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Conexões perigosas

      

Por Eduardo Geraque, de Brasília

Agência FAPESP - O dado ainda não é oficial, mas nos últimos 15 dias quase 2 mil quilômetros quadrados da Floresta Amazônica foram derrubados. No lugar da exuberante vegetação entram em campo culturas como a da soja e a criação de gado extensiva. O ritmo acelerado do desmatamento, segundo cientistas que apresentaram estudos na quarta-feira (28/7), em Brasília, durante a 3¦ Conferência Científica do LBA (sigla em inglês para Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia), deverá trazer sérias conseqüências para o clima de toda a América do Sul.

A conexão continental foi descoberta há pouco tempo e precisa ser melhor investigada.

"Mas é possível afirmar, com os dados que temos hoje, que a derrubada da Floresta Amazônica causaria um processo de desertificação no Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.

O impacto seria grande também em todo o continente", disse à Agência FAPESP Antônio Nobre, agrônomo e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (Inpa), atualmente em temporada profissional no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Segundo o pesquisador, o processo é bastante claro do ponto de vista científico. "Toda a chuva de São Paulo, Brasília ou mesmo de Buenos Aires, por exemplo, é provocada pela umidade proveniente da Amazônia. A floresta tem um papel central nessa ciclagem da água, que em última análise vem do Oceano Atlântico", explicou. Sem a floresta e com a presença de plantações ou pastos, essa umidade não vai mais existir e, portanto, as chuvas serão mais escassas.

"Um dos pontos importantes que os estudos no âmbito do LBA conseguiu identificar foi que o sistema natural, representado pela Floresta Amazônica, tem um sistema de auto-regulação importante", disse Nobre. Segundo conta, o motivo seria uma certa "inteligência evolutiva" que estaria presente nas substâncias orgânicas. "Os compostos químicos funcionam como fantásticas peças de Lego. Já conseguimos ver isso, mas ainda não sabemos como funciona."

Essa relação ainda desconhecida da ciência ajuda a embasar a tese apresentada pelo pesquisador do Inpa. Segundo ele, como a plantação de soja, por exemplo, não é um sistema natural, a auto-regulação não irá ocorrer. "Com certeza o desequílibrio na bioesfera vai aumentar", afirma.

Nobre, que gosta de usar o termo "PIB" para marcar a produção feita por toda a bioesfera, lembra que a Amazônia, no caso brasileiro, é responsável por 80% desse produto interno bruto. "Além disso, o consumo desse PIB por parte do gado e da soja é bastante alto, hoje nos 7%. Os insetos, por exemplo, consomem apenas 1% do PIB global da bioesfera", disse.

Dentro do que classificou como "previsões assustadoras", Antônio Nobre afirma que não é contra a soja, o gado ou o desenvolvimento do país. "O problema é que está provado que trocar toda a floresta pela soja ou pela pecuária tem conseqüências graves. Essa é a discussão que precisa ser feita pela sociedade", defendeu.

Em sua apresentação em Brasília, o pesquisador deu um exemplo claro dos resultados da erosão do Paraná causada pela agricultura. "A destruição está sendo vista por todos, todas as noites, mas pouca gente percebe. A cor barrenta das Cataratas do Iguaçu que aparece na vinheta da Rede Globo é um indicativo claro de que o solo daquela região está indo embora para o rio", afirmou.

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