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Clonagem: implicações jurídicas, éticas, religiosas e comportamentais

      
16h Painel: "Implicações éticas da clonagem"
Expositores:
Prof. Dr. Crodowaldo Pavan - ABRADIC - ICB/USP (coordenação da mesa)
Prof¦ Dra. Mayana Zatz - IB/USP
Prof¦ Dra. Vera C. A. Ferreira - Instituto Biológico
Prof. Dr. Dalmo de Abreu Dallari - FD/USP
Alun Anderson - Revista New Scientist
Ricardo Bonalume - Jornalista Free-Lancer da Nature no Brasil e Folha de S.Paulo

Por Monica Miglio

Conflitos de opinião, polêmica e um acirrado debate no final. Esse foi o tom que permeou todo o último Painel do 1º Congresso Internacional de Divulgação Científica, na USP, principalmente devido ao tema abordado: "As Implicações ?ticas da Clonagem". A contradição de opiniões ocorreu entre a Profa. Mayana Zatz, da Associação Brasileira de Distrofia Muscular, e o Prof. Dalmo de Abreu Dallari, jurista. Enquanto a Profa. Mayana defendeu o uso da clonagem para fins terapêuticos, o Prof. Dallari argumentava que o uso de embriões fere o "direito à dignidade deste futuro ser humano", ferindo também o artigo 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em sua palestra, o Prof. Dallari disse que é imperiosa a reinserção da ética no Direito e que as implicações ético-jurídicas são de extrema relevância para as decisões sobre clonagem. Contrário ao procedimento, mesmo para usos terapêuticos, o Prof. Dallari argumentou seu ponto de vista com um caso ocorrido na Itália, quando o Parlamento aprovou a não-obrigatoriedade de uso do capacete por parte dos motociclistas. Esta decisão acabou levando muitos jovens a não fazer uso desta proteção, conseqüentemente resultando em um maior número de acidentes fatais. "Depois descobriu-se que uma empresa que fazia transplantes de órgãos estava por traz desta decisão do Parlamento, já que isso desencadeou um aumento na oferta de órgãos de pessoas jovens para doação."

A Profa. Mayana, que trabalha com pacientes portadores de distrofia muscular progressiva de Duchenne, disse que impedir a clonagem de células com fim terapêutico é tirar a esperança de uma cura para a doença. "Mais de 90% dos embriões não-fecundados são jogados no lixo, portanto porque não usar estes embriões para a clonagem? Uma coisa é falar de ética e de direito do embrião que tem 90% de chances de não virar um ser humano; outra é vivenciar de perto um casal cujo filho tem a distrofia de Duchenne, que causa a distrofia do músculo. Aos 10 anos esta criança está na cadeira de rodas e, nos casos mais avançados, depende totalmente de terceiros para sobreviver", argumenta.

Para a Profa. Mayana, não há problema ético na clonagem terapêutica, já que "um óvulo não-fecundado é só uma célula". Em sua apresentação, muito aplaudida, a professora demonstrou que uma célula-tronco pode substituir tecido muscular. E que embriões congelados e o sangue do cordão umbilical e da placenta - que são jogados fora nos hospitais - são uma grande fonte de células-tronco. "Por que não usar esta fonte que hoje é desperdiçada e criar um banco de cordões umbilicais público, que vai permitir aos pacientes de leucemia e de doenças hematológicas, por exemplo, encontrar uma célula-tronco compatível mais facilmente?"

Questão religiosa - Apesar de defender a clonagem terapêutica, a Profa. Mayana alertou também sobre os perigos que podem surgir a partir disso. "Podemos gerar um comércio de óvulos e embriões, além disso há um questionamento de quando realmente começa a vida?". Em uma pesquisa junto a representantes de religiões no Brasil, levantou-se que o Espiritismo e a Umbanda são a favor da clonagem terapêutica e reprodutiva; que o Judaísmo é favorável somente à clonagem terapêutica; e que mesmo os rabinos mais ortodoxos acreditam que o embrião "ainda não é vida". O Catolicismo é amplamente contra qualquer tipo de clonagem.

"Uma em cada 1.000 pessoas sofrem de doenças musculares. Só no Brasil esse número chegaria a 200.000 pessoas atingidas", diz. A Profa. Vera Ferreira também é cautelosa em relação aos estudos de clonagem. Segundo ela, esta decisão não é somente ética, mas também econômica e política. "Por trás da clonagem há interesses e toda uma indústria que pode influenciar decisões como estas", avisa.

O cientista biológico e atual editor da revista inglesa News Scientist, Alun Anderson, disse que ao longo do tempo houve uma grande mudança de conceitos e do que é moral ou não. "Homossexualismo, direitos iguais para as mulheres, banco de espermas e inseminação artificial também causavam horror anteriormente", exemplifica.

Mas há vários argumentos contra a clonagem, segundo Anderson. "Acho que não vamos conseguir, por exemplo, impedir que alguém consiga fazer a clonagem humana. Mesmo que isso vá em frente, é uma tecnologia que somente os ricos terão acesso e pode gerar uma "casta" social diferenciada no futuro. Além disso, não será necessário fazer a clonagem terapêutica, uma vez que a Medicina terá avanços que resolverão a maior parte das doenças", argumenta.

Um outro risco da clonagem é o fato de que ela vai gerar pessoas com menos riscos de doenças e aumentar a longevidade, por exemplo, para além dos 100 anos. "Hoje, mesmo sem clones, há uma previsão de que em 2.050 a Itália, por exemplo, terá crianças sem parentes vivos por perto, como por exemplo tios ou primos. Ela só irá conhecer seus pais e isso vai influenciar em sua formação e educação", sugere. Só na China, segundo os números de Anderson, já existem 50 milhões de mulheres a menos devido à política de estímulo de nascimento de filhos homens. "Essa manipulação pode gerar problemas futuros que somente começamos a ver agora."

Mea-culpa da Imprensa - O jornalista da editoria de Ciência da Folha de S. Paulo e free-lancer da revista Nature, Ricardo Bonalume, fez um mea-culpa dizendo que os meios de comunicação falham muito em divulgar a ciência. "O público e por conseguinte a imprensa, se interessa pelo inusitado, pelo diferente". Em busca disso, a imprensa pode cometer erros como, por exemplo, informar erroneamente a cura de uma doença e criar uma falsa esperança na família ou no próprio paciente. Ainda segundo Bonalume, há uma falta de preparo muito grande por parte dos jornalistas, com exceção dos especialistas de grandes meios de comunicação.

"Há ainda uma série de questões éticas sobre a clonagem. Saber que seu filho tem alta probabilidade de desenvolver uma doença fará com que você decida não ter filhos ou mesmo abortar? Quem tem o papel de uma decisão como esta?"

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