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Fala reitor: "educação padronizada é coisa do passado", diz Reitor da UNIC

      
Fonte: Reprodução
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Autor do livro Educação 3.0, o Reitor da Universidade de Cuiabá (UNIC),Rui Fava, conversou com a coluna Fala Reitor, do portal da Universia Brasil, sobre o futuro da educação. Para ele, o professor deve estar ciente que seu grande desafio é ensinar os conteúdos como os jovens estão acostumados a aprender. “Uma educação padronizada, ou seja, igual para todos é coisa do passado”, disse. Confira a entrevista:


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Qual é o potencial educativo na internet?

Cada vez mais, as mídias passivas e tradicionais serão substituídas por mídias participativas e interativas. A convergência mediática forçará uma transformação cultural à medida que os estudantes sejam incentivados a procurar novas informações, fazer conexões para buscar conteúdos esparsos, soltos, dispersos. Cada vez mais a expressão cultura participativa contrasta com noções antigas de passividade, apatia, inércia dos estudantes. Em vez de discorrer sobre docentes transmissores de conteúdos como ocupantes separados dos discentes receptores, podemos agora considerá-los participantes, interagindo de acordo com um novo conjunto de regras que nenhum de nós educadores entende por completo.



O futuro da educação, sem dúvida, passa pela internet. No entanto, você acredita que será determinada por ela? Sim ou não? Por quê?

Vivemos um momento célere em que a educação virtual tem um peso cada vez mais significativo na educação real. A primeira não apenas repercute na segunda; ela influencia. Aliás, não somente influencia; ela também a molda. Mais do que nunca, como educadores, precisamos desenvolver, monitorar, transformar, inovar, substituir nossos modelos mentais, arquétipos, hábitos, cultura, buscar o desconforto produtivo, flexibilizar, aceitar, adaptar, o que não exprime apenas aceitar, mas ajudar a transformar a educação e, sem dúvida, a Internet é uma grande alinhada nessa empreitada.



Como utilizar as redes sociais em benefício da educação?

Os estudantes 3.0 estão 7 dias por semana, 24 horas por dia conectados. Estamos vivenciando o cibridismo (cyber + híbrido – o corpo biológico integrado às plataformas digitais). Com os tablets e smartphones, torna-se cada vez mais complicado assentir quando um jovem está online ou não. Os educadores estão perplexos com a realidade cíbrida, uma conjuntura em que os estudantes estão permanentemente enviando e recebendo notícias, namorando, compartilhando, interagindo, relacionando-se pelas redes sociais. Na educação, uma perspectiva de rede proporciona novos e poderosos insights para a melhoria das atividades de gestão e dos processos de ensino-aprendizagem, bem como para a necessária inovação. A utilização das redes sociais internas e externas poderá ser uma grande aliada para o sucesso das lideranças institucionais e para o sucesso do processo de ensino e aprendizagem de qualquer instituição de ensino.



Na Educação 3.0, o Quociente de Inteligência (QI) importa?

Com o sucesso da matemática e da física no século XVIII e XIX, o pensamento lógico-matemático passou a servir de modelo para todas as ciências. A educação se concentrou quase que exclusivamente em ensinar o bom uso da razão, consoante aos padrões já estabelecidos pela lógica e pela matemática. Os indicadores de inteligência consideram a razão o patrimônio maior, portanto, desenvolver a inteligência significa, quase que exclusivamente, desenvolver o pensar. Entretanto, o mundo hodierno, necessita muito mais que indivíduos com QI alto. Precisa de pessoas que tenham inteligência emocional, que dominem suas sensações, sentimentos, emoções; que tenham empatia, capacidade de compreender melhor o comportamento em determinadas circunstâncias e a forma como o outro toma as decisões. Requer indivíduos com inteligência volitiva, que significa agir, no sentido de fazer, transformar, querer, praticar, aplicar. Na Educação 3.0, o objetivo é desenvolver a tríade pensar, sentir e agir, ou seja desenvolver o QI, o QE e o QV.



