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Carnaval nas ruas de São Luís

Capital do Maranhão resgatou tradição dos Carnavais populares


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Por Carlos Brazil

Uma cidade histórica, colonial, que mantinha uma bela tradição de Carnaval, chegou a deixar de lado essa tradição por um bom tempo, mas resgatou o melhor de seu Carnaval a partir da segunda metade dos anos 80. Esta é São Luís do Maranhão.

Até os anos 60, São Luís tinha uma tradição de Carnaval de rua, em que as famílias se reuniam para brincar e dançar nas estreitas vielas do centro histórico. Essa tradição se perdeu por algum tempo, como explica Maria Michol Pinho de Carvalho, superintendente de Cultura Popular da Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão: "O Carnaval maranhense, dentro de seu contexto histórico, já passou por várias fases. Tínhamos, no passado, o que até se caracterizava como o terceiro Carnaval do Brasil. Muito popular, porque é uma cidade colonial que tem muito a ver com a configuração de Olinda (PE), por exemplo: as ruas estreitas, as ladeiras, praças. Então, o Carnaval tinha, mais ou menos até meados dos anos 1960, esse caráter tipicamente de rua, familiar, aconchegante. Havia o corso, formado por caminhões e carros que percorriam várias artérias do centro histórico."

"Depois, foi havendo uma influência muito grande e começou a se tornar um Carnaval de passarela. As nossas escolas de samba, que tinham um batucada bem característica, bem peculiar, da qual hoje temos alguns remanescentes, começaram a ser muito influenciadas pela tradição carioca. O Carnaval passou a ser muito voltado para essa questão dos desfiles, do enquadramento dos grupos, sobretudo das escolas de samba em critérios muito influenciados pela estética carioca", explica Maria Michol.

Essa reversão de tradição começou a mudar a partir da segunda metade dos anos 1980. Um movimento de resgate das tradições começou a se formar entre artistas, intelectuais e personalidades maranhenses.

"Em meados da década de 80, se dizia que o Carnaval de rua maranhense tinha morrido, perdido sua identidade. Aí, começou esse movimento de volta às origens, de retomada das tradições. A partir daí, nos anos 1990, foi feito todo um esforço nesse sentido, quando artistas e intelectuais formaram blocos, saíram caracterizados de fofões, que é uma figura muito tradicional de nosso Carnaval. Houve, também, apoio oficial para essa retomada", diz a superintendente.

Assim, a cada ano o Carnaval de São Luís foi recuperando suas tradições, criando novas atrações e ganhando as ruas como sua passarela, principalmente em circuitos, como o Deodoro-Madre Deus, o mais tradicional. Nestes circuitos, há uma série de pontos de som onde os blocos, grupos e charangas fazem apresentações de 30 minutos a uma hora para o público. Este participa dançando junto com eles ou, simplesmente, assistindo as performances. E cada grupo faz diversas apresentações em vários pontos da cidades, circulando nos locais previamente programados para as apresentações.

"O Carnaval de rua daqui não é só um desfile de passarela. Ele tem vários circuitos e se espalha a partir do período pré-carnavalesco. Na realidade, logo em meados de janeiro a coisa já fica bem quente, e ele se espalha em alguns bairros. O forte mesmo é o bairro de Madre Deus. O segundo mais forte é o Cohatrac, nome de um conjunto habitacional. Os outros são o bairro de Angelim e Anil", explica o teatrólogo Tácito Borralho, professor de Departamento de Artes da UFMA (Universidade Federal do Maranhão).

Tácito lembra que alguns dos diferenciais do Carnaval de São Luís são os blocos de ritmo, os blocos tradicionais e os grupos de tambor de crioula - que é uma dança de negros antiga, da época das senzalas, e que hoje tem uma força muito grande. "O corso - que eram carros alegóricos sobre caminhões que disfilavam - hoje está reduzido só à Casinha da Roça, em Tijupá, que é uma alegoria feita toda em palha, como se fosse mesmo uma casa de caboclo, com dançarinas de tambor de crioula dentro. ? uma alegoria muito viva, em que mulheres vão cozinhando na rua e distribuindo comida ao pessoal", diz o professor.

Para Maria Michol, a principal característica do Carnaval maranhense é que ele é muito criativo e popular. "Ele envolve os vários segmentos da nossa população, com grande número de grupos. Aqui, podemos destacar entre esses grupos os blocos tradicionais, blocos organizados, blocos alternativos, blocos afro, blocos de sujo - aqueles que não têm fantasia, em que as pessoas vão tocando, fazendo uma batucada, percorrendo as ruas vestidas como melhor lhes aprouver, ou de maneira jocosa (como homens vestidos de mulher, por exemplo), retratanto determinados personagens com máscaras de pessoas que ficaram em destaque na cena cultural, artística ou política daquele ano."

