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“A empresa precisa pôr em prática seus fundamentos”, diz reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares sobre igualdade no ambiente corporativo

      
Para reitor, empresas precisam colocar conceito de diversidade na prática
Para reitor, empresas precisam colocar conceito de diversidade na prática  |  Fonte: Reprodução

Ajudar jovens negros a se capacitar e entrar em grandes empresas do mercado de trabalho vem sendo a missão da Faculdade Zumbi dos Palmares desde sua fundação, em novembro de 2003. Entre os cursos oferecidos, estão Administração, Direito, Pedagogia e Publicidade, além de tecnólogos em áreas como Transportes Terrestres e Gestão de Segurança Privada.

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Em uma conversa com a Universia Brasil, o reitor da Faculdade, Dr. José Vicente, fala dos desafios enfrentados por seus alunos, a inclusão dos jovens negros no mercado de trabalho – em especial, em posição de liderança – mudanças que competem às universidades e às próprias empresas e faz um balanço do que já foi alcançado. Confira:

Como a Zumbi facilita a inserção do jovem negro no mercado de trabalho?

Com dois movimentos: prepará-lo internamente, numa graduação, para que eles estejam mais qualificados para entrar nesses espaços e, junto com isso, um trabalho de associação de acesso desse público junto ao ambiente corporativo. A Zumbi tem um trabalho muito intenso com esses ambientes corporativos que disponibiliza e viabiliza o acesso desses jovens a esses locais.

Como vocês trabalham a confiança desse jovem?

Esse é um dos trabalhos feito internamente. O jovem tem inseguranças, receios e uma série de dúvidas. Nós procuramos esclarecê-los que, apesar das dificuldades, da qualidade do desafio, é um desafio que ele pode vencer. E ele precisa cumprir alguns requisitos importantes. Precisa ter um conhecimento mais ampliado da empresa e também alguns cuidados e atitudes, posturas e posicionamentos, agora para o novo desafio [ingressar em uma empresa] que tem requisitos a serem cumpridos e ele precisa saber quais são. Sabendo disso, esse jovem estará apto para entrar nessa empresa e concorrer a essa vaga.

Como a Zumbi prepara esse jovem para desafios como o preconceito?

Nós temos um conjunto de ações que se conjugam, como na ambientação da instituição que valoriza e destaca figuras importantes. Toda sala tem um patrono, ele já tem como conhecer um pouco dos grandes negros. Tem uma grade curricular que valoriza. Temos um conjunto de atividades internas que valorizam a cultura como um todo, mas principalmente nesse recorte negro. Um conjunto de conteúdos que fortalece nesse jovem a sua identidade, as dificuldades e os desafios para todos. Ele fica sabendo que não é ele, todos precisam se preparar para desafios e dopeis, consciente, avivado e estimulado ele vai mais destemido, fortalecido. Mesmo os grandes e suntuosos ambientes, que poderiam assustá-los, agora eles podem compreender que é só um mais desfio. Fortalecemos a alma e o âmago. Ele pode, é capaz, tem competências, algumas inclusive únicas, vai dar certo.

Quais têm sido os resultados efetivos da Zumbi na inserção desses jovens no mercado de trabalho?

Nós temos tido muito sucesso na efetivação desses meninos que se juntam a esse trabalho de trainees e estagiários. Tivemos, desde a nossa criação, 2500 formados, 1000 cursos de traines e estágios e quase 400 foram efetivados. São números bastante superlativos que também confirmam o sucesso do projeto, mas também a competência e a qualidade da Zumbi e o talento e o desafio desses meninos, foram números importantes que dão a dimensão da importância do nosso trabalho.

Por que ainda existe essa dificuldade das empresas em contratar?

Nós temos ainda os resquícios do que foi o nosso passado. Uma sociedade de 350 anos de escravidão, que, depois da abolição, se colocou de uma maneira indiferente diante dos resultados. Nós sempre tivemos um olhar muito desqualificado para os nossos valores, que é a diversidade, a mistura dos povos.... Nós sempre procuramos traçar uma estética desse ser brasileiro. A gente não vai ver a presença, nem a figura e nem o protagonismo do negro. Isso coloca culturalmente uma trava. Em outras medidas, esses espaços são espaços extremante qualificados, as pessoas precisam estar qualificadas e ter uma rede de relacionamentos e nesse público, principalmente, os negros não estão dentro. Quando ele [o jovem negro] chega, não tem aquela pessoa lá dentro que possa encaminhar. E, por fim, temos um ambiente corporativo que representa uma média do pensamento nacional sobre esse público. É um ambiente que reproduz a sociedade e, se a sociedade não tem negros, então, é uma coisa comum e normal não ter ali também. A gente acaba tendo esse público fora desses ambientes, por conta disso a gente precisa fazer esses esforços para que esses meninos e meninas possam ter esse acesso.

