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Refúgio e recomeço

      
Refúgio e recomeço
Refúgio e recomeço  |  Fonte: Shutterstock
Sttela Vasco - Universia Brasil

Sttela Vasco

Sou jornalista e repórter na Universia Brasil. Apaixonada por livros, cinema, café e chocolate assino a coluna Sobre Elas, na qual falo sobre a mulher e a presença feminina nas mais diferentes áreas da sociedade

Foi lendo sobre um programa da ONU Mulher que tem como objetivo conscientizar a sociedade sobre a possibilidade de se contratar refugiados que eu comecei a pensar no tema da coluna desta quarta. Como vivem e quais oportunidades têm as mulheres refugiadas que vêm ao Brasil? Se deixar sua casa, sua família e a sua vida para trás para viver em um país completamente diferente do seu, com uma cultura e idioma que você não conhece já é difícil, quão mais difícil não deve ser fazer tudo isso sem ter a oportunidade de reconstruir a sua vida? Sem ter a oportunidade de se realocar no mercado de trabalho? Quais são as chances dadas a essas mulheres?

Refletir sobre a vida dessas mulheres quando elas chegam aqui é mais do que uma questão humanitária, é uma realidade. E uma realidade crescente que precisa ser compreendida e amparada. Apenas para se ter uma noção, somente em São Paulo, o número de mulheres entre os refugiados vem aumentando gradativamente. Segundo a Cáritas Brasileira, organização da Igreja Católica que assiste refugiados, das 3.234 pessoas atendidas em 2016, 36% eram mulheres. Mais do que o dobro do registrado em 2013 pela entidade. Em 2015, elas representavam 27% desse público. No Rio de Janeiro, 48% dos refugiados são mulheres. Mulheres que fazem parte da sociedade, estão aqui e, ao contrário do que se imagina, em muitos dos casos, possuem qualificação. São artistas, professoras, jornalistas cabelereiras, advogadas. Logo, o que se pode fazer por elas? Como ajudá-las?

Pensando nessa questão e visando unir dois temas pertinentes – a inserção de refugiadas no mercado de trabalho e o empreendedorismo feminino – a ISAE/FGV, juntamente a Rede Brasil do Pacto Global, da ACNUR, agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados, e à ONU Mulher desenvolveram o programa Empoderando Refugiadas. Criada em 2015, a iniciativa dá aulas de coaching gratuitas para essas mulheres com oficinas e palestras durante quatro meses. Além de empreendedorismo, o programa conta com workshops sobre saúde, cultura brasileira, direitos, bem-estar e espírito empreendedor. Os números ainda são pequenos frente ao de refugiadas presentes no Brasil, porém, traz esperança. Em sua primeira edição, o Empoderando Refugiadas capacitou 33 mulheres.

O idioma é um dos pontos que atrapalha a reinserção delas, mas não o único. Quando possuem capacitação, as refugiadas encontram dificuldade em validar o diploma e obter o Registro Nacional de Estrangeiro (RNE). A baixa difusão do conceito de refugiado dentro das empresas também é um impeditivo. Muitas vezes, a falta de conhecimento e o pouco investimento nessa mão de obra faz com que ambas as partes percam oportunidades. Sem expectativa de serem contratadas, mas com a necessidade de trabalhar, algumas começam a investir em um negócio próprio. Na maioria dos casos, a venda de comidas, objetos ou peças de vestuário de sua cultura.

Esse foi o caso de Basma El Habib, que abriu um negócio de comida árabe em São Paulo junto ao marido, um jornalista sírio, também refugiado, que conheceu no Brasil. Natural do Marrocos, ela trabalhava como chef em hotéis e restaurantes de Casablanca. Após tentar a vida na Europa, Basma desistiu e, em uma visita a irmã, que mora por aqui, conheceu o marido e decidiu ficar. Juntos, abriram o Basma – Cozinha e cultura do Oriente Médio, um food truck que une os sabores da Síria e do Marrocos. El Habi não é a única. Apesar de não chegarem a criar um restaurante ou um food truck, muitas mulheres vendem quitutes de seus países para entregar à domicílio ou como encomenda. É uma maneira de entrar no mercado, manter sua cultura viva e contar suas histórias.

Algumas dessas histórias são contadas pelo projeto Vidas Refugiadas, criado pelo fotógrafo Victor Moriyama e pela advogada Gabriela Cunha Ferraz em parceria com o ACNUR e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Nele, oito mulheres de diferentes nações falam sobre os motivos que as levaram a deixar seus países, suas trajetórias de vida, a vinda ao Brasil e as lutas de cada uma. O objetivo é dar visibilidade e voz a essas mulheres, fazendo com que as pessoas, ao conhecer suas histórias, repensem alguns preconceitos.

A situação das mulheres refugiadas, em geral, não é fácil e nem simples. Na jornada em busca de uma nova vida, traumas, preconceitos e perigos estão pelo caminho. Se adaptar-se a uma nova realidade por si é difícil, precisar fazer isso em situações adversas é ainda mais. Daí a necessidade de iniciativas como o Empoderando Refugiadas ou de empresas que aceitam dar uma chance a elas. Há uma infinitude de trocas e aprendizados que podem ser tirados de uma oportunidade dada. Quantas coisas cada uma dessas mulheres não pode ensinar, contribuir e inovar? É uma questão de enxergar possibilidades. E permitir que algumas portas se abram, literalmente.

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