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A incômoda questão da igualdade salarial entre gêneros no mercado de trabalho

      
A incômoda questão da igualdade salarial entre gêneros mercado de trabalho
A incômoda questão da igualdade salarial entre gêneros mercado de trabalho  |  Fonte: Shutterstock
Sttela Vasco - Universia Brasil

Sttela Vasco

Sou jornalista e repórter na Universia Brasil. Apaixonada por livros, cinema, café e chocolate assino a coluna Sobre Elas, na qual falo sobre a mulher e a presença feminina nas mais diferentes áreas da sociedade

De todos os temas que envolvem a mulher e seu papel e posicionamento na sociedade, a igualdade no mercado de trabalho é, possivelmente, o que está presente em mais áreas. Pode-se não discutir uma série de questões que seriam tão pertinentes quanto, porém, a igualdade salarial, mesmo que de forma não explícita, sempre está ali. Talvez pela disparidade ser tão gritante, talvez por já estar mais do que na hora da questão sair do âmbito de debates e migrar para a realidade.

Muito se reclama quando a pauta vem à tona. E é comum lembrarmos dela após discursos poderosos como o de Patricia Arquette no Oscar 2015, no qual a atriz pediu por igualdade salarial dentro da indústria cinematográfica, mas, a verdade é que esse deveria ser um diálogo diário. Por que? Porque igualdade salarial não envolve apenas mulheres, mas toda uma noção de sociedade mais justa e benefícios para todos.

De acordo o estudo A Simples Verdade Sobre a Desigualdade Salarial de Gêneros, feito em 2015, nos Estados Unidos, mulheres que trabalhavam em tempo integral ganhavam 80% a menos do que os homens. E, segundo a Associação Americana de Mulheres Universitárias, a estimativa é que a diferença só desapareça daqui a 135 anos.

Em solo brasileiro, os números também são incômodos. Segundo o relatório Education at a Glace 2015, desenvolvido pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a diferença entre os salários de homens e mulheres com mesmo nível acadêmico no Brasil é uma das maiores do mundo. Aqui, as mulheres ganham 62% do que é pago aos homens.

Tudo piora quando se analisa o tempo trabalhado. Segundo a Sínteses de Indicadores Sociais (SIS 2016), referente a 2015, as mulheres brasileiras trabalham, em média, cinco horas a mais por semana do que os homens. Enquanto a jornada dos homens é, em média, de 50,5 horas, a das mulheres é de 55,1.

Os motivos? Cientistas sociais ainda buscam uma resposta conclusiva, porém, tudo gira em torno de uma questão muito simples: mesmo que de modo inconsciente, estamos “acostumados” a enxergar como normal tal situação e, dessa forma, a propagamos. De acordo com um estudo feito no Canadá em 2014, não apenas o gênero de quem recebe influencia nos números, mas o de quem paga também. Em geral, os responsáveis por isso são homens, fator que não deveria, mas que, no entanto, contribui para a discrepância na hora do pagamento.

Assim como já notado no nicho do empreendedorismo, as mulheres são menos incentivadas a acreditarem que podem pedir um salário – ou que podem chegar a um cargo de liderança. Enquanto homens têm liberdade para pedir um aumento pelo seu trabalho individual, a mulher precisa de muito mais jogo de cintura e usar o bem coletivo para abordar a questão. Ainda hoje, questões como confiança e autoestima são usadas contra a mulher no ambiente corporativo.

É aí que retornamos ao que se perde em uma situação tão injusta. É claro que paixão em uma profissão é importante, mas reconhecimento é fundamental. E, na nossa sociedade, reconhecimento e um salário melhor andam lado a lado. Porém, não se trata apenas de reconhecer no sentido financeiro, mas na mensagem que a desigualdade passa. Ao pagar-se menos para mulheres, estamos dizendo que elas são menos importantes ou o seu trabalho é inferior. Como incentivar a participação feminina se elas já entram se deparando com uma mensagem assim?

Quantas profissionais já não perdermos por simplesmente, ao mostrarmos como será a recepção no mercado de trabalho, deixamos de incentivá-las? Quantas não cansaram e desistiram ou simplesmente se conformaram? Não se trata de uma “guerra de sexos”, mas de justiça e igualdade. Trata-se de pagar a um profissional pelo seu desempenho e pela qualidade de seu trabalho e não por seu gênero. Ao manter a diferença salarial entre homens e mulheres, não prejudicamos somente a elas, mas sim a todos. Gostamos de dizer que “evoluímos muito”. Mas que evolução é essa que só envolve alguns?



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