Wednesday :: 22 / 10 / 2014

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Projeto da UFSC registra memória do povo Kaingáng


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O Labhin-UFSC (Laboratório de História Indígena do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina) está desenvolvendo um projeto em parceria com alunos e professores de uma escola indígena Kaingáng, da Terra Indígena de Xapecó, no oeste catarinense. A proposta do "Kaingáng na conquista de cidadania" é valorizar a cultura desse povo através da memória dos idosos da comunidade.

A professora Ana Lúcia Vulfe Notzold, etno-historiadora responsável pelo projeto e coordenadora do Labhin, define o trabalho como "a união da memória com a história". Ela e a bolsista Ninarosa da Silva Manfroi são responsáveis pela "história". Elas pesquisam documentos e livros que relatam a vida, a cultura e as tradições do povo Kaingáng. Já os alunos e professores da Escola Indígena de Educação Básica Cacique Vanhkre, que participa do projeto, são responsáveis pela "memória". Eles recebem a visita de pajés e caciques idosos que contam em sala de aula como era a cultura kaingáng sem influência do contato com os não-índios. Os alunos, de todas as séries, transformam esses relatos em desenhos e textos e mandam para o Labhin.

O objetivo é reunir o que é produzido pelos alunos com a pesquisa histórica e publicar um material didático que sirva como instrumento de aprendizado e valorização da cultura Kaingáng. Entre os temas trabalhados estão o casamento, a escolha dos nomes, o artesanato, o sepultamento, a alimentação, a divisão de trabalho e os tipos de casa.

O primeiro contato da professora Ana Lúcia com as lideranças da comunidade Kaingáng foi em abril de 1999. Além da autorização das lideranças, é preciso a permissão da Funai para entrar no local. Na ocasião, o cacique Nilso Belino-Machado pediu que o laboratório sistematizasse a história Kaingáng. "Os velhos estão morrendo e a história junto com eles", foi o que o cacique explicou à professora.

A partir daí, Ana Lúcia passou a fazer visitas à aldeia. Nos dias em que está lá, sua moradia é a própria escola, onde fica em contato direto com a comunidade indígena. Leva gravador e máquina fotográfica para registrar os depoimentos e poder fazer a transcrição fiel desses relatos. Tira fotos na aldeia que mostram a realidade em que a tribo vive hoje. Comparando-se os desenhos dos alunos e as fotos, percebe-se bem a diferença entre a memória e a realidade. Enquanto os desenhos mostram casas de taquara e outros materiais, as fotos retratam casebres de madeira que mais parecem fazer parte de uma zona rural pobre, e não de uma aldeia indígena.

A intenção é que sejam publicadas oito cartilhas para serem distribuídas em escolas, principalmente nas comunidades próximas à Terra Indígena, e um livro. O projeto foi aprovado pelo Pró-Extensão e com a verba de R$ 4 mil a professora Ana Lúcia diz que é possível publicar as duas primeiras cartilhas, uma sobre o nascimento, a escolha dos nomes e o casamento, e a outra sobre a pré-história e os primeiros contatos. Essas duas seriam vendidas e se dessem certo já renderiam dinheiro para viabilizar as próximas. O dinheiro das vendas seria dividido igualmente entre o laboratório, para a publicação, e a escola.

Outra maneira que o Labhin encontrou para arrecadar dinheiro para a escola foi a venda do artesanato feito pelos alunos, como colares, arco e flecha, cocares, instrumentos usados nos rituais de danças, entre outros. Além disso, o Laboratório faz uma campanha com camisetas que trazem o slogan "Kaingáng na luta pelo direito de sobrevivência". A parte de trás da camiseta traz o logotipo do laboratório (a imagem de uma índia grávida representando a vida) com a frase "Adote essa idéia". Todo o dinheiro adquirido com a venda das camisetas e do artesanato vai para a APP (Associação de Pais e Professores) da escola.

O Labhin é responsável também por viabilizar o primeiro curso de extensão de enfermagem para indígenas em uma universidade federal brasileira. As lideranças falaram para Ana Lúcia das dificuldades de contratar enfermeiros e médicos para a aldeia. Ela fez a intermediação entre a Pró-Reitoria de Ensino de Graduação e o Curso de Enfermagem da UFSC e esses órgãos juntos possibilitaram a abertura do curso. Os Kaingáng aprendem a enfermagem tradicional e a indígena. Uma parte das aulas acontece na UFSC e outra na própria aldeia, quando professores de Saúde Pública e de Enfermagem vão até lá. Serão formados como técnicos em enfermagem dez índios.

O trabalho do Laboratório não pára por aí. A professora e a bolsista pretendem ainda lançar um CD com músicas kaingáng, quebra-cabeça para as escolas com imagens da cultura indígena e agendas e marcadores de livro com os desenhos feitos pelos alunos. O nome do projeto, "Kaingáng na conquista de cidadania", é explicado pela professora: "Cidadania no sentido de que as pessoas reconheçam eles como um povo diferenciado, respeitando essas diferenças. Eles sofrem bastante preconceito. Muitas vezes não são vistos nem mesmo como índios, mas como bugres ou pobres".

Apesar da dificuldade em realizar o maior dos projetos, que é a publicação do livro, elas não se importam em esperar. Nem os índios. A bolsista Ninarosa conta que eles são muito pacientes, até mesmo mais do que elas. "Eles dizem que já tiveram que esperar 500 anos para serem reconhecidos como povo. Como eles vêm as coisas caminhando, progredindo, não se importam em esperar. Eles confiam no nosso trabalho".

Mais informações com a professora Ana Lúcia pelo email anotzold@cfh.ufsc.br, com a bolsista Ninarosa pelo email nmsmanfroi@yahoo.com.br ou pelo telefone 331-9642.

Fonte: UFSC







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