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Um brinde a elas, por elas

      
Um brinde a elas, por elas
Um brinde a elas, por elas  |  Fonte: Shutterstock
Sttela Vasco - Universia Brasil

Sttela Vasco

Sou jornalista e repórter na Universia Brasil. Apaixonada por livros, cinema, café e chocolate assino a coluna Sobre Elas, na qual falo sobre a mulher e a presença feminina nas mais diferentes áreas da sociedade

Quantas vezes você ouviu que determinada coisa “não era de mulher” ou que “mulher não entende disso”? Imagine, então, em uma das indústrias consideradas mais “masculinas” do mundo. A missão de transformá-la em algo também voltado para mulheres e, principalmente, liderado e coordenado por elas pode soar quase impossível, porém, não é. Foi nesse cenário e com o intuito de mostrar que cerveja é sim para mulheres e que esse mercado pode muito bem ser delas, que surgiu o Goose Island Sisterhood, uma confraria só de mulheres que lança, a cada três meses, cervejas batizadas em homenagem a grandes brasileiras ou a mulheres que contribuíram com a história do Brasil.

A ideia surgiu da gerente de conhecimento cervejeiro da Ambev, Beatriz Ruiz, que tinha como objetivo trazer mais mulheres para esse meio. “Eu estou trabalhando com mercado de cerveja há seis anos e desde que eu comecei é um mercado mais masculino do que feminino, é muito homem trabalhando, mas as mais incríveis do mercado são mulheres. Eu sempre quis fazer algum projeto para trazer uma mulher pra esse mercado, sempre que tem algo sobre isso o público é majoritariamente masculino e elas ficam felizes de ver uma mulher falando sobre isso”, conta.

Foi a partir de um desejo pessoal que o projeto começou a tomar forma. Beatriz foi em busca de parceiros que ajudassem a tirar a ideia do papel e experimentar. “A ideia inicial era de fazer algo do tipo ‘a gente pode falar de cerveja, a gente pode trabalhar com a cerveja.’” Em dois anos de Ambev, ela notou que confrarias femininas até existem, mas a maioria já trabalha com isso e tem toda a expertise. O plano de Beatriz era um pouco mais audacioso – mas também mais inclusivo – ela queria trazer mulheres que nunca trabalharam na indústria para criar novas cervejas.

Foi em São Paulo, local onde vive, que nasceu a confraria feminina de Beatriz. E, aos poucos, a equipe começou a se formar. “Chamei dez [mulheres]. Tem duas mestres cervejeiras, mas as outras trabalham com coisas totalmente diferentes. Arquitetas, professoras, atriz”. O objetivo era, com isso, criar algo totalmente novo e mostrar que não existe cerveja “de mulher”, mas sim cervejas. E que não é preciso ser uma expert para se apreciar ou até mesmo produzir. Com ares de piloto, a primeira começou a ser desenhada. Desde o início, uma coisa era clara: além de contar somente com mulheres na criação e na produção, aquele produto seria também uma homenagem a elas. E foi assim que surgiu a Carolina.

Feita em homenagem à escritora Carolina de Jesus, uma das principais autoras negras do Brasil, a Carolina vinha com toque de goiabada e, segundo Beatriz, foi pensada de acordo com a personalidade de sua inspiradora. Lançada em oito de março, a cerveja seria apenas um projeto especial para o Dia Internacional da Mulher, porém a repercussão foi tão grande e deu tão certo que de uma passaram a ser quatro por ano – e com planos para aumentar ainda mais.

Três meses depois, o segundo rótulo chegou. Dessa vez, a homenageada era Enedina Alves Marques, a primeira engenheira negra do Brasil. Com toques de pinhão, a cerveja também fez sucesso tanto entre homens quanto entre mulheres e fomenta mais o terreno para as próximas que virão. Outro ponto importante é que, além das cervejas em si, toda a renda é destinada a projetos que tenham alguma ligação com a figura escolhida. No caso de Carolina, o escolhido foi o coletivo de mulheres negras Di Jejê e no de Enedina o hackerspace feminista Maria Lab, um local para que mulheres troquem informações e conhecimentos sobre tecnologia.

Tanto a homenageada, quanto o projeto que receberá a verba são escolhidos por um grupo de mulheres, assim como o processo de criação da cerveja em si. “A gente chama as mulheres em um grupo no Facebook com 300 mulheres e falamos ‘vamos fazer a cerveja, vem ver como faz’”, conta Beatriz. E o retorno tem sido ainda melhor. “Tem muita mulher procurando a confraria, tem mulheres de outros estados vindo até aqui só para acompanhar. Temos uma ideia de fazer algo com outros estados, muitas mulheres estão me procurando para falar sobre como é importante”.

Apesar de mulheres consumirem 23% do volume de cerveja do país, segundo um estudo realizado pelo Painel Nacional de Domicílios da Kantar Worldpanel, lá em 2011, e de aquelas com mais de 35 anos consumirem o mesmo que os homens, ainda há uma série de estereótipos e preconceitos que fazem com que boa parte das empresas ainda enxergue esse como um produto exclusivamente masculino. Tanto que em 2015 uma campanha intitulada #WEALLLOVEBEER (todos nós amamos cerveja, em tradução livre) ganhou as redes sociais ao mostrar que, ao fazerem um pedido junto a um homem, a mulher sempre tinha sua cerveja trocada pelo drinque do companheiro, afinal, cerveja não é considerada uma “bebida feminina”.

“Eu sempre falo que o paladar das pessoas é diferente. Tanto faz se é homem ou mulher. Isso [de mulher não consumir ou consumir apenas as mais leves] é um estereótipo muito ruim porque as mulheres sofrem, os homens sofrem, uma coisa machista mesmo. Falam cerveja de mulherzinha como se tivesse um tipo de cerveja de mulher ou se como as coisas de mulher fossem ruins”.

Apesar de serem edições limitadas, a confraria abre as portas para que as grandes marcas percebam que, sim, mulheres são público-alvo e que é possível promover cervejas sem objetificar ou denegrir a imagem da mulher, pelo contrário. Além de ser um passo, é também uma forma de resgatar histórias e memórias esquecidas pela sociedade e chamar outras mulheres para um mercado que já passou da hora de trocar o “não é para mulher” para um “é de todo mundo”.

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