Em uma cena do filme “Lawrence da Arábia”, o herói e seu companheiro estão sentados em uma duna do deserto e veem ao longe um ponto preto que se move, sem saber bem do que se trata. Sem saber o que fazer, os dois esperam para ver o que seria esse objeto em movimento. Gradualmente, o ponto se transforma em um animal em movimento, em um camelo e, finalmente, em um camelo com um homem cavalgando. Quando menos esperam, o homem saca uma arma e mata o companheiro de Lawrence. Ficar parado esperando para ver qual a possível ameaça foi o erro. Qualquer movimento que fizessem seria melhor. Fazendo um paralelo com a Educação, qual é o ponto preto que se move? E como agir?

Adaptabilidade e flexibilidade são as atitudes chaves na Educação 3.0. Um arquétipo importante é que não basta mais o professor ter uma boa didática, um relacionamento adequado. É essencial que saiba comunicar-se utilizando todas as formas de interlocução: oral, gestual, virtual, digital, analógica. Que utilize uma linguagem atualizada de acordo com as exigências das gerações Y e Z. Significa que o docente, similar ao camaleão, precisa conhecer, adaptar-se às características, ao comportamento e à forma de aprendizagem de cada grupo de estudantes sob sua responsabilidade. Significa que o professor deve estar ciente de que educação padronizada e igual para todos é coisa do passado. Talvez seja esse o ponto preto que se move e ameace assustadoramente a educação contemporânea.



Quais são as ameaças na educação para as próximas décadas?

Não sei se trata-se de uma ameaça, mas a educação, cada vez mais, terá de trabalhar com outros princípios, como o da virtualidade, em que as relações com as pessoas, com os objetos, com o ensino e a aprendizagem se dissociam cada vez mais da presença física em que os limites de espaço e tempo servem como subterfúgios e respondem apenas como antiquados rituais a velhas metodologias de ensino sem sentido, contraproducentes, em relação às novas exigências de autonomia, flexibilidade, aprendizagem, criatividade.



Quais são os desafios na educação para as próximas décadas?

O grande desafio é preparar os estudantes para empregos que ainda não existem usando tecnologias que não foram inventadas para resolver problemas que ainda não sabemos que serão problemas, ou seja, habilitar os alunos para um futuro que os próprios educadores não conseguem bosquejar, especificar, descrever.



A inovação é imprescindível na educação?

A inovação é fator de sucesso de qualquer organização, porém, para as escolas, é questão de perenidade, captação, fidelização, retenção de alunos. Sabe-se que a inovação depende de esforços colaborativos, entretanto, à medida que a necessidade de colaboração aumenta, as demandas sobre o escasso tempo disponibilizado pelos educadores dispara. A alternativa não envolve mais e mais camadas de uma estrutura matricial, mas uma visão mais sutil e estratégica de colaboração por parte dos educadores, concentrando-se tanto nos componentes básicos de rede sociais internas que fornecerão valor como nas variáveis do projeto organizacional que darão suporte a essas redes.



Inovar não é uma tarefa fácil. Na educação é ainda mais difícil? Por quê?

Rotineiramente, quando pensamos em inovação, vem-nos a imagem de um indivíduo brilhante, ou um grupo isolado, criando a próxima lâmpada genial. A história, porém, nos relata que as grandes inovações são combinações de ideias ou tecnologias preexistentes cuja integração ocorre por meio das redes sociais. Embora essas redes geralmente se formem por acaso, é cada vez mais importante que gestores e educadores as cultivem de maneira planejada e direcionada, de modo que a colaboração exerça papel fundamental para o sucesso de qualquer empreitada.



A ameaça das mudanças sempre existe. Não inovar na educação é arriscado?

As possibilidades que a tecnologia oferece e as consequentes pressões da competição que o mercado impõe a todos os profissionais levaram ao que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman definiu como compressão do tempo e do espaço, ou seja, ocupamos espaços cada vez mais amplos, de modo cada vez mais intenso, com o recurso de tempo cada vez mais escasso. Diante disso, as vantagens competitivas se modificam rapidamente e o ciclo de vida de qualquer estratégia passa a ser muito curto, surgindo, assim, novos enfoques, novas necessidades de inovação. Estes enfoques refletem-se na economia, no mercado e na sociedade; novos pontos fortes tornam-se críticos, provocando, simultaneamente, a abertura de janelas e oportunidades a serem aproveitadas.



