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Tecnologia Oftálmica: olhos nos olhos

      

Por Silvia Angerami

- Profissão?
- Tecnólogo Oftálmico.
- O quê?? O que é isso??

Esse é um dos diálogos mais comuns na vida de quem passa pelo curso de graduação em Tecnologia Oftálmica. Embora os profissionais fiquem um pouco contrariados com o desconhecimento geral da população sobre a carreira, quem se forma no único curso dessa especialidade oferecido no Brasil, o da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo), não tem do que reclamar: o curso é curto (dura apenas três anos) e a vaga no mercado de trabalho é praticamente garantida.

Quem gosta de tecnologia e da área de Saúde vai se identificar com a carreira. Pelo menos essa é conclusão a que se chega ao navegar pelas várias comunidades dedicadas à profissão no site de relacionamento Orkut. Quem entra não quer mais sair. Quem está no segundo ano e já tem a sua bolsa de iniciação científica, como é o caso do graduando Arthur Gustavo Fernandes, aluno do segundo ano, tem certeza de que fez a escolha certa. Sua pesquisa, sobre análise de eletrofisiologia visual, lhe rende uma bolsa de estudos que o ajuda a se manter no curso. A questão da bolsa ganha importância pois o curso é dado em período integral. Assim, o estudante não tem possibilidade de trabalhar, mas a bolsa pode ser uma boa saída.

Criado pelos docentes da Disciplina de Oftalmologia da antiga Escola Paulista de Medicina, o curso de Tecnologia Oftálmica substituiu a tradicional graduação em Ortóptica. Seu objetivo é formar um profissional de nível superior preparado para colaborar com o oftalmologista no desempenho das funções de avaliação, prevenção, tratamento e pesquisa de problemas oftalmológicos. A profissão de tecnólogo oftálmico ainda não é regulamentada, mas esse fato, longe de afugentar os alunos, cria uma união ainda maior entre eles, que batalham com muita convicção por essa conquista.

Currículo

No primeiro ano, o aluno adquire conhecimentos biológicos sobre o ser humano sadio. "No primeiro semestre do primeiro ano, ele tem algumas disciplinas junto com Fonoaudiologia, como anatomia geral e fisiologia geral. Alguns desistem nessa fase", comenta a diretora acadêmica do curso, Adriana Berezovsky. Mas quem ultrapassa esse estágio inicial, começa a estudar e a identificar o processo visual normal e o patológico, além do manuseio dos aparelhos e técnicas do atendimento oftalmológico. Depois, começa o ciclo de estágios no próprio Departamento de Oftalmologia da UNIFESP, quando o estudante passa para a parte prática. "Os alunos também desenvolvem atividades externas. Atuam no Embu, em um projeto de medida da visão, participam de ações preventivas, na fundação Dorina Nowill, em reabilitação visual, e também podem fazer estágios optativos em empresas de produtos oftalmológicos", explica a professora.

O mercado de trabalho tem sido muito receptivo ao tecnólogo oftálmico. "Os alunos costumam ser absorvidos por hospitais, clínicas e consultórios oftalmológicos, onde ajudam no diagnóstico, mas trabalham sempre sob a supervisão de um oftalmologista. Também podem trabalhar como instrumentadores cirúrgicos, na adaptação de lentes de contato, em reabilitação visual. Alguns formados atuam em indústrias, entrando nessa área de inovação tecnológica, em empresas de aparelhos oftalmológicos. Isso tem crescido muito nos últimos anos", aponta a professora. "Os estudantes formados pelo curso de Tecnologia Oftálmica podem fazer pós-graduação stricto e lato sensu, continuando seus estudos dentro ou fora da Instituição", informa.

Outras atribuições do tecnólogo oftálmico são otimizar o tempo do médico ou mesmo ajudar na administração da clínica, como é o caso da profissional Kamila Bonatto, entrevistada para esta reportagem. Os salários, de acordo com a professora, variam de 5 a 10 salários minímos. Na sua opinião, a única desvantagem da carreira é a falta de uma independência total, já que o profissional vai trabalhar sempre sob a supervisão de um oftalmologista.

