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Livros Fuvest 2017: o que estudar sobre Mayombe, de Pepetela

      
Fonte: Shutterstock
Esta edição do vestibular da Fuvest trará algumas mudanças em sua lista de leituras obrigatórias. O livro Sagarana, de Guimarães Rosa, retorna à prova de literatura após 10 anos sem ser cobrado. Iracema, de José de Alencar, e Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, também chegam para compor a nova relação de obras.


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No entanto, a grande novidade fica por conta de um representante da literatura angolana, que nunca tinha sido cobrado em um vestibular brasileiro. Mayombe, do escritor Pepetela, pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, é o primeiro livro pedido pela Fuvest que não pertence à literatura brasileira ou portuguesa.

Para a professora Rosana Sol, do Curso Poliedro de São Paulo, a escolha de Mayombe é uma tentativa de disseminar esse tipo de literatura no País e fazer com que os alunos tenham contato com uma cultura e realidade diferentes da sua. “Está na hora de conversarmos com os irmãos através da arte, da cultura e a literatura está incluída aí”, comenta a professora.

Contexto histórico

Mayombe se passa durante a luta pela independência de Angola, que até 1975 era colônia de Portugal. Desde o século XV, os portugueses comandavam Angola e também o Reino do Congo, que mais tarde, no século XIX, sofreu uma ruptura territorial, sendo dividido em três partes: o Congo belga, onde hoje é a República Democrática do Congo, o Congo francês, que é a República do Congo, e uma terceira região, chamada Enclave de Cabinda, um pequeno território incrustado entre os dois Congos, que faz fronteira com Angola e é onde a história de Mayombe se passa.

A partir do século XX, inicia-se um processo de tentativa de libertação de Angola, que culmina em 1950 com a luta armada e se encerra em 1975 com a independência do país e do Enclave de Cabinda, que também pertencia a Portugal. “Pepetela esteve nessa luta e realmente teve participação de militância política. Desde os anos 1960 ele fazia parte de um movimento chamado MPLA, que é o Movimento Popular de Libertação de Angola”, conta Rosana.

O autor

A professora do Poliedro conta que, durante sua participação na militância armada de Angola, o escritor Pepetela tinha a preocupação de conscientizar seus compatriotas sobre a necessidade da luta pela liberdade. “Ele escrevia artigos sobre o que estava acontecendo, comunicados, projetos da luta armada. [...]Era como um professor que queria fazer com que as pessoas entendessem o porquê da guerrilha, o porquê da guerra, o porquê de lutar pela independência ”, conta Rosana.

Pepetela começou a rascunhar Mayombe quando ainda estava na guerrilha. Para compor a história, o autor se baseou em uma operação que estava acontecendo de verdade e, a partir disso, o projeto do livro começou a ganhar corpo. “A obra foi escrita entre 1970 e 1971, ou seja, ainda não havia independência (de Angola) [...], e só foi publicada depois do fim da guerra, em 1980”, comenta.

A demora de quase 10 anos para publicação do livro foi, segundo relatos do autor, pela necessidade de amadurecer o texto para publicação. “Ele também era muito próximo de Agostinho Neto, que fazia parte do MPLA e acabou se tornando o primeiro presidente de Angola. (Antes da publicação) Pepetela até entregou o livro para Agostinho Neto, pois queria sua opinião”, conta a professora Rosana.

A obra

Mayombe é um relato heroico, mas não idealizado. Seus personagens têm defeitos e demonstram algumas atitudes que beiram a imoralidade e a corrupção. Segundo Rosana, “eles erram, acertam e escorregam”. Para a professora, esse viés da obra pode ter sido um dos motivos para a demora de sua publicação “ Talvez ele julgasse esperar um pouco mais, até que o movimento alcançasse o sucesso e a independência de Angola”, opina.

O livro fica no limiar entre a ficção e o relato histórico. “É história, pois narra uma operação que realmente aconteceu. Os personagens são fictícios, mas baseados em pessoas e tipos que realmente existiam”, descreve.

O que é Mayombe?

Na região denominada Enclave de Cabinda fica uma densa floresta chamada Mayombe, onde estava localizada a base da luta armada e o refúgio e esconderijo dos guerrilheiros durante a guerra de independência. “Se você prestar muita atenção, essa floresta é perigosa, muito escura, as árvores são altas, as copas ficam muito distantes do chão. Ao mesmo tempo que ela cria certo terror, para o guerrilheiro ela é o abrigo, pois ajuda na camuflagem”, comenta Rosana.

Segundo a professora de literatura do Poliedro, os militantes ficam tanto tempo em Mayombe que, depois de certo ponto, é como se cada um deles fosse um prolongamento da floresta. “ É como se as pernas e os pés fossem parte de troncos de árvores, que tivessem folhagens”.

Além disso, a floresta densa e perigosa se comporta como um útero, de onde os revolucionários vão fazer Angola nascer livre. Com muita fome e sem acesso a comida, os guerrilheiros recebem da mata uma espécie de amêndoa, chamada comuna, que os alimenta. É como se a própria floresta colaborasse com a guerrilha.

Como cai na prova

Para Rosana Sol, é possível que apareçam questões interdisciplinares, ligadas, principalmente, aos temas de História. “É interessante que o aluno conheça a guerra civil angolana e, anterior a isso, a guerra de independência desse país. Também podem cair questões mais abertas, de conhecimentos gerais, como a diferença entre socialismo e comunismo utópico, que é uma discussão que aparece no livro”, sugere a professora.

Rosana também aposta em perguntas que conversem com outras obras. “Acho interessante que o aluno faça uma comparação com o final de Capitães de Areia, quando Pedro Bala passa a se conscientizar sobre o socialismo [...], se politiza e ensina os meninos do trapiche. Ele tem a mesma função que teria um ou outro guerrilheiro dentro da base, que é a de conscientização”.

Uma característica importante da obra e que pode ser cobrada na prova da Fuvest 2017 é a polifonia, que acontece quando a narrativa é composta por várias vozes. “O narrador do romance é de terceira pessoa, mas dá espaço em cada capitulo para que o personagem fale. Primeiro, ele conta o fato e depois dá voz a um personagem, que irá comentar o que aconteceu, mas sob seu ponto de vista. Mais adiante, ele dará voz a outro, com uma opinião diferente. Isso mostra que não existem visões absolutas”, explica Rosana. Além disso, para ela, essa característica também contesta o tribalismo, que causava desunião em Angola.

Por último, a professora salienta a presença de mulheres fortes na trama, que não participam diretamente da luta armada, mas militam pela independência de Angola e, principalmente, pela independência feminina. “São mulheres determinadas e que enfrentam uma sociedade que não dá muito espaço para elas. Mas, mesmo assim, elas se impõem e impõem suas vontades, principalmente no aspecto sexual”, finaliza.



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