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São Bernardo engaveta projeto de Oscar Niemeyer

      
Illenia Negrin

A Prefeitura e a Faculdade de Direito de São Bernardo deram as costas a um projeto desenvolvido por Oscar Niemeyer, 99 anos, o arquiteto mais importante da história do país. Em 2002, ele planejou, sem cobrar nada, o novo campus da instituição de ensino, uma das mais tradicionais da região. O prédio nunca foi construído. E o presente dado pelo homem que desenhou Brasília ao Grande ABC sequer será aproveitado, admite a faculdade, sem explicar os motivos.

Procurada, a Direito São Bernardo se limitou a dizer que as necessidades da instituição atualmente são outras. E que o terreno onde seria construído o prédio - ao lado das instalações atuais - não foi liberado pela administração. A Prefeitura não quis falar sobre o assunto e sugeriu que o diretor da faculdade, Luiz Antonio Mattos Pimenta Araújo, fosse procurado, já que a autarquia tem autonomia de gestão. Ele, por sua vez, não atendeu aos pedidos de entrevista.

O silêncio sobre o projeto de Niemeyer era raro há quatro anos, quando a obra do renomado arquiteto na região era comentada com orgulho pela então diretora da faculdade, Eliana Borges Cardoso, e pelo prefeito William Dib (PSB). Quem aproximou Niemeyer da cidade foi outro arquiteto e seu ex-aluno, Ciro Porondi, idealizador do Cenforpe (Centro de Formação dos Profissionais da Educação) de São Bernardo.

Niemeyer recebeu, em fevereiro de 2002, no seu escritório do Rio de Janeiro a diretora Eliana e o secretário de Obras do município, na época Otávio Manente. Durante a reunião, pediu mais detalhes da faculdade, do terreno que abrigaria o futuro empreendimento e do bairro em que estava instalada, o Jardim Vera Cruz.

A faculdade e a Prefeitura entendiam que o prédio precisava contar com um novo centro administrativo, uma biblioteca interativa e bem maior do que a atual, laboratório de informática, escritório-escola e área para a prática esportiva, além de mais salas de aula para abrigar os 2,5 mil alunos da graduação e dos cursos de especialização. Niemeyer entregou uma maquete do projeto, que era exibida ao lado da secretaria .

Em janeiro do ano passado, quando Pimenta Araújo assumiu a direção, a maquete desapareceu do corredor e do alcance dos olhos dos professores, alunos e funcionários. "A Congregação (instância máxima da instituição) disse em janeiro que o novo campus não seria mais construído no terreno ao lado. Estavam procurando um outro local, e que por isso não poderiam mais usar o projeto do Niemeyer, desenvolvido especificamente para aquele terreno", conta o professor da faculdade e juiz-coordenador do Fórum de Santo André, João Antunes dos Santos Neto.

Ele diz que a faculdade vai abrir nova licitação para escolher outro projeto arquitetônico. "Não se descarta um projeto de Oscar Niemeyer dessa maneira. Sem tentar fazer, ao menos, adaptações ao novo local. Uma obra dele em São Bernardo valorizaria o patrimônio cultural da cidade."

No final de 2004, o prefeito Dib seqüestrou R$ 54 milhões dos cofres da autarquia e prometeu que construiria o novo campus. O que, na prática, restringe a autonomia da instituição. Até agora, nada foi feito. A faculdade informa que um novo terreno será escolhido em um mês. Mas não soube informar que tipo de projeto abrigará.

Um dos cinco representantes discentes da Congregação, o estudante do 5º ano André Luís Bender, critica a morosidade do município. "O projeto do Niemeyer atendia às nossas necessidades, sem dúvida. A faculdade não tem mais espaço. A Prefeitura não quer deixar que se construa ali porque quer dar outro destino à área. O prefeito quer construir um centro de convenções para empresários", afirma.

Trajetória do projeto - Em fevereiro de 2002, a então diretora da Faculdade de Direito de São Bernardo, Eliana Borges Cardoso, anunciou a construção de um novo prédio para a instituição. O projeto seria feito pelo arquiteto Oscar Niemeyer.

A diretora, o amigo e arquiteto Ciro Porondi e o secretário de Obras do município na época, Otávio Manente, se reuniram com Niemeyer no escritório do arquiteto no Rio de Janeiro.

Meses depois, a faculdade enviou a Niemeyer a planta do terreno que abrigaria a obra. Esclareceu também quais eram as necessidades da instituição e o que esperavam das novas dependências.

Niemeyer fez o projeto de graça. Dizia-se sensibilizado por idealizar um prédio público, destinado à educação, para uma autarquia municipal. Enviou a maquete do futuro prédio, que foi exibida durante três anos ao lado da secretaria da faculdade.

Em 2004, uma lei aprovada pela Câmara autorizou que a Prefeitura retirasse dos cofres da autarquia R$ 54 milhões, com a promessa de que a verba seria usada para a ampliação do campus.

No final do ano passado, depois de tentar extingüir a autarquia para promover a municipalização da faculdade ( o que acabaria com a autonomia financeira e universitária), o prefeito William Dib voltou atrás. Assinou um convênio com a instituição em que a Prefeitura se compromete a construir o campus em 36 meses. Mas não delimita a data de início, e a entrega pode ser adiada quando o município achar conveniente.

Alunos e professores da Faculdade de Direito de São Bernardo se revoltaram contra o convênio, extremamente vantajoso para a Prefeitura e que diminui, na prática, a autonomia da instituição, já que os recursos foram seqüestrados por Dib. E a maquete de Niemeyer desapareceu.
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