Leia as entrevistas abaixo e descubra os motivos que levaram um vestibulanda, uma graduanda e um profissional a escolher o curso de Tecnologia Oftálmica:

Idade: 21 anos

Carla Ribeiro Idade: 18 anos

Onde estuda: UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo)
Arthur Gustavo Fernandes

Idade: 27 anos

Profissão: Tecnóloga Oftálmica

Kamila Bonatto
Vestibulando - Por que escolheu a profissão?

Sempre gostei de área de Saúde, mas tinha certeza que não queria Medicina. Prestei Biomedicina no ano passado, mas não passei. Então, este ano fui até a Unifesp para me informar sobre esse curso. Conversei com alunos e com alguns formados, e tomei a minha decisão.

Graduando - Por que escolheu a profissão?

Antes, eu queria Biologia. Passei na Unesp (Universidade Estadual Paulista), na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e na UFV (Universidade Federal de Viçosa). Mas pensei no mercado, vi que estava aberto, que teria emprego garantido, não me arrependi nem um pouco.

Profissional - Por que escolheu a profissão?

Sou formada há seis anos. Combinei de começar a trabalhar antes mesmo de terminar o curso. Fiquei dois anos nessa atividade, mas me cansei da rotina e fui atrás de uma pós-graduação. Fiz pós em Adminsitração e comecei a trabalhar na área administrativa. A clínica onde comecei a trabalhar se tornou um hospital especializado, com Otorrinolaringologia, cirurgia vascular e plástica, além de outras especialidades. Tenho cargo de gerente de Recursos Humanos e processos, mas cuido de toda a parte administrativa do hospital.

Vestibulando - O que espera do curso?

São só três anos de curso. Então a matéria é bem puxada, vai ser dificil cursar. Mas estou em uma das melhores faculdades do Brasil. Espero que seja um curso maravilhoso.

Graduando - O curso corresponde às suas expectativas?

Achei bem legal o curso, é aqui em São Paulo, acaba em três anos. Mesmo sem saber direito como seria, estou gostando bastante, não esperava que fosse ser tão bom quanto está sendo.

Profissional - O curso correspondeu às suas expectativas?

Acho que sim. Vejo um único problema: em médio e longo prazo a gente fica um pouco limitado em relação à carreira. A gente tem um bom emprego, um bom salário, mas sem muitas possibilidades de crescimento. Assim, a pós amplia muito o mercado de atuação. Gosto muito da carreira, defendo muito. A universidade é muito boa, o aluno traz uma bagagem muito boa para o mercado de trabalho. A gente sai anos-luz à frente do pessoal de outras especialidades.

Vestibulando - Quanto espera ganhar depois de formada?

O salário fica na faixa de R$ 1.000 a R$ 1.500, logo depois da graduação.

Graduando - Quanto espera ganhar depois de formada?

Quem se forma não fala quanto está ganhando, mas a base está entre R$ 1.500, R$ 2.000.

Profissional - Quanto ganha?

A média salarial da profissão para quem acaba de se formar fica entre R$ 1.500 e R$ 3 mil, dependendo da carga horária. Depois de cinco anos de formada, seu salário vai de R$ 3.000 a R$ 5.000, que é o teto. Outro problema é que, em longo prazo, a gente estaciona.

Vestibulando - O que acha que vai encontrar de melhor na profissão?

Eu visitei os departamentos de Oftalmologia na Unifesp e encontrei muitos idosos, então espero trabalhar com gente mais velha. Eu gosto, porque acho que é uma coisa que nunca vai acabar, com os avanços da Medicina, tem bastante campo nessa área.

Graduando - O que acha que vai encontrar de melhor na profissão?

