Monday :: 21 / 04 / 2014

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Caminhos para a superação

O que ainda falta para superar o cenário de exclusão?


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João sai de casa, pega o ônibus, ou melhor, tenta porque, com cadeira de rodas, não consegue, a menos que o ônibus seja adaptado para cadeirantes. Espera outro, este sim, adaptado, o levará ao seu destino. Chega na empresa e, ao invés da escada, sobe a rampa e pega o elevador. Junto com ele, chega Maria, deficiente visual que, com auxílio de sua bengala, acerta o passo e aciona o botão (em braile) correspondente ao seu andar. Quando se fala em inclusão de pessoas com deficiência, certamente, entre o primeiro conjunto de imagens que vêm a sua cabeça estão as dificuldades enfrentadas em relação à acessibilidade, não é mesmo? Afinal, no Brasil, ainda é preciso evoluir muito neste quesito, seja no setor público ou privado, afim de garantir independência para que estas pessoas consigam sobreviver com boa auto-estima e dignidade.

No trabalho, não são diferentes as situações corriqueiras do dia-a-dia. Escadas, elevadores, computadores, etc... Durante muito tempo e para muitas pessoas, pensar na pessoa com deficiência era fazer com que ela tivesse condições de chegar aos lugares e neles ficar em uma posição confortável. Talvez por isso, o primeiro passo para que a inclusão começasse a ser feita, tenha sido a mobilização da sociedade em prol da acessibilidade. Agora, porém, segundo especialistas, outros passos começam a ser dados para suprir problemas que ainda são motivos da exclusão, especialmente no mercado de trabalho.

Quem entende do assunto, e vive essa realidade, como a vice-presidente do Instituto Paradigma, Flávia Cintra, que é cadeirante, aponta a falta de informação e mais, o preconceito, como principais entraves para a recolocação de pessoas com deficiência. "Claro que existe uma defasagem em relação à qualificação de muitos profissionais, mas existem empresas que não estão preocupadas com o perfil do profissional, o colocam em qualquer cargo, muitas vezes, abaixo de sua qualificação para cumprir as cotas", reclama.

Em sua opinião, este comportamento é fruto de um processo histórico de exclusão social, já que a sociedade não aprendeu a lidar com a diversidade. "A gente aprendeu que legal é ser igual. Nas escolas e nas faculdades, é raro encontrar quem tenha tido amigos com algum tipo de deficiência", lembra. Além disso, ela complementa que o comportamento natural perpetuado na educação das pessoas das gerações de 60, 70, 80, até os dias de hoje, era a caridade em relação às pessoas com deficiência. "Eu sei disso porque eu sou cadeirante. Sofri um acidente quando tinha 18 anos e, até então, meu único contato com pessoas com deficiência tinha sido ao comprar balas no farol", conta.

Segundo Flávia, estas questões contribuem para a desinformação e até um preconceito em relação ao potencial das pessoas com deficiência. "A gente cresceu tendo pena de quem tem deficiência e isso é um erro. A deficiência pode, sim, significar uma vida de tristezas e limitações, mas também, pode gerar novas oportunidades ou simplesmente não fazer diferença nenhuma."

O sociólogo e coordenador do programa Serasa de empregabilidade de pessoas com deficiência, João Ribas, concorda que existem pessoas que não são qualificadas, mas insiste que esta não pode ser uma justificativa para a não contratação. "Qual é a empresa que não treina e que não tem uma área de treinamento? Isso é desculpa. Se não há pessoas qualificadas no mercado, então tragam elas para dentro da empresa e vamos treiná-las," ressalta.

A chefe de fiscalização da DRT/SP (Delegacia Regional do Trabalho de São Paulo), Lucíola Rodrigues Jaime, afirma que muitas empresas desconhecem as alternativas que podem ser utilizadas para preencher a lei de cotas e dar oportunidade para as pessoas com deficiência sem qualificação. Para se ter uma idéia, hoje, empresas com 100 ou mais funcionários têm que cumprir a Lei de Aprendizagem, de garantir oportunidades para jovens sem qualificação. No caso das pessoas com deficiência, não há limite máximo de idade. Então, uma alternativa seria trazer as pessoas com deficiência para as empresas como aprendizes, qualificá-las e, depois, incluí-las nas cotas. "Por puro desconhecimento, as empresas sequer recorrem a esta alternativa e é perfeitamente possível incluir uma pessoa de 30 ou 40 anos como aprendiz e depois contratá-la nas cotas para pessoas com deficiência", diz.

