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Como surgiram?

Conhecidas como "festas do interior", elas são produtos globalizados


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Por Bárbara Semerene

Os rituais que originaram as festas junitas já foram praticados pelas mais diferentes culturas, em todos os tempos e em todas as partes do planeta. Apesar de hoje serem associadas a santos como São João (inclusive ser chamada também de "Festa de São João"), Santo Antônio e São Pedro, elas se originaram nas sociedades pagãs da Europa, antes de Cristo.

As festas ocorrem em junho porque na Europa este é o mês do Solstício de Verão (época em que o sol passa pela sua maior declinação boreal - dias 22 ou 23 de junho), e os povos pagãos comemoravam a chegada desta estação com rituais que invocavam a fertilidade para garantir o crescimento da vegetação, na fartura, na colheita e clamar por mais chuvas. Eles achavam que dependiam dessas manifestações para evitar uma calamidade.

Costumavam acender fogueiras e tochas por acreditarem que assim livrariam as plantas e colheitas dos espíritos maus que poderiam impedir a fertilidade. O fogo também representa criação, nascimento, luz original, alegria e elemento que foi divinizado pelo homem. ? princípio de vida, revelação, ilmuniação, purificação.

Esses rituais perduraram através dos tempos e na Era Cristã não houve como apagá-los. A Igreja Católica, então, se viu obrigada a adaptá-los às comemorações do dia de São João Batista que, coincidentemente, teria nascido em 24 de junho, dia próximo ao solstício. São João era primo de Jesus, e adquiriu o pseudônimo de "o Batista", por pregar o batismo de imersão como penitência para "preparar os caminhos do Senhor". Ele batizou, às margens do rio Jordão, ao pró prio Jesus de Nazaré, fato considerado o marco inicial da vida pública de Cristo. Por isso foi incorporada às festas juninas a tradição de banhar-se no mar, nas nascentes, nos rios ou no sereno, na noite da véspera do dia da festa do Solstício. Tanto que em Nápoles, há uma igreja dedicada a São João Batista com nome de São João do Mar.

? por isso também que em alguns locais do Brasil se costuma realizar a "lavagem" ou o "batismo" do santo antes da meia-noite, quando todos os participantes formam uma procissão com andores onde estão dispostas as imagens de alguns santos e se dirigem às margens de um riacho, rio, lagoa ou córrego das proximidades.

Depois de São João, a igreja associou mais dois santos às festas juninas: Santo Antônio (13 de junho) - que leva a fama de casamenteiro pois, segundo reza a lenda,a generosidade do frade era tanta que presenteava as jovens pobres com dotes para que pudessem casar -, e São Pedro (29 de junho), o Guardião das Portas do Céu, mas também encarregado das chuvas, sendo portanto, associado aos rituais de fertilidade, tanto da terra quanto dos homens.

"Associar as festas juninas aos santos foi uma estratégia de apropriação da igreja para poder incorporar a data ao calendário do catolicismo", afirma o professor Osvaldo Meira Trigueiro, da Faculdade de Comunicação da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), especialista no tema. Segundo Rosane Volpatto, terapeuta e mestra de Reiki, que se dedica à pesquisa dos arquétipos das deusas e dos mitos e lendas brasileiras, foram escolhidos estes três santos porque eles possuem todas as qualidades reverenciadas nos cultos anteriormente pagãos.

A partir daí, inventaram novos elementos para associarem à festa. As fogueiras, por exemplo, se diferem dependendo do dia de cada santo. A de Santo Antonio é quadrada. A de São João, redonda. A de São Pedro, triangular. Por conta dos rituais de "fertilidade", as festas juninas incorporaram o casamento à tradição. As antigas oferendas deram lugar às simpatias, adivinhações e pedidos de graças aos santos. Já a quadrilha, dança que se tornou típica das festas juninas, nasceu na França no final do século XVIII, tendo suas raízes na Inglaterra.

Brasil

Quando os portugueses chegaram com seus jesuítas no Brasil, no século XVI, trouxeram em sua bagagem todas as suas crenças e costumes, entre eles, as festas de São João, que foram muito bem aceitas pelos indígenas. Eles identificaram os rituais das festas de São João aos seus rituais sagrados, realizados também em torno do fogo. Para os Jesuítas, foi uma forma de aproximar os indígenas à religião católica.

Mas, no início, não tinha quadrilha. Esta dança desembarcou aqui com a vinda da família real portuguesa, em 1.808, e só a alta sociedade da época divertia-se em suas recepções ao som dela. Com o tempo, o modismo caiu nas graças do povo e começou a fazer parte das festas populares. Foram surgindo, então, adaptações da dança, como a quadrilha caipira, que era dançada no interior do país para homenagear os santos juninos e agradecer as boas colheitas da roça.

