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Bons na bola. E na escola?

      

Por Renato Marques

Quando tem a oportunidade de começar uma carreira no futebol, a maioria dos garotos decide abrir mão de uma série de coisas. Em geral, quem fica para trás logo de cara é o estudo. Mesmo que a carreira deslanche e os ganhos aumentem, poucos são os boleiros que aproveitam a oportunidade para manter - ou retomar - sua Educação. Levados pela ilusão do "futebol-maravilha", os jogadores não percebem que estão trilhando uma carreira curta e extremamente concorrida.

"De todas as crianças que jogam futebol na rua, só uma vai virar o Ronaldinho. As pessoas costumam pensar o jogador de futebol como um cara que ganha bem, é famoso, conquista as mulheres. Mas, no fundo, a maioria não vai nem conseguir emprego", lamenta o pesquisador Paulo Favero, da USP (Universidade de São Paulo). "O futebol é uma profissão em que o mercado não cresce. Não existe mais empregos. E, se um jogador está em um clube bom, é porque existem muitos outros em clubes ruins."

No cenário do futebol brasileiro, ainda são poucos os casos em que jogadores de futebol optaram por manter seus estudos. E estes, no meio, são vistos quase como 'heróis'. A grande maioria ainda passa longe dos bancos escolares. Cada vez mais, no entanto, cresce a percepção de que os atletas precisam ter uma formação diferenciada. Não apenas para melhorar seu desempenho profissional fora dos campos - discutindo contratos, solidificando a carreira -, mas também para estruturar a vida para aprender a lidar com o fim da rotina dos gramados.

Não por acaso, jogadores como Kaká, atualmente no Milan, e Leonardo, ex-jogador do São Paulo e da seleção brasileira que hoje é assessor da presidência do Milan, são bem vistos nos clubes por onde passaram e tem uma vida estabilizada, tanto no lado profissional como no particular. Para o coordenador da Escola Superior do Esporte da Universidade São Marcos, José Luiz Portella, o fim da carreira do jogador pode ser um choque se ele não estiver devidamente preparado.

"No momento em que jogam, eles são bons no que fazem, mas é uma carreira que tem limite. Quando eles sãm do futebol , deixam de ter atenção da mídia, todo tipo de bajulação, de contato. Aí passam a sofrer uma discriminação muito maior se não tiverem um nível cultural educacional", afirma Portella. "O estudo não é só uma arma para eles continuarem a ter um trabalho, um bom padrão - isso também funciona para alguns jogadores. Mas, mesmo para os jogadores que adquirem independência financeira, muitos entram em um processo grande de depressão depois porque cãm no ostracismo e diminui o nível de vida."

Portella levanta, ainda, um outro fator importante, muitas vezes esquecidos pelos jogadores. "O fato de não estudar os deixa fora do desenvolvimento da sociedade, mas também da possibilidade de serem as pessoas mais importantes para educar os filhos. Está comprovado que o mais importante para a formação de uma criança é a casa dela, a linguagem que os pais falam, o português, o nível, o vocabulário, o que eles lêem, etc. Isso tudo passa para a criança", diz. "Então, os jogadores, muitas vezes, estão pensando só neles, porque não precisam estudar, estão ganhando bem naquele momento. Mas, sem perceber, estão prejudicando os filhos, que nem sempre serão atletas".

Conheça abaixo a história de dois jogadores que optaram por persistir com seus estudos e conheça o que eles pensam a respeito.

Um feliz recomeço

Quando atuava no Japão, defendendo o Sanfrecce Hiroshima, o volante César Sampaio decidiu que era hora de retomar os estudos. Já um craque renomado - com passagens por Corinthians, Palmeiras, Santos, La Coru¤a da Espanha e Seleção brasileira na Copa de 98 -, Sampaio queria concluir o Ensino Médio. E deu um exemplo de vontade. Comprou as fitas de vídeo do Telecurso 2º Grau e estudou sozinho para completar sua formação.

"Parei de estudar quando terminei o primeiro colegial, não fiz o segundo. Mas uma prova de que é possível estudar e jogar futebol é que eu fiz o Telecurso 2º grau lá no Japão. Adquiri todas as fitas e os livros do telecurso e me formei lá", conta. "E foi muito mais difícil porque não tinha nenhum orientador. Eu estava em Hiroshima e os tutores ficavam em Tóquio. Aí eu apenas consultava minhas dúvidas pela Internet, mas não participava das aulas presenciais."

Quando voltou ao Brasil, para jogar no São Paulo, Sampaio recebeu um convite de alguns dirigentes do tricolor paulista. Naquele período, seria criada a Escola Superior do Esporte, na Universidade São Marcos, que inauguraria um curso Superior de Gestão do Esporte. Sampaio apostou na novidade, ingressou no Ensino Superior, já se formou tecnólogo em Gestão do Esporte e, agora, se prepara para iniciar a especialização em gestão do futebol.

"Sempre imaginei, depois que parasse de jogar, continuar envolvido no esporte, mas na parte administrativa, e não como treinador ou preparador físico ou treinador, como a maioria dos atletas acaba trabalhando", conta Sampaio, que pode enxergar nos estudos uma nova realidade para sua vida. "Em termos de qualidade de vida, o estudo é fundamental. Outro dia até falei para minha esposa: 'nunca mais vou parar de estudar'."

Se César é um exemplo de atleta consagrado que lutou para manter os estudos, ele não deixa de recomendar isso para os jogadores que iniciam a carreira agora. E manda um recado para os garotos iniciantes: "é fundamental manter os estudos. Primeiro porque o esporte não garante nada. Apesar de você ter esse dom, apesar de na maioria das vezes ser uma 'promessa', isso não te dá a segurança que o estudo te dá. Ou seja, independente de qualquer coisa, se você terminar os estudos, você vai ser um profissional em alguma área. Isso é algo que o futebol não garante", diz.

"Hoje temos inúmeras instituições que oferecem possibilidades de estudo a distância. Nas próprias universidades, têm professores que desenvolvem cursos específicos para uma área de atuação profissional. Só não estuda quem não quer", finaliza o craque.

De malas prontas

Quando era um jovem recém-saído da adolescência, Gustavo Gumiero teve, ao mesmo tempo, duas oportunidades com as quais sonham muitos brasileiros: foi convidado para jogar futebol profissionalmente e passou no vestibular da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ao contrário do que fariam muitos, o goleiro Gustavo decidiu 'agarrar' as duas chances. Entrou para o curso de Educação Física e lutou para conciliá-lo com a carreira de jogador.

"Entrei na Unicamp em 2000 e era dos juniores ainda. Sempre procurei, nesses 5 anos do curso, jogar em times da região para não perder a vaga. Quando joguei em Rio Claro, chegava a percorrer 200km por dia", conta Gustavo. "Foi difícil, paguei um preço muito alto - tomar banho correndo, não jantar, dormir tarde e acordar cedo-, mas dou valor a isso pelo curso que eu fiz, por ser na Unicamp."

O estudo deu a Gustavo a possibilidade de buscar uma alternativa até mesmo fora do futebol brasileiro. Nos próximos dias, o goleiro, que tem passagens por diversos times do interior de São Paulo, como a Ponte Preta e o Rio Claro, viaja para a Itália para fechar um contrato e atuar naquele país. "Já estou pensando no meu futuro. Quero construir uma carreira na Itália para que daqui 10, 15 anos eu não precise mais trabalhar, mas não que eu não vá trabalhar. Pretendo ser diretor de futebol, alguma coisa que eu possa ajudar a melhorar o futebol brasileiro", finaliza.

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