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Noticia

Auto-estima do aluno depende da linguagem que o professor utiliza com ele no dia-a-dia

Tese de mestrado de Denise Conceição das Graças Ziviani


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Autora: Denise Conceição das Graças Ziviani, 38 anos, graduada em Pedagogia pela UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais), defendeu no dia 28 de março de 2003, no Laboratório de Psicologia Social, da Faculdade de Psicologia da UFMG, a dissertação de mestrado sobre a linguagem utilizada por professoras de educação infantil e alfabetização com os alunos negros e a influência desta sobre a auto-estima das crianças. Ela é alfabetizadora da rede municipal de ensino da prefeitura de Belo Horizonte e professora da disciplina de Prática de Ensino, no curso de Pedagogia da Unipac (Universidade Presidente Antonio Carlos).ÿ

Objetivo:
Por meio da vivência na escola, a pesquisadora queria construir, junto às professoras, ferramentas de ensino para combater o racismo na alfabetização e na educação infantil e melhorar a auto-estima das crianças quanto à questão da cor da pele.ÿ

"O trabalho com crianças na educação infantil é trabalhar a linguagem oral, a lateralidade e prepará-los para receber uma formação que propiciará uma alfabetização mais rápida. Por isso é importante que os professores saiam do estigma, porque a forma como lidam com as crianças vai definir o referencial de ser como é, negra ou branca e, conseqüentemente afetar ou não essa criança, prejudicando ou ajudando a aprendizagem da escrita", diz a pesquisadora.ÿ

Tempo de elaboração: 14 meses (entre pesquisa de campo e elaboração, de novembro de 2000 a janeiro de 2002).

Processo de elaboração: Pelo conhecimento de estudos publicados anteriormente por outros pesquisadores, Denise já partiu da conclusão de que as crianças negras eram tratadas com certa distância por parte dos professores na educação infantil e alfabetização. "Eu parti do princípio de que o racismo existe, então o que podemos fazer para ajudar a mudar essa prática pedagógica?", indaga a professora. Assim, a intenção desde o início, segundo a pesquisadora, era trabalhar em campo, desenvolvendo material para ser usado em sala de aula com crianças.ÿ

Foi convidada então por uma escola que se localizava numa favela, num dos aglomerados mais violentos de Belo Horizonte. Através de visita três vezes por semana à escola - que depois ampliou-se para cinco vezes - ela ganhou a colaboração de 14 professoras (do total de 18 do período) na discussão e elaboração de materiais e estratégias para serem desenvolvidas em sala de aula visando a valorização da raça negra.ÿ

Durante o período de estudo, ela e as professoras desenvolveram atividades lúdicas com os alunos e oficinas, sendo que uma delas com a participação dos pais. Além disso, durante o período, fez questionários e reuniões com os educadores.ÿ

Aplicação prática: Denise desenvolveu, junto às professoras da escola, materiais como textos para orientação de professores e histórias de literatura infantil com os alunos como personagens. "O anexo vem para construir alternativas. Nele explico como foram feitas as oficinas com bichos de estimação e flores, por exemplo. Como as histórias foram contadas, tudo está lá", conta Denise.ÿ

O que pretende fazer agora:
"Essa pesquisa teve começo e fim. Eu, claro, dando aulas, estou aplicando a experiência em sala", diz Denise.

A TESE:

SUMáRIO
Leia aqui o resumo da tese em
Português

O contato com a escola foi feito quando Denise trabalhava na Secretaria de Educação de Belo Horizonte. Na época, uma equipe do órgão foi chamada para resolver o problema que a escola sofria de depredação por parte de ex-alunos. A pesquisadora se ofereceu para trabalhar o problema da auto-estima entre as crianças, que era apontado pelas professoras como sendo o foco inicial para a posterior formação das gangues.ÿ

Dos 18 professores do período escolhido, que trabalhavam com crianças de quatro a nove anos, 14 aceitaram participar da pesquisa. O trabalho foi desenvolvido em 10 salas. A proposta de fazer uma parceria para observar a prática escolar e interferir a fim de mudar as questões atreladas ao preconceito e discriminação foi bem aceita por esse grupo.ÿ