Combatendo a falta de qualificação

Segundo Flávia Cintra, para entender melhor o porquê dessa defasagem na qualificação das pessoas com deficiência basta lembrar que medidas específicas para inclusão destas pessoas no Ensino Fundamental, Médio e, também, no Ensino Superior começaram a ser feitas de forma tardia no Brasil. Assim, ao passo que a maioria dos jovens sem qualquer tipo de deficiência ingressou na universidade, investiu em informática e outros idiomas, poucas pessoas com deficiência desenvolveram estes diferenciais competitivos. Atentos a esta questão, o poder público, sociedade civil e ONG's (Organizações Não Governamentais) seguem investindo para mostrar que a falta de qualificação não pode ser mais um entrave.

O Instituto Paradigma, por exemplo, mantém convênios com empresas e instituições afim de promover a qualificação das pessoas com deficiência. Uma de suas mais recentes iniciativas é a parceria com a Claro, empresa de telefonia celular. O curso possui 44 horas e oferece 260 vagas para pessoas com qualquer tipo de deficiência, inclusive, mental. O programa prevê uma formação básica com aulas sobre conceito de trabalho criativo, decente e produtivo; ética; e direitos com a função de articular a formação profissional, a dimensão de participação cidadã e o compromisso com a inclusão social. Para participar, a pessoa com deficiência deve ter 18 anos de idade, ou mais, morar em São Paulo e ter concluído ou estar cursando o Ensino Médio ou o Ensino Superior.

Universidades de todo o Brasil, entre elas USP (Universidade de São Paulo) UNESP (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquista Filho), UEM (Universidade Estadual de Maringá), além de diversas outras faculdades e centros universitários possuem programas de qualificação para pessoas com deficiência. As instituições confessionais como as PUC's (Pontifícias Universidades Católicas) - já conhecidas por investir em projetos de extensão para fins de responsabilidade social - também se destacam neste quesito.

Na PUC-Minas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) são oferecidos cursos gratuitos para pessoas com diversos tipos de necessidades especiais, entre eles: informática, atendimento de telemarketing, auxiliar administrativo, relações interpessoais e ética no trabalho. Os cursos são coordenados pela pró-reitoria de extensão da instituição e visa dar condições para que essas pessoas consigam uma inserção no mercado de trabalho. Os cursos são abertos a toda população. Em cada semestre, são recebidos cerca de 50 novos alunos.

Na PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas), há 15 anos, funciona o Ciad (Centro Interdisciplinar de Atenção ao Deficiente) que atende cerca de 600 pessoas com deficiência por semana. No momento, três programas atuam para a inserção deste público no mercado de trabalho: o banco de currículos, o programa de inclusão digital e o programa mercado de trabalho inclusivo, em que a coordenadoria do projeto busca vagas junto às empresas, presta assessoria às companhias para o cumprimento da lei de cotas, encaminha a pessoa com deficiência e acompanha-o nos processos seletivos até sua contratação.

Desde 81, a PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) oferece o POOE (Programa de Orientação Ocupacional e Escolar) para promover a qualificação profissional à deficientes auditivos. Criado no ano internacional da pessoa defiicente, o programa teve o apoio de empresas e alguns órgãos de comunicação para sua difusão. Logo no início, teve uma procura muito grande por parte de pessoas surdas que não tinham preparo para o mercado de trabalho. Com isso, foram criadas alternativas de escolaridade e orientação profissional a estas pessoas.

Segundo a coordenadora do projeto, Elaine Senna, o programa de escolaridade alternativa foi criado para atender uma demanda de pessoas que já tinham idade avançada e precisavam de formação no Ensino Médio. Isto porque, na maior parte dos casos, tinham concluído os estudos apenas até a quarta série. Além disso, o foco para o mercado de trabalho também foi levado em conta por permitir que estas pessoas entendam melhor sobre a estrutura organizacional de uma empresa e tenham a vivência em estágios para se adequar a realidade do mercado de trabalho, até então, um mundo estranho para elas. Desde 81, cerca de 2.600 pessoas passaram pelo programa.







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