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Produção de Alimentos X Produção de Biocombustíveis

      

Por Marcel Frota, de Campinas (SP)

O plantio de cana-de-açúcar para a produção de etanol não tem roubado espaço significativo da áreas usadas para a produção de alimentos e nem é responsável pela alta dos preços desses produtos. A afirmação é do professor José Tadeu Jorge, reitor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) que proferiu palestra durante a Conferência "Produção de Alimentos X Produção de Biocombustíveis". A apresentação foi parte da abertura do penúltimo dia da 60ª Reunião da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), que este ano é realizada na Unicamp.

Jorge apresentou uma série de dados de diversas fontes diferentes para demonstrar que o grande responsável pelo aumento dos preços dos alimentos é o crescimento da demanda internacional e não a diminuição da produção deles para suposta produção de biocombustíveis. Primeiro, o professor apontou que não foram somente os alimentos que subiram de preço, mas outras commodities, como o petróleo e cobre, por exemplo. "Temos, portanto, uma pista de que não há relação direta entre a alta dos preços dos alimentos com o aumento da produção de etanol porque não são somente os preços deles que têm tendência de alta. Ninguém substituiu a produção de cobre para plantar cana-de-açúcar", provocou Jorge.

Pelos dados usados por Jorge, a saca da soja passou de US$ 11,40 em 2000 para US$ 28,70 em 2008; o trigo foi de US$ 6,05 em 2000 para US$ 17,36 este ano; o arroz saltou de US$ 7,25 em 2000 para US$ 28,41 em 2008; e o milho pulou de US$ 5,31 em 2000 e chegou a US$ 14,18 em 2008. Porém, outras commodities também registraram alta considerável. Caso do petróleo, cujo barril era vendido a US$ 28 o barril em 2000 e passou a ser negociado a US$ 150 neste ano, com demonstrações de que este preço pode chegar a US$ 200. A tonelada do cobre foi outro exemplo dado por Jorge. O metal era negociado a US$ 1.813 em 2000 e hoje custa US$ 8.018.

"Começa a ganhar consistência o argumento de que estamos diante de uma questão econômica global e não de um problema local", afirmou o reitor, para em seguida fazer clara referência ao fato de grandes porções populacionais na América Latina e principalmente na Ásia que antes não detinham poder de compra e que hoje tem acesso aos recursos necessários para subsistência. "Sempre que alguém tem dinheiro, a primeira necessidade que busca suprir é a de alimentos. A possibilidade de acesso a renda gerou demanda maior para diversos produtos. E a demanda que cresce mais cedo e mais rápido é a demanda por alimentos. Isso resulta em alta dos preços desses produtos", declarou ele.

A partir desse cenário, Jorge centralizou sua análise sobre o caso brasileiro, já que organismos multilaterais, como a ONU (Organização das Nações Unidas) têm culpado a produção de etanol como principal responsável pelos preços altos dos alimentos. Criticam inclusive frontalmente o programa brasileiro e o lobby mundial que o País faz em torno da necessidade de investimentos sobre esse tipo de combustível como alternativa do futuro para os fosseis. Jorge usou basicamente dois registros para sustentar sua apresentação: área plantada e quantidade produzida.

Dois exemplos de produtos importantes no cenário mundial e que registram sucessivas altas no mercado internacional foram usados por Jorge para ilustrar a situação: milho e soja. No caso do milho, em 1980 o Brasil dedicava 12,1 milhões de hectares na cultura deste grão, área que passou a ser de 12,9 milhões em 2005. Já a soja era plantada em 8,6 hectares em 1980 e em 2005 passou a ser cultivada em 22,7 milhões. Em termos de produtividade os dois produtos registraram alta significativa. Em 1986 o País produzia 26,7 milhões de toneladas de milho e passou a produzir em 2005 42,5 milhões de toneladas. No caso da soja, a produção saltou de 17 milhões de toneladas em 1986 para 55 milhões de toneladas em 2005.