O que as empresas podem fazer para mudar esse cenário?

Eu acho que tem dois caminhos: conscientização do próprio ambiente acadêmico, até porque são nessas universidades que os gestores estão formando pessoas e futuros gestores. Tem que estar pautando em cima dessa discussão, dessa dificuldade, em cima dos desafios de superar isso. É um jogo que todos perdem, o negro, o branco, as empresas, o país. Precisamos preparar os gestores para terem uma postura de superar isso. Nós precisamos encorajar esse jovem de que é desafiador, que tem dificuldade, mas que o ambiente está aberto e disponível para todos se ele acreditar, se preparar e se qualificar. E nós precisamos sensibilizar e conscientizar o ambiente corporativo porque ele tem uma responsabilidade que lhe compte. Ele não pode tratar isso com indiferença e nem desconsiderar o seu papel no sentindo de contribuir na linha de frente, trazendo para dentro o seu ambiente a discussão. Além de sensibilizar, também introduzir esse esforço de promover o equilíbrio e com isso produzir um ambiente de trabalho melhor e uma apresentação social que dignifique a missão e os objetivos da própria empresa, de promover a felicidade e o empego para todas pessoas e não daquelas que já têm chances de acessar por uma série de motivações. A empesa precisa pôr em pratica os fundamentos que ela advoga. A pluralidade da representação faz parte de valores importantes que, no mais das vezes, ficam em bonitos discursos e nas práticas não correspondem ao desafio real.

Há alguma meta dentro da Faculdade para mudar esse cenário? Em quanto tempo e quanto seria?

Sim, há. Existe um esforço como um grupo de empresas e entidades da sociedade civil de pelo menos dobrar a presença em ao menos vinte anos. Por isso a Zumbi lançou a iniciativa empresarial par igualdade, que propõe justamente isso. Um processo de conscientização que esse público e tema não está inserido, que isso produz prejuízo e que por conta disso a gente precisa pelo menos dobrar esse público dentro desse ambiente. Dependendo dos próximos vinte anos, para um país que não tem um presidente negro em uma grande empresa e que tem uma presença quase ínfima de mulheres negras no ambiente corporativo, queremos pelo menos dobrar, acreditamos ser uma meta importante.

Tem alguém em que vocês se inspiram fora do país?

Sim, no trabalho que o reverendo Jesse Jackson, ativista dos direitos, faz com a Rainbow/PUSH. Ele trabalha nesse sentido de sensibilizar para que se possa auxiliar. Lá, então, o conjunto de empresas tem essa postura, essa atitude, estamos inspirados nessa ideia. Ele veio até no Brasil para lançar essa ideia e nós pensamos que podemos ter tanto sucesso quanto.

O senhor tem algum exemplo de aluno que alcançou muito sucesso após se formar?

Temos sim alguns casos. Temos dois jovens que decidiram participar de um concurso internacional no banco de investimentos Goldman Sachs e, por não terem medo de cara feia, eles foram bem-sucedidos e estão lá desempenhando seu trabalho. Outros dois estão no JP Morgan, cujo o processo seletivo é um arrasa quarteirão. E temos um caso muito cursos de um ex-aluno que hoje é diretor adjunto no Citibank. Ele veio pobre da Bahia, se aprimorou, foi para a Zumbi e hoje é diretor. São histórias que confirmam que você pode, que dizem que tem espaço.

A Zumbi também realiza todos os anos o Troféu Raça Negra. Qual a importância do prêmio na formação desses jovens?

O prêmio é um momento em que o jovem pode ver todas essas questões ao vivo em cores, ele pode ver isso perfilado lá ao vivo na Sala São Paulo entre os premiados. Ele vai ver esse valor da diversidade, do reconhecimento, da temática do negro em evidência e da mesma maneira ele vai conhecer dimensões sociais, quantos parceiros, quantos representantes que se juntam para fazer esse trabalho e superar esses limites. Ele vai ver de uma forma bonita o que nós chamamos de “os negros de todas a s cores” e, por fim, ele vai poder ver grandes personalidades negras das mais variadas áreas e, com isso conseguir espelhos, para se inspirar a perseguir seus objetivos. Ele vai ver que tem grandes personalidades negras que superaram seus limites e por conta disso ele não precisa se assustar ou fraquejar porque é possível, tem caminhos, tem meios. É uma aula de possibilidades desfilando na frente dele de uma forma bonita e é um primeiro teste para ele internalizar, para se movimentar nesse ambiente que vai ser uma dimensão do ambiente corporativo.



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