitores. Freqüentam escolas e cursinhos, possuem sonhos, passam pela mesma pressão familiar durante o vestibular, sentem ansiedade e estudam! E não só jovens de classe média que chegam à universidade, não. Renata Rodrigues Rosa, a quarta colocada, superou desafios financeiros para chegar à aprovação em medicina (um curso elitista) na UnB e na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para cursar a graduação em qualquer um deles, ainda terá de vencer outra etapa: conseguir dinheiro para se manter em Brasília ou Campinas. A receita desses campeões (que não têm poderes especiais) é bem simples: se ligue nas aulas e tenha dedicação. O seu dia de glória também chegará.
1º lugar O grande pontuador do último vestibular da UnB foi um jovem piauiense de 17 anos. Hugo Cãtano da Silva Júnior garantiu uma vaga no curso de engenharia mecatrônica, somando 487,3 pontos no total. Tímido, ele conta que quase não acreditou no resultado. Na verdade, depois das provas, teve dúvidas de que passaria no teste. Achou a avaliação difícil e não alimentou esperanças de conseguir uma vaga na UnB. Quando soube de sua colocação, a felicidade se misturou com surpresa. Em casa, pais e parentes orgulhosos comemoraram o brilhantismo do jovem.
O tímido Hugo cresceu em Cocal, uma cidadezinha que fica a 350 Km de Teresina, capital do Piauí. Até a 6ª série, freqüentou os bancos escolares de um pequeno colégio de sua comunidade. Terminou o ensino médio no ano passado e não fez cursinho. Daí em diante, teve a oportunidade de estudar em uma boa escola particular da capital, mantido por uma tia. Enfrentou os primeiros processos seletivos de sua vida escolar sem reforços extras. O ensino na minha escola é muito bom, diz.
Hugo conta que sempre foi bom aluno, mas não era de passar tardes inteiras em cima dos livros. Estudo de uma a duas horas por dia, no máximo. ·s vezes, meus pais até pediam para eu me dedicar mais, conta o jovem, entre risos. O modesto bom aluno já ganhou medalhas em olimpíadas de física, química e matemática. Em sua estréia como vestibulando, também arrebentou. Além do primeiro lugar na colocação geral da UnB, Hugo ficou na 11ª posição no curso de medicina da Universidade Federal do Piauí (UFPI).
O piauiense quer vir para a capital federal. Acredita que será mais feliz no curso de mecatrônica do que seria no de medicina. Tem mais a ver comigo, comenta. Sensato, ele garante que o segredo do sucesso é dedicação. Presto muita atenção às aulas, porque acho o mais importante. Mas todo aluno precisa estudar para fazer boas provas, analisa.
2º lugar Depois de dois anos de muito sacrifício, Cíntia Paula Carneiro finalmente conseguiu seu lugar ao sol. Aprovada em medicina pela UnB, a estudante de 19 anos diz que realizou um sonho. Conquistado com muito esforço, como faz questão de frisar. Desde que terminou o ensino médio, em 2003, a jovem não desviou de seu objetivo. Sabia que ia ser difícil. Quando não entrei na UnB pelo PAS, pensei que teria de passar três anos em cursinhos, conta.
O segredo para marcar 466,5 no vestibular? Cíntia é categórica. Estudar, estudar e estudar muito, desabafa. A rotina da jovem foi puxada durante esses dois anos de preparo. No último semestre, chegou a fazer cursinho regular pela manhã e específicas à noite. Saía de casa às 6h30 da manhã e só voltava às 23h. Em dias de festas de família, ela se trancava no quarto e continuava estudando. Só abria uma exceção aos domingos: a pausa para a missa. Aliás, Cíntia acredita que sua fé fez a diferença na última prova. Ao contrário das outras vezes, fiquei muito calma durante os testes, diz.
Para a futura médica, desistir é uma possibilidade que não pode passar pela cabeça de quem possui um sonho. Nunca me incomodei de olhar o resultado do vestibular. Respirava fundo e começava tudo de novo, tentando consertar os erros que cometi, garante. Cíntia passou também no vestibular de medicina da Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), da rede pública de saúde do Distrito Federal.
3º lugar Com 463 pontos, Hugo Alves Akitaya foi o 3º colocado na classificação geral do vestibular da UnB. A vaga no curso de engenharia mecatrônica foi garantida com louvor. Mais um campeão vindo de fora de Brasília. O estudante de 17 anos mora em Goiânia com os pais e um irmão mais velho, também aprovado no 1º vestibular da UnB. Aluno dedicado, Hugo não precisou de cursos preparatórios para garantir a aprovação. Pegou provas antigas e resolveu.