Entre os blocos, tanto Tácito Borralho quanto Maria Michol destacam o Máquina de Descarcar Alho. Borralho explica que o grupo toca marchas e sambas locais, "e é uma coisa para uma multidão cantando quase à capela, com acompanhamento de alguns instrumentos, mas não com carro de som. ? todo mundo cantando no gogó e com percussão baixinha. ? maravilhoso".

Há também a figura dos fofões: "Uma coisa que só tem no Maranhão é o fofão - aí em São Paulo não sei se tem; no Rio tem o Clóvis ou bate-bola; em Pernambuco tem o palhaço, que são coisas parecidas. ? uma figura da commedie dellarte, um tipo de estrião que é tradicionalíssimo e vive só aqui. ? como um pierrot ou um arlequim que não deu certo, que o caboclo não soube fazer a roupa e fez de chitão. Eles vestem uma máscara grotesca, maravilhosa, com nariz grande e tudo, sãm sós ou em blocos, mas não com acompanhamento musical, e fazem um grito assim como: Uhlahlah!!! Eles levam uma bonequinha na mão e uma vara para espantar as crianças ou os cachorros. A boneca é para pedir uma espécie de esmola. Eles fingem estar com dor de dente e gritam esse refrãozinho francês: Uhlahlah!!!", descreve Borralho.

Sobre o estilo da música no Carnaval de São Luís, Borralho destaca quatro referências: o samba de bloco de ritmo (que tem base na percussão de tambores muito grandes); o samba de batucada dos blocos tradicionais; o tambor de crioula; e a marchinha. "Então, marcha e samba, no Maranhão, são coisas mais fortes, e também o tambor de crioula, que todo mundo dança", diz o professor da UFMA. Alguns de seus grandes compositores, segundo Borralho, são Zé Pereira Godão, Luís Bucão, Antônio Vieira, Sapinho, Cristóvão e Wellington Reis, entre outros.

Mas há espaço também para os desfiles de escolas de samba, com características comuns àqueles que acontecem por quase todo o Brasil, além de outras expressões tradicionais, como as tribos de índio, os cordões, as jardineiras (caminhões que trazem músicos tocando enquanto a população os segue dançando pelos circuitos da cidade) e os próprios bailes de salão.

"Antigamente, havia bailes tradicionais em São Luís, que eram feitos em casarões alugados especificamente para essa finalidade. Havia uma série de bailes, em que as mulheres iam mascaradas. Tinham nomes característicos, como o Baile do Bigorrilho, Saravá, Gruta de Satã, Rei Pelé... Na década de 70 esses bailes foram proibidos. Há cinco ou seis anos, essa tradição também está sendo resgatada. Nós mesmos, aqui no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira (órgão ligado à Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão), fazemos dois bailes: na sexta-feira gorda, tem o Baile do Bigorrilho, para adultos; já no sábado gordo, tem o Saravá mirim, para as crianças. Os dois com marchinhas, sambas e ritmos característicos daqui. Há também o Baile dos Artistas, Baile da Cidade, Baile das Fofinhas - que é de senhoras. E as pessoas são estimuladas a irem a estes bailes fantasiadas e, se possível, usando máscaras", descreve Maria Michol.

Ela lembra também da tradição do Carnaval do Lavra-Pratos, em São José de Ribamar, cidade praiana próxima a São Luís. A festa acontece no final de semana seguinte ao Carnaval.

Já Tácito Borralho descreve a tradição do Carnaval do interior do Maranhão. Segundo ele, as cidades tradicionais, mais antigas - como Cedral, Mirinzal e Guimarães -, têm um Carnaval muito forte. Entre os destaques, lembra a tradição do Salameu.

"O Salameu é um boneco que morre e ressuscita. Eles enterram na terça-feira de Carnaval, à meia-noite, e todo o sábado de Carnaval do outro ano eles desenterram, ressuscitam o boneco e fazendo uma grande procissão de comilança, pegando comida nas casas, cantando e dançando. ? uma coisa bem primitiva", conclui o teatrólogo, que trata dessa tradição em seu livro "O Boneco - Do imaginário popular maranhense ao teatro" (editado pela Secretaria de Cultura de São Luís, em 2005).







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