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Readaptação após intercâmbio requer cuidado

      

Por Marcel Frota

Poucas pessoas pensam o quão doloroso pode ser o retorno ao Brasil depois de uma temporada no exterior. O excesso de expectativas aliado às condições econômicas mais favoráveis em países desenvolvidos são ingredientes que, mal administrados psicologicamente, podem resultar em problemas sérios de readaptação. O sonho do intercâmbio pode provocar uma bela ressaca no retorno. Além do cuidado com os mitos do intercâmbio, o candidato a uma temporada longe do país deve ter bem claro o que pretende e não criar falsas perspectivas. Os especialistas no assunto garantem: intercâmbio não é, definitivamente, a solução dos problemas de ninguém.

Segundo Emília Miguel, gerente de produtos da agência de intercâmbio Experimento, algo que acontece muito é o intercambista sair do Brasil sem conhecer muito bem um idioma - na maioria das vezes o inglês -, mas com a expectativa de que vai voltar com um currículo poderoso e com as portas empresariais escancaradas. De acordo com ela, isso, na maioria das vezes, não acontece. Emília diz que isso depende muito da personalidade da pessoa, da capacidade de aprender e da desenvoltura, entre outras coisas. "Nem todo mundo se dá super bem assim quando retorna", afirma ela, que lembra também que o hábito num modo de vida diferente pode criar problemas.

"Se a pessoa fica um ou dois anos fora, quando volta, encontra uma vida diferente aqui no Brasil. Não é uma vida tão prática quanto é nos Estados Unidos, por exemplo. Lá você compra coisas muito mais facilmente. Chega aqui, a realidade é outra, o salário está num patamar diferente. E quando vem com a expectativa de chegar e conseguir um emprego, também não é num piscar de olhos, tem gente que leva mais tempo para conseguir esse emprego tão desejado. ·s vezes, a aposta foi essa, ou seja, vou, aprendo o idioma, volto afiado e chego no Brasil para trabalhar numa multinacional. Não é isso que acontece com freqüência", alerta Emília.

André Simonetti, gerente do programa High School da CI (Central de Intercâmbio), engrossa o coro de gente que tem experiência no assunto e alerta os intercambistas para ter muito cuidado com o que pode encontrar no Brasil. "Como consultor, já tive experiência de pessoas que admitiram ter superestimado os benefícios do intercâmbio e quando retornaram perceberam que a coisa não era bem assim", declarou Simonetti, que em seus 20 anos de experiência no mercado de intercâmbio viu alguns casos desse tipo. "A pessoa chega lá fora e encontra uma realidade mais fácil. ? mais fácil arranjar emprego e conseguir algumas coisas. Quando retorna, percebe que aqui no Brasil esse tipo de coisas ainda está difícil. Já tive casos de retorno complicado, em que readaptação foi complicada e a pessoa teve de procurar um psicólogo para voltar à realidade daqui", lembra ele.

Para a psicoterapeuta Sônia Maria Guaraldo Miguel, colaboradora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) as diferenças nas condições sócio-econômicas são um ponto nevrálgico no que diz respeito à readaptação pós-intercâmbio. "As diferenças nas perspectivas do que um país desenvolvido pode oferecer, sobretudo para o jovem, em comparação com o Brasil são significativas. Aqui o trabalho é mais escasso, o mercado mais competitivo e com muita exigência. O jovem fica sem perspectivas de trabalho até para suprir os desejos dessa fase da vida. No exterior, o jovem trabalha e ganha relativamente bem. Comprar um carro, que é algo importante para o jovem, é mais fácil", afirma Sônia. Ela também aborda outros aspectos da vida social nesses países como fatores de impacto no retorno para a casa, como segurança, eficiência governamental e de serviços em geral, que propiciam aos cidadãos qualidade de vida diferente da existente no Brasil.

Além de problemas gerados pelo excesso de confiança num retorno triunfal ao mercado de trabalho nacional, há pessoas que se arrependem em ter feito investimento em algo que não melhorou tanto assim a qualidade e o grau de domínio do idioma que a pessoa já tinha. Isso é algo que dever ser bem avaliado antes da partida. Quem é do ramo alerta que o futuro intercambista precisa saber que para aprender o idioma com eficiência precisa se dedicar e escolher uma instituição adequada, além de dedicar tempo suficiente para os estudos.

"Tem gente que vai para ficar um mês e ficar só um mês não adianta muito. Há muita expectativa em relação a progressos no aprendizado da língua. O cara achou que ia ficar um mês fora e ia voltar dando aula e não é por aí. Mesmo para quem tem conhecimento intermediário, precisa de mais tempo. Até se estruturar e entrar na rotina, leva tempo. Tempo maior traz benefício maior", declara Simonetti. Ele aconselha período de três a seis meses para que o estudante tenha aproveitamento mais significativo. Para isso, ele lembra a estratégia usada pelos jovens para ter mais tempo e tranqüilidade na viagem. "Muitos universitários optam por trancar a faculdade para ficar mais. Aí já muda. Agrega valores ao currículo dele", resume.

Emília aponta que a postura da pessoa no estrangeiro pode ser decisiva para determinar qual será a eficiência do aprendizado. "Se ele chegou lá e não se empenhou da maneira ideal, se só conviveu com brasileiros, ele chega aqui e não consegue ter um crescimento no idioma como esperava ter crescido. Ou se também opta por uma escola muito barata, que muitas vezes não tem a qualidade de uma escola que tem o preço mais elevado. Quando o brasileiro vai escolher a escola, ele olha, de uma maneira geral, preço. Primeiro preço e depois qualidade. As pessoas não olham primeiro qualidade depois preço e isso compromete. Se uma determinada escola faz promoção no Brasil, vai chover brasileiro lá e aí a tendência do brasileiro é se juntar com outro brasileiro e assim vai aprender menos", pondera ela.

A família que enfrenta problemas com a readaptação de um intercâmbista deve ter muita paciência e compreensão. Sônia destaca que, nesse período, as conversas devem ser freqüentes, mas os pais devem ter em mente que o fundamental nesse processo é ouvir. "A família é determinante neste processo. Os pais devem procurar colocar os pés do jovem de volta no chão. Nessa fase, eles têm seus sonhos e o adulto pode mostrar caminhos viáveis, dentro da realidade brasileira, para sua concretização. Para isso, porém, é preciso tentar entendê-lo e escutar muito", diz a psicoterapeuta.

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