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Medo pode ser vilão da carreira

      

Por Larissa Leiros Baroni

Enquanto muitos profissionais perdem oportunidades por falta de conhecimentos técnicos, o contabilista J.G.L.J., 30 anos, acabou por tropeçar em seus próprios medos. Ele, que pediu para ter sua identidade preservada, venceu a concorrência, passou em todos os testes e ingressou numa grande empresa de outsourcing internacional. No entanto, não conseguiu ir além dos três meses de experiência. Toda vez que era preciso falar com a gestora, as mãos tremiam e o coração acelerava. Faltam-lhe as palavras e a gagueira tomava conta da situação. A insegurança comprometeu inclusive o desenvolvimento de todas as suas atividades.

"As tremedeiras vinha junto com o medo de ser mal interpretado e, consequentemente, de levar uma bronca. Nas tarefas isso era ainda mais freqüente, já que ao invés de fazer o que sabia, sempre pensava: `será que ela vai gostar?ï", conta J.G.L.J.. Ele diz que não era possível agir naturalmente. O temor o impedia de desenvolver todo o seu potencial técnico. "A mente parecia ser bloqueada pela angústia", descreve. Na opinião do contabilista, a razão desses sentimentos está diretamente relacionada à infância. "Meus pais se separaram quando tinha nove anos. Desde então, fui criado por minha madrasta que, para impor respeito, me agredia física e verbalmente."

Esse, no entanto, não é um problema exclusivo de J.G.L.J.. Segundo estudos da OMS (Organização Mundial da Saúde), os medos irracionais afetam cerca de 400 milhões de pessoas em todo o mundo. No país, essas fobias se manifestam ao longo da vida de 17,8% dos brasileiros. E grande parte dos traumas é transportada direta ou indiretamente ao ambiente de trabalho. "O ser humano é uma totalidade, não dá para ser divido de acordo com suas relações. Desta forma, os traumas o acompanham em todas as circunstâncias", alerta a psicoterapeuta e professora do departamento de psicologia da PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas), Alina Purvinis.

De acordo com o professor de psicologia e sociologia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Aécio Gomes de Matos, qualquer empecilho nas relações do trabalho podem excluir o profissional da vaga que ocupa. Isso porque a oferta no mundo dos negócios é bem menor do que a procura. "Na hora de escolher entre candidatos que sofrem de medos e aqueles com deficiências técnicas, ainda prevalecerá o candidato que se enquadre na segunda opção. Conhecimentos podem ser transmitidos e adquiridos com a experiência, mas as questões internas não são mudadas assim com tanta facilidade ", alerta Matos.

Muitos profissionais até tentam camuflar seus traumas para os colegas de trabalho e, principalmente, para a empresa. Alguns, inclusive, fingem esconder os problemas deles mesmos. "Mascarar é um mecanismo de defesa inconsciente. Uma forma de se proteger de situações constrangedoras e desafiadoras", aponta Matos. A medida pode ser a segurança do emprego, além de evitar futuras chacotas. Porém nem sempre isso é possível. Mais cedo ou mais tarde, de acordo com Matos, os seus medos podem voltar a atormentar.

Foi o que aconteceu com o empresário Hamilton Chen, 33 anos. A timidez era a desculpa para justificar suas dificuldades de comunicação, que aumentavam na mesma proporção em que crescia o número de interlocutores simultâneos. "Por mais que treinasse, antes de falar com as pessoas sempre tremia, perdia os sentidos, esquecia de tudo e não conseguia cumprir os objetivos da conversação", descreve Chen. Não havia técnica que pudesse ajudá-lo a controlar a situação.

Mas a consciência de que a questão ultrapassava os limites da vergonha só veio à tona quando o empresário parou para analisar seu desenvolvimento profissional. "Nunca ia bem nas entrevistas de emprego, além disso perdi muitos contratos por falta de comunicação eficaz", argumenta. Chen arrisca a dizer inclusive que se tivesse encarado a situação antes, as conseqüências desse medo seriam bem menores.

Medos inofensivos?

Há alguns medos que até podem parecer inofensivos para o desenvolvimento de uma carreira, como é o caso dos traumas de andar de avião ou até mesmo de dirigir. Nem sempre, no entanto, é possível fazer essa previsão. O que determinará a influência não é somente a área de atuação. As situações - geralmente imprevisíveis - as quais o profissional estará exposto também contam muito. Parece razoável supor que se alguém tem medo de viajar pelas alturas, não escolherá a carreira de piloto. Mas um engenheiro, por exemplo, pode precisar visitar uma obra em outro estado e ter de enfrentar seu medo ou simplesmente se recusar a cumprir essa missão.