"A produção de soja é crescente, portanto, (a alta no preço) nada tem a ver com substituição de área plantada por cana-de-açúcar. Muito pelo contrário, o Brasil aumentou sua produtividade. Além disso, podemos citar o trigo. O Brasil não exporta trigo, ao contrário, importa. Portanto, o que tem a ver a cana-de-açúcar brasileira com a alta do preço do trigo? Isso é um verdadeiro absurdo em qualquer argumentação", criticou Jorge.

O reitor mostrou dados que revelam a distribuição da atividade agropecuária no Brasil. Atualmente o País dedica 237 milhões de hectares para pastagem, o que representa 81% de sua área utilizada para agropecuária. A soja ocupa a segunda posição , com 21 milhões de hectares (7%) e milho em seguida com 12 milhões (4%). A cana-de-açúcar aparece em quarto lugar com 5,6 milhões de hectares, ou 2% do total. Todos os outros produtos somam 17 milhões, o que representa 6% do total.

Jorge trouxe dados atribuídos ao governo do estado de São Paulo para traçar um caminho da evolução do plantio no estado que é o maior produtor de cana-de-açúcar do País. A área dedicada à cultura da matéria prima do etanol no estado era de 2,5 milhões de hectares em 1998 e ocupava em 2007 3,9 milhões de hectares. Segundo o reitor, a cana-de-açúcar incorporou entre 2001 e 2006 um milhão de hectares de outras culturas distribuídas da seguinte forma: pastagem cultivada (673.600 hectares), milho (130.000 hectares), pastagem natural (51.604 hectares), feijão (36.600), café (21.600), arroz (14.500), laranja (14.300), banana(7.200), entre outros.

Para Jorge, no caso de São Paulo, preocupa a substituição das lavouras de arroz e feijão, embora as outras tenham pouco impacto na produção total do estado. Assim mesmo, quando se analisa a produção nacional desses dois grãos, o País aumentou a produção. "Outras regiões compensaram isso. No caso do arroz até pelo fato de São Paulo nem ser grande produtor desse grão", explicou o reitor, procurando novamente destacar que a substituição das lavouras de arroz e feijão é algo preocupante para o estado. Segundo ele, o argumento de que a cana-de-açúcar só se expandirá sobre áreas de pastagem é um sofisma. "É um argumento equivocado".

Em outro quadro, o reitor procurou mostrar como, ao contrário do que se diz, o Brasil aumentou a produção de comida e foi o país que mais cresceu nesse quesito em 2006. Entre os maiores exportadores do mundo no âmbito do agronegócio, o Brasil aparece na quarta colocação, registrou naquele ano US$ 40 bilhões em vendas, atrás de União Européia (US$ 96 bilhões); Estados Unidos (US$ 92 bilhões) e Canadá (US$ 45 bilhões). Entretanto, em termos de crescimento o Brasil lidera. Teve 9,4% de crescimento no setor, bem acima de União Européia (3,4%), Estados Unidos (1,4%) e Canadá (2,8%). O país que mais se aproxima do Brasil em termos de crescimento nas exportações no setor de agronegócio é a China, com crescimento de 8,4%. "Ou seja, o Brasil tem crescido muito sua taxa de produção de alimentos", disparou Jorge.

O reitor terminou sua apresentação ao falar que o País tem grande potencial de crescimento da produção de alimentos e etanol, embora ele considere mais lucrativo para o Brasil expandir a lavoura de alimentos. Ele garantiu que isso é possível sem colocar em risco áreas de preservação ambiental. De acordo com Jorge, dos 851 milhões de hectares do território nacional, 470 milhões são intocáveis, compostos de florestas, reservas, rios, represas ou já ocupados por malhas urbanas. Ainda há 220 milhões para criação animal, 70 milhões já ocupados pela atividade agrícola e cerca de 90 milhões de hectares agricultáveis, porém, segundo ele, ainda não usados.

"Temos potencial agrícola numa área maior do que toda aquela utilizada hoje. Nenhum outro país tem um potencial como o nosso. O Brasil precisa de uma política agrícola, coisa que nunca teve. Ela tem de ser fundamentada nos conceitos da agropecuária. O que tivemos até hoje foram planos econômicos para agricultura", criticou o reitor.

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