No curso e na profissão tem bastante da área de tecnologia e ainda Oftalmologia, Administração, todos os exames, retina, córnea, trabalho em equipe multidisciplinar. Você pode escolher a área com que mais se identifica, como pesquisa, monitoria, bolsa, auxiliar outro profissional. Como o curso é integral, os professores incentivam bastante a iniciação cietífica, o que ajuda a ganhar experiência em vários setores. Estou fazendo uma pesquisa sobre análise de eletrofisiologia visual. Comecei com monitoria, e agora no segundo ano, entrei como aluno de iniciação cientifica. Estou entusiasmado com o curso, com o estágio, você começa a ver na prática como funciona. O curso é curto, bem intensivo, tem bastante atividade.

Profissional - O que acha de melhor na profissão?

O melhor aspecto acho que é a empregabilidade, que é muito boa. Temos muitas oportunidades de trabalho. Tenho confiança, liberdade, que é uma coisa que gosto muito.

Vestibulando - O que você acha que vai encontrar de pior na profissão?

A única coisa que está me assustando um pouco é a falta de reconhecimento da profissão. Quando comento que fui aprovada em Tecnologia Oftálmica, ninguém conhece. Isso me chateia.

Graduando - O que você acha que vai encontrar de pior na profissão?

Ao mesmo tempo em que o curso é bom por ser curto, também é isso que mais atrapalha, porque é muito conteúdo em pouco tempo, é muita correria.

Profissional - O que você acha de pior na profissão?

O fato de ser uma profissão ainda desconhecida, isso é uma desvantagem.

Vestibulando - Que análise você faz da profissão no Brasil?

Futuramente, acho que a Unifesp não vai ser a única universidade a oferecer o curso de Tecnologia Oftálmica. Acredito que outras faculdades também vão oferecer esse curso. Existe essa tendência de mais pessoas ficarem mais velhas. A USP Leste (Universidade de São Paulo - Unidade Leste), por exemplo, oferece o curso de Gerontologia, que não passa por Medicina, vai direto.

Graduando - Que análise você faz da profissão no Brasil?

O mercado ainda está muito concentrado em São Paulo, mas o pessoal está indo mais para o interior, e a profissão está se expandindo mais pelo Brasil.

Profissional - Que análise você faz da profissão no Brasil?

Sou do interior e trabalho em São Paulo. Então, vejo que é aqui que as coisas acontecem. Aqui existem grupos maiores, o conhecimento da profissão é maior, alguns médicos sãm de São Paulo e divulgam a profissão no interior também. Mas ainda acho que São Paulo, por ter as estruturas maiores, é onde existem mais oportunidades. Fui a segunda tecnóloga contratada na empresa onde trabalho. Hoje, temos 14 profissionais dessa área.

Vestibulando - Que dica você daria a estudantes que estão em dúvida entre Tecnologia Oftálmica e outras áreas?

Primeiro, tem que ter certeza que quer trabalhar com gente mais velha, com Saúde, precisa ter consciência que vai ter uma vida na mão dele. Enxergar é a coisa mais importante. Se uma pessoa perde a visão, nunca mais consegue recuperar. Então, nessa profissão, fazemos de tudo para que isso não aconteça.

Graduando - Que dica você daria aos estudantes interessados em Tecnologia Oftálmica?

A dica é tentar conhecer melhor o curso, que ainda é pouco conhecido. O pessoal do centro acadêmico pode conversar com quem tiver interesse. ? válido ir até a Unifesp para conhecer a faculdade. Quem gosta da parte de tecnologia e de Oftalmologia vai gostar do curso, com certeza. ? dificil entrar no vestibular, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças. Dá para entrar.

Profissional - Que dica você daria aos alunos interessados nessa profissão?

Para se dar bem nessa profissão, depende muito do perfil do profissional. A dica é se aperfeiçoar em relação à postura, ao tratamento, vestir a camisa da empresa onde trabalha, é isso o que agrega muito, investir nesse lado mais pessoal. Dos 14 profissionais que trabalham aqui na empresa, todos foram formados no mesmo lugar, mas os perfis são muito diversos. Depende mais da pessoa, do seu envolvimento, da sua postura profissional. Na faculdade, eles ensinam bastante isso também: tinha uma professora que não queria que a gente mascasse chiclete no ambulatório. Hoje, vejo que não podia ser de outro jeito. Ela tentava melhorar o lado pessoal dos alunos.

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