A primeira etapa foi de observação, estando em campo três vezes por semana. "Eu ia para a escola e só assistia aulas, brincava com as crianças no recreio, observava, participava de reuniões pedagógicas. Quando as professoras sentiram confiança, me chamaram para entrar e participar das aulas", conta Denise.ÿ

Depois de oito meses na escola, Denise aplicou um questionário para as professoras, tratando não só de questões pedagógicas, mas também pessoais. "Ao perguntar sobre a cor, duas se reconheceram como negras, nove eram brancas e três se diziam morenas", conta.ÿ

A partir daí foram feitos dois trabalhos: com as professoras e com os alunos. Com o primeiro grupo, além dos questionários, eram elaboradas propostas de atividades a fazer com os alunos em grupos cooperativos. "Elaborando os projetos, elas também eram sensibilizadas", afirma Denise.ÿ

Com os alunos, foram feitas oficinas, utilizando pintinhos e coelhos. "Os bichos amarelos, brancos, pretos, ajudavam a mostrar que as diferenças são só fenotípicas", conta Denise. Ela elaborava perguntas aos alunos, brincando. "Eu perguntava quem era amarelinho como o pintinho? Alguns levantavam a mão. Depois eu indagava quem se parecia com o pintinho pretinho e os alunos negros começaram a levantar a mão também, o que não acontecia antes", diz. "Trabalhando com os alunos, acabava também atingindo as professoras", conta a pesquisadora.

No decorrer da pesquisa, o grau de participação de Denise cresceu e ela passou a ir à escola todos os dias letivos. "Aumentei os dias porque houve demanda. Não imaginava que as professoras de crianças de quatro a seis anos fossem querer participar e foram as que mais me ofereceram dados para estar analisando. E como a psicologia entende que a participação é democrática e, se a pessoa quer participar e está se dispondo à mudança, não pode ser expulsa do grupo", explica.ÿ

O questionamento das crianças

Denise percebeu, antes de começar o trabalho, como era forte a questão do apelido entre os colegas. Os nomes sempre eram pejorativos quando direcionados aos alunos negros e a associação da cor preta como algo negativo. "Um dia fui contar uma história sobre uma galinha vinda de Angola e um menino falou pra mim "essa galinha é do capeta". Eu perguntei o porquê e ele disse que é porque ela tem olhos vermelhos e o corpo todo preto e tudo o que é preto é do capeta", conta.ÿ

Na educação infantil, um garoto, de 4 anos, negro, tinha medo de se olhar no espelho e se recusava a fazê-lo. Depois de ouvir histórias sobre personagens negros, nas quais estes eram apresentados como figuras positivas, com beleza, o aluno passou a se identificar como negro e, aos poucos, segundo a pesquisadora, perdeu o medo de se olhar.ÿ

"As crianças viam as figuras do livro escolar que sempre são rosas e perguntavam se realmente existe gente cor-de-rosa. Explicamos que não, e oferecemos livros com figuras para eles pintarem e assim tinham a opção de escolher a cor da pele", conta.ÿ

No fim da atividade, foi aplicado novo questionário com os professores e a pesquisadora já notou diferença. "Desta vez, mais duas professoras assumiram ser negras, o que não havia acontecido anteriormente", conta.ÿ

Conclusão: A ação da pesquisa, segundo Denise, conseguiu fazer com que as professoras percebessem que a linguagem que utilizam com as crianças deve encorajar e é um investimento para que o aluno tenha a auto-estima fortalecida e saber que é capaz de aprender. "O pensamento de muitos professores em favela é de que não adianta ensinar, porque o aluno não vai mesmo aprender. De fato, no final do ano, a profecia auto-realizadora é cumprida e eles mostram que não aprenderam mesmo. E isso porque os professores não ensinaram. Elas perceberam que a linguagem que utilizam todos os dias com os meninos é importante, é definidora e legitima de fato a aprendizagem ou não da criança. Portanto essa linguagem tem que mudar e, junto às ações, devem elogiar os alunos, investir na criança".







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