Para acrescentar mais ingredientes à este coquetel de cultura, vem a culinária "junina". Essa a gente não importou. Ela veio da culinária indígena, com suas comidas à base de milho: espigas cozidas e assadas, pamonha, canjica, bolo de fubá.

Nordeste

As festas juninas em centenas de cidades e, principalmente, no Nordeste, movimentam mais gente que o nosso famoso Carnaval. Mas por que essas festas se adaptaram melhor no Nordeste brasileiro? Por conta das origens dos rituais de ferlidade da terra, as festas juninas têm caráter rural. Por isso foram tão associadas aos caipiras. "E o Nordeste foi a região que entrou mais tardiamente na urbanização do Brasil, por isso tem um caráter rural mais forte e arraigado", explica Trigueiro. "Além disso, as festas do catolicismo popular brasileiro chegaram com os portugueses quando o Brasil era um país eminentemente rural. Então, continuam mais fortes e presentes nas pequenas cidades que ainda têm forte caráter religioso. E, mesmo nos grandes centros, o imaginário cultural brasileiro é ligado ao meio rural", completa.

Além disso, segundo Rosane, o Nordeste é a região do Brasil de maior influência da cultura indígena, bem como das raças negras e brancas, por isso foi o local em que as festas juninas adquiram um sabor popular tipicamente brasileiro. "Tanto os índios como os negros já estavam acostumados a praticarem ritos de fertilidade, próximos a esses. Os índios já erguiam fogueiras de guerras e paz", explica.

E tem mais. "No Nordeste do Brasil, a cultura do milho substituiu as culturas dos cereais europeus, o que não aconteceu nas outras regiões do Brasil. Assim, estas festas juninas são celebraç õ es agrárias. Daí sobressaírem os personagens do campo e a referência ao casamento como um dos motivos da fertilidade. Também é possível que o número de migrantes portugueses do norte de Portugal (regiões do Douro e do Minho), onde ainda hoje as festas juninas são importantes, que vieram para Pernambuco, esteja relacionado com a importância da festa na região Nordeste", acrescenta Roberto Benjamin, ex-presidente da Comissão Nacional de Folclore e professor da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco).

Os melhores "arraiás"

Os arraiais em municípios do interior são confraternizações pequenas, mas em outros já se transformaram em megãventos, com altas produções, chegando a reunir até 1 milhão de turistas ao longo do mês. No circuito junino do Nordeste, destacam-se as cidades de Caruaru, em Pernambuco, e Campina Grande, na Paraíba, que disputam o título da melhor festa do país. A primeira é conhecida como "capital do forró" e a outra como "o maior São João do mundo". Na década de 80 surgiram em Caruaru as drilhas, quadrilhas que desfilavam atrás do trio elétrico ao som de um som modernizado.

Caruaru criou uma cidade cenográfica denominada Vila do Forró, uma réplica de cidade típica de sertão reproduzindo a arquitetura das casas, que são geralmente simples e coloridas, habitadas pela rainha do milho, pela rezadeira, pela rendeira, pela parteira. Uma das grandes atrações da festa é o desfile junino na véspera de São João. Desfilam mais de vinte carros alegóricos, carroças ornamentadas, em cujo cortejo são apresentados Bacamarteiros, bandas de pífaro, quadrilhas, casamentos matutos, grupos folclóricos.

Já Campina Grande, construiu o "Forródromo" que recebe todos os anos milhões de pessoas que se divertem, assistindo apresentações do forró pé de serra, quadrilhas, cantores, bandas, desfiles de jegues.

No Norte do país, outra região que também demorou mais a se urbanizar, as festas continuam bastante presentes. Na Amazônia cabocla, a tradição de homenagear os santos constitui um calendário que tem início em junho, com Santo Antônio, e termina em dezembro, com São Benedito. São festas de arraial, onde estão presentes as fogueiras, o foguetório, o mastro, os banhos da meia-noite.

A noite de São João na cidade de Belém é de feitiçaria indígena e adivinhação. São realizados também os "banhos de cheiro" que, acredita-se, dão sorte, alegria, prosperidade.

No sul de Minas, já há uma preocupação em comemorar as festas juninas nos moldes simples do homem do campo. Ao contrário das grandes cidades, que vão deixando de lado o caráter folclórico destas festas, no interior a tradição ainda sobrevive.







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