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Grafite, uma arte na sala de aula

Artigo de João Luís Almeida Machado*


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O grafite convida à reflexão. O que é? Qual o significado? Que motivação teve o artista? Há uma ideologia por trás dessa imagem? Aonde quer chegar o realizador dessa arte com a pintura proposta? Por que não utilizar essa arte como mote para o trabalho em sala de aula?

A arte nas paredes é uma das mais antigas formas de expressão do saber humano. As pinturas rupestres encontradas em cavernas por paleontólogos, arqueólogos e historiadores demonstram que a partilha de idéias, sentimentos e histórias de vida através da produção de painéis pintados em paredes é uma efetiva e milenar forma de expressão.

Nas grandes civilizações da Antiguidade, especialmente no Egito, Grécia e Roma, a utilização de variadas técnicas (mosaico, pintura, escultura) auxiliou a perpetuar as paredes como autênticos ateliês demonstrativos da cultura desses povos. O passar do tempo aperfeiçoou ainda mais essa arte/forma de comunicação. Não é possível desprezar, por exemplo, os belíssimos painéis nas paredes de prédios públicos da capital mexicana, que retratam a história daquele país, produzidos por Diego Rivera.

Nos dias de hoje, com a exponenciação técnica e a criatividade humana explorando cada palmo de terreno possível para a produção artística (desde o espaço virtual até a pintura no próprio corpo humano), ocorre o resgate da arte nas paredes, num autêntico "revival" da pintura rupestre, consolidando-se o grafitismo como linguagem artística urbana.

Mas, como podemos transpor essa produção artística para o ambiente educacional? As possibilidades de utilização do grafitismo ou da pintura em paredes/murais restringem a educação ao estudo da arte? Como utilizar o Grafite em outras disciplinas, como no estudo da matemática, geografia ou idiomas?

Inicialmente, imagino que alguns professores possam se assustar com a proposta por pensarem que estamos sugerindo que os alunos pintem as paredes externas ou internas das escolas. É claro que essa é uma possibilidade interessante e não deve deixar de ser levada em consideração. Há, inclusive, registro de projetos de tal natureza em escolas brasileiras e estrangeiras.

Num caso como esse seria interessante que toda a escola participasse e tivesse espaços destinados a sua produção artística nesses grandes murais encontrados nas paredes brancas e pálidas. Isso, evidentemente, já causaria uma considerável transformação do ambiente insosso e sem graça das escolas brasileiras. Além do mais, o movimento, a energia, a agitação e a própria expectativa causadas levantariam muito o astral de alunos e de toda a comunidade acadêmica.

Mesmo levando-se em conta essa alternativa de trabalho com grafites ou pinturas em grandes murais/paredes, a proposição que trago através desse artigo é mais modesta. Imagino que os painéis possam ser grandes folhas de papel em branco, dessas que utilizamos em flip-charts para dar aulas. Penso que esses espaços são chamamentos à criatividade, pedindo a intervenção de nossos alunos através da arte.

É claro que as propostas de trabalho envolvendo a produção dos grafites/murais têm que, necessariamente, ter uma coordenação, um projeto de ação e realização. Nesse sentido, o planejamento das atividades por parte dos professores é essencial. Notem que me refiro aos educadores no plural. É nesse momento que devem ser levadas em consideração as possibilidades de efetivação de trabalhos interdisciplinares. Podem ser inseridos no contexto de uma produção como essa saberes como a literatura, a história, a geografia, a matemática ou as ciências, com ganhos para todas essas áreas do conhecimento.

Os primeiros aspectos positivos seriam a própria aproximação e interação entre as disciplinas, alunos e professores. Quantos de nós, profissionais da educação, trabalhamos lado a lado com pessoas que poderiam compartilhar experiências, dividir sonhos, implementar o trabalho em sala de aula e, principalmente, ajudar a melhorar a qualidade da educação no país e nem ao menos os conhecemos direito... A experiência compartilhada ajudaria também a aprender, de forma mais lúdica e divertida, um pouco mais de conteúdos com os quais temos pouco ou nenhum contato. Imaginem então o que isso representaria para os estudantes.

Entretanto, é importante salientar que não é possível realizar tal trabalho sem planejamento e organização que orientem a ação tanto dos alunos quanto dos próprios professores envolvidos. Nesse sentido, devem ser estipulados aspectos essenciais do projeto, como materiais para a composição dos painéis (tintas, papéis recortados para simular mosaicos, colagens, canetas coloridas, lápis de cor, giz de cera), temas trabalhados (história, geografia, cultura, arquitetura, ciências), grupos responsáveis pelas produções, tempo destinado ao trabalho, formas e locais de exposição, entre outros.

Perpetuar a história, reviver momentos de glória, lamentar as dores e derrotas, explicar idéias, demonstrar sentimentos, relatar o cotidiano e tantas outras possibilidades revelam-se através da arte. Antecedendo a produção dos estudantes seria interessante que as aulas de artes abordassem as produções similares ao grafitismo produzidas ao longo da história pela humanidade. Paralelamente, as aulas de história poderiam explicar aspectos de suas temáticas utilizando as produções em painéis/paredes pelos artistas de cada época/civilização.

Complementando o trabalho de artes e história, a apresentação de mapas em geografia, projetos arquitetônicos em matemática, simulações em física ou química, aspectos do corpo humano em biologia ou imagens da fauna ou da flora produzidas por naturalistas europeus que vieram às Américas durante o período colonial poderiam municiar as aulas e motivar o surgimento da arte a ser produzida pelos próprios estudantes.

A utilização das imagens não exclui, é claro, a utilização das palavras a expressar idéias e sentimentos. Na realidade, o que se espera é que as palavras de grandes escritores, filósofos, cientistas, poetas, artistas, cineastas, políticos, educadores ou dos próprios alunos componham (ou não, dependendo da orientação do projeto) juntamente com as imagens, um quadro mais claro da proposta de trabalho.

O mais importante nesse projeto é criar canais que possibilitem ao estudante representar idéias aprendidas e estudadas. Ao dar-lhes uma voz diferenciada, utilizando a arte como expoente de seus pensamentos e saberes aprendidos, estamos permitindo que esses estudantes saibam mais, aprendam de forma mais prazerosa e sejam melhor compreendidos. Justamente como fazem os historiadores, arqueólogos e antropólogos quando examinam as produções dos povos antigos.


* João Luís Almeida Machado, mestre em Educação, Arte e História da Cultura, é editor do Portal Planeta Educação, da Futurekids do Brasil .

 







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