Diante disso, é melhor contar com a sorte ou enfrentar a situação? A agente de viagens Olinda Julia Afonso Guimarães, 50 anos, seguiu pela primeira opção. Mas não teve muito sucesso. Logo teve de mudar de estratégia e enfrentar o medo, já que nem sempre era possível fazer de carro as viagens necessárias em seu trabalho. "Nos dias que antecediam a data do embarque, já não conseguia dormir. Ao entrar no avião, a situação se complicava a cada segundo. Qualquer barulho já representava sinal de fim. Teve uma vez em que fui parar no hospital com a pressão alta", conta. Nas situações em que o pavor foi incontrolável, Olinda perdeu importantes reuniões e, numa ocasião, a oportunidade de conhecer Paris, na França.

Para Olinda, pior do que perder compromissos profissionais é o sentimento de incompetência atrelado ao medo. "A sensação de incapacidade de controlar nossos próprios sentimentos nos faz sentir humilhada diante dos colegas. Acreditamos ser pior do que os demais", revela. Para complicar ainda mais a situação, ela afirma que nem todas as pessoas compreendem os traumas alheios. "Muitos acreditam que é frescura, condenam e fazem piadinhas. Isso agrava ainda mais a situação", explica.

Os medos, não entanto, não são sinônimos de sentimentos negativos. Há situações em que ele é fundamental para a garantia da vida. "Uma emoção humana e natural. Sinaliza uma ameaça e nos faz tomar certas precauções. Imagine só o que seria de nós se não tivéssemos medos", alerta Alina. Para Matos essa sensação pode inclusive mobilizar as pessoas a buscar conhecimentos.

Matos e Alina são unânimes em dizer que o que difere o medo natural do doentio é a sua intensidade. "Quando o trauma é reservado para situações irreais, é preciso ficar atento. Isso pode até causar reações fisiológicas e transtornos psíquicos mais graves", declara a professora da PUC-Campinas. "O medo é saudável até um certo grau", reitera Matos.

Volta por cima

Mascarar a situação pode ser uma saída temporária. Mas Alina assegura que quanto mais cedo o problema for encarado, mais rápido será solucionado e menores serão as conseqüências. Meios para transformar esses medos em coragem não faltam. Para os especialistas, a incapacidade de superar o problema está na falta de comprometimento e na carência de disposição dos profissionais se auto-ajudarem.

O primeiro passo para o tratamento, segundo Alina, é fazer uma auto-avaliação. "Reflita sobre seus comportamentos do dia-a-dia e tente perceber se seus medos têm impedido você de fazer algo". Em seguida, ela aconselha que seja feita uma análise a respeito dos reflexos do problema na carreira. "Em caso de dificuldades, é possível pedir uma avaliação crítica às pessoas que convivem com você, seja um colega de trabalho ou alguém da família", sugere ela. Por fim, recomenda-se ir em busca de ajuda. Matos afirma que nem sempre é preciso consultar um terapeuta. "O medo, em graus menores, pode ser tratado com um curso de aperfeiçoamento, que dará ao profissional mais segurança para realizar certas atividades, com a leitura de um livro ou até com exercícios de autocontrole", diz.

O contabilista J.G.L.J. teve de perder uma boa oportunidade de emprego para aprender a controlar seus medos. "Além de a experiência anterior ter sido bastante importante para a minha auto-avaliação, me impulsionou a buscar informações sobre inteligência emocional por meio da leitura de livros", diz o contabilista. Atualmente, apesar de não ter afastado o trauma de sua vida, ele consegue conversar com seus superiores sem demonstrar inseguranças. "A estratégia é pensar muito bem antes de falar", admite.

Já o empresário Chen decidiu seguir por outro caminho. Procurou um curso para aprender técnicas de uma boa comunicação e a escolha foi pelo Instituto de Comunicação Verbal Roza Moscardi. "Além de desenvolver o técnico, o programa trabalha seu sentimento em relação ao medo. Se você consegue dominar esses traumas, colocar as técnicas de apresentação é só conseqüência", descreve. O empresário diz que consegue hoje subir num palco e falar para uma platéia cheia sem suar frio.

Olinda optou pela ajuda psicológica do centro Voando Sem Stress. "Pude trabalhar a causa para solucionar meu trauma de avião. Aprendi um pouco mais sobre o funcionamento da ãronave, além de ter desenvolvido técnicas de autocontrole", relata a agente de viagens que admite ainda não gostar do meio de transporte. "Mas consigo encará-lo sem pavor", garante.

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