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Fúria de Titãs deixa o mito de lado e explora ação

Obra resgata mitologia grega, mas se distancia da história original


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Por Roberto Machado

Diferente dos monstros criados pelo gênio da animação Ray Harryhaussen em stop motion no primeiro Fúria de Titãs (1981), o diretor Louis Leterrier traz para o público uma versão recheada de efeitos especiais. A conversão para o formato 3D depois de editado, no entanto, acaba por confundir o espectador na hora dos combates mitológicos.

A paixão não é mais o indutor de Perseu. Diante da crise de existência e do reconhecimento de sua origem como filho de Zeus, ele tem a missão de salvar a princesa Andrômeda para proteger a cidade de Argos das ameaças de destruição de Kraken - monstro enviado por Hades (Deus do Inferno). Os ataques visam punir os humanos que deixaram de adorar os deuses.

A obra deixa de lado os aspectos mitológicos e prioriza cenas de ação. Uma princesa em perigo e um herói que fará de tudo para alcançar seu objetivo. Tudo isso no melhor estilo hollywoodiano de um filme de ação.

Fúria de Titãs
Gênero: ação, aventura, épico
Direção: Louis Leterrier
Duração: 118 minutos
Classificação: 14 anos

Essa sexta-feira, 21 de maio, é marcada pela estréia de um tema que parecia ter sido esquecido pela indústria cinematográfica, à mitologia grega. Com elenco estelar, locações elaboradas e dezenas de efeitos especiais, Fúria de Titãs chega às salas de cinema do Brasil e se distância do enredo original, do mito e da filmagem do clássico de 1981, que levava o mesmo título. Ainda sim, propõe uma discussão sobre a importância das histórias dos deuses gregos na atualidade.

O filme começa com um impasse entre Zeus (Liam Neeson) que, junto dos outros seres do Olimpo, precisa da adoração dos humanos para manter seu papel de criador imortal, e o rei da cidade de Argos, que pretende dar início a era dos homens. Para resolver a desavença aparece Hades (Ralph Fiennes), senhor das profundezas, que faz com que o povo escolha entre o sacrifício da princesa Andrômeda e a fúria do monstro Kraken. É nessa hora que Perseu (Sam Worthington) - criado por pescadores mortos na primeira investida de Hades - descobre ser filho de Zeus e inicia sua jornada de vingança contra os deuses. Na visão do semideus, eles são uma ameaça à vida na Terra e, principalmente, à sua origem.

Segundo Susana Mesquita Barbosa, professora de filosofia da Universidade Mackenzie, a mitologia grega surgiu a partir da necessidade que o homem tinha de explicar seu próprio mundo. "Coincidência ou não, os temas giravam em torno de questões morais e embates humanos que serão sempre atuais", afirma a professora. Para ela, esses conceitos estão presentes até hoje, principalmente, por causa das freqüentes dúvidas sobre a existência humana. Perguntas como "Quem sou eu?", "De onde vim?" e "Para onde vou?", apesar de frequentes, não possuem respostas precisas.

O enredo de Louis Leterrier traz uma versão a essas questões. O próprio Perseu, em busca da besta aquática de Hades, o Kraken, mostra como sua batalha vai além dos combates criados por computação gráfica e seres mitológicos como a Medusa (transformava seus inimigos em pedra apenas com um olhar) e o barqueiro (fazia o transporte das almas para o mundo dos mortos depois de receber uma moeda). Sua luta interna carrega as próprias dúvidas que a humanidade tenta desvendar faz séculos. "O maior embate de Perseu é por autoconhecimento. Até certo ponto, ele não se importa com o caminho que precisa trilhar, busca apenas por respostas", analisa Susana, que compara sua atitude com a condição humana. "As respostas que o semideus persegue não são diferentes daquelas que questionamos todos os dias. O que ele percebe é que o importante é a jornada em si, que nos dá experiência e confiança, e não o fim", enfatiza ela.

Também é possível acompanhar, paralelo à missão de Perseu, como os deuses (Zeus e Hades) interferem no acontecimento dos fatos para proteger seus próprios interesses dentro da trama, o que revela uma relação de cumplicidade entre deuses e humanos, diferente da relação que atualmente se tem com a religião. "Esperamos apenas por recompensa em consequência das nossas atitudes, diferente dos deuses gregos que, além terem contato com os humanos, até tinham filhos com eles, o caso do próprio Perseu", compara ela.

Mas na opinião de Susana, o enredo não é totalmente fiel à mitologia grega. A perspectiva de vingança que o personagem principal demonstra se distancia da história original que atribuía uma visão mais filosófica à jornada Perseu. "Não é uma vingança contra Hades ou Zeus, mas sim contra a descoberta de sua origem. Isso causa a perda do controle sobre o rumo de sua própria vida", afirma ela.

Mesmo não seguindo pontualmente o original, Fúria de Titãs carrega o efeito de causa e consequência comum nas histórias gregas. O que para a professora de filosofia propicia um distanciamento natural, até porque os mitos remetem a outra época, com diferentes valores sociais e crenças religiosas. "A ideia de um Deus onipresente traz tranquilidade, determina caminhos e transfere responsabilidade. É como criamos explicação para o desconhecido", diz Susana.

Processo que, no entanto, funcionaria como incentivo à curiosidade de estudantes sobre as grandes tragédias gregas. É o que afirma Suzana, que aposta no poder do clássico para o desenvolvimento intelectual dos alunos. "A filosofia não é regional, ela é conhecida e discutida no mundo inteiro de diversas maneiras diferentes. Esse é um dos incentivos para que ela seja estudada", defende ela. O estudo da mitologia é importante, não apenas para cursos específicos, como história e filosofia, mas também em diversas áreas do conhecimento, principalmente por sua idade e riqueza de relatos, como exemplifica a educadora. "Tanto para cultura geral, como para especializações sobre o mundo das ideias e fundamentação de cursos com base na própria mitologia, esse tipo de conhecimento nunca é demais e se estende até pelo direito e a matemática", destaca ela.

O filme não chega a ser uma aula sobre mitologia, mas Susana recomenda tanto para aqueles com a curiosidade por mais um lançamento da indústria cinematográfica, como para aqueles que se interessam por mitologia e querem ver os personagens dos livros vivos nas telonas, mas ela faz uma advertência: "É uma boa opção para os amantes de cinema, mas ele, por si só, nunca substituirá a riqueza da obra original", lembra a professora da Universidade Mackenzie.







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