A internet promove uma individualização da educação?

A incidência cada vez mais pregnante das realidades tecnológicas sobre todos os aspectos nos processos de ensino, permite, cada vez mais, não somente disponibilizar materiais didáticos e objetos de aprendizagem online melhores, mais lúdicos e interativos, como fazê-los de maneira que seja possível coletar grandes quantidades de dados e informações dos estudantes com esses materiais didáticos. A título de exemplo do que se pode fazer com todos esses dados, para realizar uma busca em 3 milhões de computadores simultaneamente, o site do Google demora menos de meio segundo. A esse tempo marcado pela profusão, afluência, abundância de informação, derivado de centenas de milhares de fontes diferentes, deu-se o nome de big data. É evidente que a educação não pode e não deve deixar de utilizar essa tecnologia que combina ciência da computação, na construção de algoritmos sofisticados, ciências humanas, cognitivas e comportamentais, para melhoria e individualização do processo de ensino e aprendizagem. Isso já é possível, por meio de plataformas denominadas Adaptive Learning. Se essa individualização vai na contramão da Educação 3.0? Diria que é exatamente o contrário, cada vez mais o processo de ensino se utilizará da plataforma de Adaptive Learning buscando a individualização da aprendizagem e esta é a essência da Educação 3.0.



Com a internet vemos uma crescente comercialização da educação...

Na sociedade pós-industrial, a família, a mídia, o cotidiano das escolas não são mais os mesmos. A educação que, por muito tempo teve cunho quase unicamente social, passou a ser vista também sob uma perspectiva empresarial, surgindo dois mundos importantes, distintos, complexos, contraditórios, antagônicos e, consequentemente, paradoxais. O primeiro mundo é o mundo corporativo onde a terminologia gira em trono de custos, despesas, margens de contribuição, receita líquida, ebtida, mercado de capitais. Um mundo que entende que gestão é sinônimo de planilha de Excel, de Number. Nesse mundo, as instituições de ensino, que antes funcionavam como um contraponto à cultura comercial, renderam-se aos patrocinadores corporativos, aos quais os educadores não têm vontade de se opor nem têm fundos independentes para isso. O segundo é o mundo acadêmico, mais coadunado ao Power Point, ao Keynote, ao ensino de high performance, da aprendizagem eficaz. Esse mundo vai muito além da matriz curricular e da otimização de disciplinas. As decisões são determinadas pela busca de um ensino responsável, hodierno, acessível, de qualidade, que é sempre um referencial externo e comparativo. Na gestão desses dois mundos está o grande paradoxo do posicionamento acadêmico em qualquer instituição de ensino privada: low cost and high performance. Buscar o equilíbrio desses dois mundos, certamente é o maior desafio dos gestores e educadores na Educação 3.0.



Toda a mudança na educação gerada pela internet vem acompanha de uma variedade de consequências indesejadas. Concorda? Por quê?

É claro que as novas tecnologias na educação não são uma garantia de melhoria da experiência de aprendizagem. Há quem diga que as quinquilharias eletrônicas prejudicam a qualidade. Entretanto, com tantas possibilidades, com tantos paradigmas novos, seria inevitável que a metamorfose chegasse à educação das gerações Y e Z. Existe um enorme paradoxo para os educadores, pois o lugar onde as maiores transformações educacionais estão acontecendo não é na escola, e sim após a escola. Depois da escola ninguém diz para os jovens o que eles devem fazer para aprender. Eles buscam seus interesses e paixões, tornando-se experts no processo. Isso é, ao mesmo tempo, bom e ruim, pois significa que a evolução na escola é lenta e não está acompanhando as novas necessidades de um mundo digitalizado, globalizado, interativo e participativo.

 



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