Hugo diz que nunca teve horários fixos de estudo. Agia de acordo com a necessidade. Dava-se ao luxo, inclusive, de não tocar nos livros se estivesse cansado. Sob protestos dos pais, é verdade. Mas uma coisa não deixava de fazer de jeito nenhum: as tarefas de casa. E, a partir do segundo semestre, passou a revisar conteúdos e resolver questões de provas já aplicadas. Acho que a base de conhecimentos que adquiri no ensino fundamental fez a diferença, avalia.
O jovem sempre estudou em bons colégios particulares. Entre suas táticas, as principais são prestar atenção às aulas e tirar todas as dúvidas que possui no exato instante em que aparecem. Se a gente deixa acumular, acaba esquecendo, enfatiza. A estratégia, pelo jeito, dá certo. Hugo também foi aprovado no PAS, para engenharia elétrica. E em medicina na Universidade Católica de Goiás (UCG) e na Universidade de Ribeirão Preto (Unãrp).
4º lugar A história da quarta colocada no vestibular da UnB é cheia de luta, garra e determinação. A jovem goiana Renata Rodrigues Rosa, de 20 anos, venceu inúmeras barreiras para chegar ao ensino superior. Isso sem falar na concorrência brutal do curso escolhido. A primeira integrante da família Rosa a chegar a uma universidade garantiu uma vaga no curso de medicina esbanjando notas e sucesso. Tirou 460,8 pontos no vestibular. Conquistou também uma vaga para medicina na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), uma das instituições mais respeitadas do país.
Para isso, a jovem estudou muito. Conseguiu uma bolsa de estudos em um dos melhores cursinhos da capital goiana. Durante dois anos, ganhou o benefício. Dedicou dias e noites aos livros. Festas, passeios e namoros ficaram para depois. Tudo para fazer valer a oportunidade que recebeu. Renata fez o ensino médio em colégios públicos. O primeiro ano, em uma escola estadual. Os dois outros, em uma federal. Nunca reprovei e tinha boas médias. Mas o cursinho foi fundamental. Lá estudei mesmo, analisa.
Renata era aluna atenta. Só sentava na primeira fileira de carteiras. Tentava se preparar para o maior número de provas possível. Pegava os simulados publicados no Gabarito para resolver, conta. Mas os momentos de felicidade por conta da aprovação, no entanto, se dividiram com muita preocupação. Filha de um autônomo e uma vendedora, não possui condições financeiras de morar em outra cidade. A renda da família não passa de R$ 900. A história da Renata é a de tantas outras Renatas por aí, comenta a mãe dela, Isabel Rosa. ? muito difícil estudar sem recursos financeiros, lamenta. Na última sexta-feira, quando estava à caminho de se matricular na UnB, Renata recebeu a notícia que traria a solução que esperava: foi aprovada também na Universidade Federal de Goiás (UFG). Não precisará sair de casa e poderá seguir o sonho de se tornar médica.
5º lugar Sem modéstia, Gabriel Siqueira Rodrigues, de 19 anos, admite que sempre foi bom aluno. Melhorei a partir do 1º ano, porque amadureci mesmo, analisa. Ainda no 2º ano do ensino médio, que cursou em uma escola pública de Taguatinga, o jovem passou no vestibular para química. No 3º ano, ganhou bolsa de estudos em um colégio particular.
Iniciou uma maratona de estudos. Além das aulas regulares, assistia às aulas do cursinho e ainda estudava sozinho cerca de cinco horas todos os dias. Mal via os pais. Aprendi a gostar de estudar. Então, não me estressava por passar tanto tempo estudando, comenta. Mas o esforço valeu a pena. Na metade do ano, foi aprovado em engenharia mecatrônica. Largou a escola e seguiu seu caminho universitário.
Aos poucos, Gabriel descobriu que o curso não era como esperava. Ele gostava mesmo era de computação. Decidiu, então, aproveitar a última greve da universidade para se preparar para um novo vestibular. Revisou as matérias já esquecidas, aprendeu outras não vistas (já que ele saiu da escola na metade do 3º ano) e deu duro. Imaginava ficar em uma colocação tão boa? Ele não titubeia em dizer que não se surpreendeu com os 452,1 pontos que fez. Esperava ficar bem colocado. Me esforcei para isso, responde.
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