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Sem religião, mas com muita festa

      

Por Renata Costa

Crer em Deus é uma questão de fé, mas também pode ser de política. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que o diga. Ele se declarou ateu em um debate que antecedeu as eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985 e perdeu para outro ex-presidente, Jânio Quadros. Anos depois, em seu período como presidente, evitava falar de sua (falta de) fé e chegou a negar ter sido ateu um dia, afirmando ser católico apostólico romano.

Apesar de serem 12.492.403 milhões de brasileiros, segundo Censo Demográfico do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2000, os "sem religião" ainda têm uma aparição tímida, especialmente quando pessoas públicas, pois a fé ou a falta dela pode ser usada como um ponto negativo em um país de crenças múltiplas.

O grupo dos "sem religião", no entanto, inclui diferentes declarações. Estão aí os ateus (que não acreditam em Deus em nenhuma forma), os agnósticos (crêem que não há evidências nem da existência e nem da inexistência de Deus, portanto esperam provas), gnósticos (místicos) e outros que podem até acreditar em Deus, mas que não se sentem à vontade em nenhuma definição de religião.

Ao contrário deste último grupo que mantém a fé em um ser superior, mas não quer estar em nenhuma igreja ou grupo, o médico e professor do Departamento de Genética da UFRGS, Renato Zamora Flores (foto ao lado), conheceu algumas religiões, participou de grupos de jovens e, quando percebeu que aquilo não era o que queria, virou ateu radical, e afirma que religião faz mal. "Faz mal, porque ilude. As pessoas ficam esperando ajuda de alguma coisa ao invés de agirem por elas mesmas", afirma.

Filho de um dono de centro espírita e de uma médium, Renato conta que em casa o pai nunca tentou conduzir os filhos a uma religião, para que cada um deles pudesse escolher seu próprio caminho. "Eu fui conhecer umas três ou quatro religiões e fiquei muito decepcionado com a qualidade das respostas. Nesse meio tempo comecei a estagiar no departamento de genética e lá recebi um conjunto muito eficiente de explicações sobre a natureza das coisas. Como por exemplo, as teorias darwinianas", conta.

Agora, quando o assunto é Natal, Renato se empolga. "Eu comemoro com minha mulher, meus gatos e meus cachorros. Só porque eu sou ateu vou perder a festa?", brinca o professor. Embora a celebração tenha significado religioso, ele afirma que acha a data uma ótima oportunidade para as pessoas reunirem a família e celebrarem juntas. "Acho bonito todos se abraçarem e comemorarem. O fato das pessoas serem boas e de bom coração não tem nada a ver com religião. Por isso acho o Natal uma festinha legal", diz.

Também sem se prender ao significado cristão da data, o gnóstico Leonardo Dias, jornalista e pesquisador sobre Gnose, comemora o Natal com a família de origem católica. Foi ainda na adolescência que surgiu o interesse de Leonardo em conhecer mais sobre as diferentes crenças e a questionar alguns pontos que aprendia na aula de Religião na escola. "Havia um salto muito grande em anos na Bíblia sobre a vida de Jesus. Isto me intrigava e crescia meu interesse em estudar mais sobre o que estava oculto", diz.

Foi desta maneira que Leonardo começou a estudar e hoje se define como gnóstico. "Gnóstico é uma pessoa que estuda as religiões, que gosta de ler sobre o assunto. A palavra gnose vem da mesma raiz grega que originou o verbo ïconhecer` em inglês, ou seja, é um termo que define algo muito amplo", explica Leonardo. Segundo ele, entre os gnósticos há pessoas oriundas de várias religiões.

Um dos grupos que estuda a gnose é a ordem RosaCruz, da qual Leonardo faz parte. "Temos a idéia de um deus único, uma consciência cósmica. Definimos como o ïdeus do seu coração` ", explica. Além dos estudos dos mitos, ele diz que os membros da ordem participam de rituais em busca do auto-conhecimento, de melhorar a memória e a intuição e também meditar.

Mesmo não crendo em Jesus como o Salvador da humanidade - "a história de Jesus é variável de acordo com a versão de cada livro das diferentes religiões", segundo ele - Leonardo tem ainda mais um motivo para comemorar o Natal. "Para mim a festa faz muito sentido, porque minha mãe nasceu no dia 25 de dezembro. Então comemoramos como qualquer família católica brasileira e com um motivo a mais", diz.

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