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Especialista ressalta a importância da mobilização social para a Rio+20

      
(Crédito: Wikipédia)
(Crédito: Wikipédia)

 

Universia Brasil, maior rede ibero-americana de colaboração universitária presente em 23 países, conversou com o professor titular da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP (PROCAM), formado pela Universidade de São Paulo e de Harvard, Pedro Roberto Jacobi. Em entrevista, o especialista ressaltou a importância da mobilização social – principalmente dos jovens - para que o evento tenha resultados mais concretos. “O jovem tem que parar de achar que tudo chegará de mãos beijadas”.

 

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A Rio+20 acontecerá esta quarta-feira (13) e tem movimentado muitas discussões sobre meio-ambiente e responsabilidade sócio-ambiental. Cada vez mais em pauta, o assunto é cobrado frequentemente no vestibular porque faz parte do dia dia-a-dia de qualquer um. Tendo em vista a magnitude do evento, que reúne presidentes e diversos países e representantes de organizações internacionais, escutamos Pedro Jacobi, um especialista no assunto. Com tantos reveses nas negociações políticas internacionais (e nacionais), é difícil ser otimista quanto aos resultados do evento, mas o professor salienta a sua importância: “é importante que se fale sobre a Rio+20 para que haja mobilização. Sou a favor da reunião porque coloca um assunto crucial em pauta”.

 

As afirmações do professor têm muito a ver com os assuntos cobrados pelo Enem, já que o especialista comenta a importância do jovem neste emaranhado político e sócio-ambiental. Jacobi está alinhado com a proposta do exame nacional de formar adolescentes conscientes e responsáveis não apenas social, mas ecologicamente.

 

Confira a entrevista Pedro Roberto Jacobi:

 

Universia: Por que a Rio+20 é importante?
Jacobi: A Rio+20 tratará de temas que estão exigindo um posicionamento do governo e da sociedade, como poluição, sustentabilidade, indicadores de desenvolvimento sustentável, inclusão social, fome, água, etc. Embora não se saiba o que será aprovado, é importante que a sociedade fique à parte do que foi discutido e cobre das autoridades o que foi aprovado lá. A reunião foi em cima da hora, os governos não estão muito interessados. Por exemplo, o Obama está de mãos atadas por congresso conservador. Por isso, a mobilização da população é essencial; já que, nestes eventos, discutem-se temas estratégicos, porém dela saem resultados modestos. Deixo minha mensagem aos jovens: é importante não ficar somente como espectador e agir. Eles têm tudo na mão (tecnologia, conhecimento, internet) mas não usam isso da forma correta. O brasileiro – e principalmente os mais novos – têm que ser menos pragmáticos e mais reflexivos.

 

Universia: O que sairá da Rio+20?
Jacobi: Intenções que devem ser transformadas em ações. Depende do governo e da mobilização social que causar. A OMS (Organização Mundial da Saúde) tem um papel fundamental também. Levando em conta os outros eventos como a Rio 92 e a Johannesburgo 2002, percebe-se que muitas agendas foram criadas, porém pouco foi posto em prática. Por isso, novamente, a importância da mobilização social e dos agentes mobilizadores.

 

Universia: O que são os agentes mobilizadores?
Jacobi: Um exemplo de mobilizadores poderiam ser as redes sociais. É algo recente, porém algo que permite com que a sociedade se auto-vigie. Por exemplo, falou-se muito do Código Florestal nas mídias sociais. O Avaz também é uma ótima ferramenta. Isso indica que elas têm papéis interessantes; mas é necessário saber usá-las.

 

Universia: Por que as outras discussões como Rio 92 e o próprio Protocolo de Kyoto não foram tão frutíferos quanto deveriam ser?
Jacobi: Tudo está associado a acordos e negociação. O que foi proposto nestas discussões não é/foi conveniente àqueles que estavam/estão negociando e os resultados foram desapontadores. Os governos assinaram o Protocolo de Kyoto, eles deveriam estar propostos a colocá-los em prática; porém não conseguiram acordos internos e, por isso, o tratado não obteve tanto êxito.

 

Universia: Considerando estes tratados e a sustentabilidade, quais países são exemplos a seguir?
Jacobi: Os escandinavos (Noruega, Suécia, Dinamarca) e a Alemanha.

 

Universia: E o Brasil?
Jacobi: O Brasil não é o melhor exemplo de sustentabilidade. Mas como já disse, isso são decisões e opções de governo. O País tem uma agenda claramente desenvolvimentista, que pende para o lado dos BRICs: priorizando o avanço tecnológico em detrimento do ético-social.

 

Universia:Como você enxerga o futuro do planeta?
Jacobi: Eu prefiro ser otimista do que pessimista. Para mim, temos que apostar que as mudem para melhor. Porém, reforço novamente que as pessoas não podem se acomodar. Elas mesmas têm que se perguntar até onde continuar agindo pragmaticamente interferirá na vida de cada um. Tenho impressão de que não há espaço suficiente para estas discussões e consequente conscientização social sobre o assunto. Embora tenhamos recebido uma herança muito negativa das outras gerações, não tentamos mudar esta situação. Isso tem que mudar.

 

Universia: Como você acha que a população deveria se mobilizar?
Jacobi: Tem que haver espaço público para participar. As pessoas têm que estar mais sintonizadas e, quem sabe, criar seu próprio evento. Não se pode cair em argumentos ruins, criar espaços de discussão, fóruns e lutar para que tenham voz.

 

Universia: Como conciliar economia, sociedade e meio-ambiente?
Jacobi: É tudo uma questão de negociação, como já mencionado anteriormente. Na hora em que aqueles que tomam estas decisões por nós perceberem que estes 3 temas têm que ser conciliados, eles vão agir. No entanto, é tudo uma questão de diálogo. É tudo uma questão de negociação. Por exemplo, a Marina Silva, ex-ministra do meio-ambiente do governo Lula, era alguém que honrava seus princípios e não estava muito aberta à negociação. Por isso, acabou saindo do cargo.

 

Universia: Considerando o “marketing da sustentabilidade” praticado pelas empresas, você julga esta atitude positiva?
Jacobi: Muitas empresas têm iniciativas que vão na direção da sustentabilidade, porém, isso não quer dizer que elas, de fato, sejam. Cabe ao consumidor perceber o que é marketing mentiroso ou não. Um bom exemplo de empresa que trabalha com a sustentabilidade é a Natura.

 

Universia: Quais são as alternativas e saídas para mudar a situação problemática na qual passamos quando o assunto é economia verde?
Jacobi: Isso depende de como a sociedade se envolve com estes problemas, de como ela se mobiliza. É também uma função do governo, das empresas, das escolas, das universidades; é uma luta de todos. Também é importante não transformar tudo em catastrofismo, porque isso é irracional e não leva a soluções eficazes. É necessária uma agenda para a sustentabilidade. Mais concretamente, é preciso reduzir a poluição, os resíduos sólidos, acabar com os lixões, preservar as áreas verdes, promover a coleta seletiva, apostar na reciclagem, etc. Os jovens têm um papel fundamental nisso. Eles precisam começar a participar mais nas discussões e se preocupar menos com o consumo capitalista.

 

 



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