text.compare.title

text.compare.empty.header

Notícias

Pesquisa na Amazônia

      

Por Renata Costa

Tudo o que se diz sobre a Amazônia hoje ainda é pouco. Isto porque o conhecimento sobre a região é ínfimo. Em relação ao potencial biológico, presume-se que estejam catalogados apenas 1% das espécies de flora, fauna e de microorganismos. Quando se trata de arqueologia, a riqueza de povos antigos é tanta que não é difícil encontrar em escavações objetos deixados por nossos antepassados em volta das zonas urbanas da região. E por isso é que se comporta tanta pesquisa no local.

A definição de "Amazônia" também não facilita o conhecimento. A região chamada de Amazônia Legal abrange, geograficamente, os estados do Norte do país, e ainda o Mato Grosso e parte do Maranhão, o que correspondente a 61% do território nacional. Mas a palavra inevitavelmente remete à idéia da floresta. Esta foi uma descoberta de Magali Franco Bueno, pesquisadora do Departamento de Geografia da USP (Universidade de São Paulo), em seu mestrado. Através de levantamento bibliográfico, análise de reportagens de revistas e entrevistas com a população de algumas cidades, Magali pôde notar que esta é a principal referência para as pessoas, inclusive para aquelas que vivem em áreas urbanas da Amazônia e não se identificam como integrantes da região.

A idéia da floresta, por sua vez, foi um pensamento essencialmente influenciado pelo conceito de Amazônia concebido pelo governo em dois planos de desenvolvimento formulados na década de 70. Por conta disso, a mídia priorizou por tanto tempo as informações relacionadas a "pulmão do mundo", hoje expressão já descartada após a descoberta de que as algas dos oceanos produzem mais oxigênio que a nossa mata.

As pesquisas relacionadas à região Amazônica em sua maioria também priorizam a questão ambiental e o desenvolvimento sustentável. "Problema urbano existe no mundo inteiro, a nossa floresta é um ecossistema único e por isso essa ênfase. A única coisa é que não podemos esquecer que a taxa de urbanização da região Norte já ultrapassou os 70%, portanto esta população também precisa ser lembrada", diz Marco Aurélio Arbage Lobo, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Meio Ambiente e Qualidade de Vida da UNAMA (Universidade da Amazônia).

Se, portanto, o maior foco de atenção das pesquisas realizadas localmente é a floresta e sua tamanha biodiversidade, a maior preocupação dos pesquisadores é encontrar uma maneira de mantê-la em pé e viva. O problema fica cada mais difícil com o avanço do desmatamento para áreas de cultivo de soja e pecuária.

A legislação ambiental vigente, de 1965 (sofreu várias modificações e acréscimo ao longo dos anos), exige que 80% da cobertura natural seja mantida, portanto teoricamente seriam 20% liberados para desmatamento para os proprietários de terra. Estudos da Embrapa indicaram que apenas 12% do solo da região são aproveitáveis para a agricultura. "Se a taxa fosse respeitada, estaria dentro dos 20% permitidos", diz Carlos Francisco Rossetti, professor do Departamento de Engenharia Florestal da UnB (Universidade de Brasília).

O índice de 20% permitido para o desmatamento é baixo, mas segundo o pesquisador da UnB ele foi estabelecido por conta da fragilidade do solo. "A degradação no solo Amazônico é mais rápida, por isso quando se desmata uma área, o estrago é maior do que seria, por exemplo, na Mata Atlântica", diz Rossetti. Por isso também, quando há um desmatamento descontrolado para transformar em pasto para pecuária, este pasto tem poucos minerais e nutrientes. "Assim, criam-se poucas cabeças por área, tornando a atividade pecuária mais cara", explica.

Mais uma prova econômica de que a floresta dá maior lucro em longo prazo enquanto estiver em pé, é a quantidade de carbono que absorve da atmosfera. "Com o protocolo de Kioto em discussão (leia mais sobre o assunto clicando aqui), há uma ansiedade por parte dos países desenvolvidos de reduzir a emissão de gás carbônico. Como a maior parte de seus ecossistemas já foi destruída, resta apoiar a manutenção das florestas dos países em desenvolvimento que não têm o compromisso de reduzir a emissão do gás. E fica muito mais barato manter vivo o que já existe do que recuperar a mata", afirma o gerente do escritório regional do LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera da Amazônia) e professor aposentado da UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso), Nicolau Priante.

Este é um dos motivos do grande interesse em investir em pesquisas na região por parte de países estrangeiros. O LBA, por exemplo, é um programa coordenado pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) em parceria com outras instituições brasileiras, a NASA (embora nem todos os projetos realizados recebam financiamento da agência norte-americana, como é o caso do grupo liderado pelo professor Priante) e outras instituições européias para estudo e monitoramento da Amazônia.

Com trabalho iniciado há seis anos, já foram investidos US$ 80 milhões, valor dividido, segundo o INPE entre Brasil (40%), instituições americanas (40%) e européias (20%). O término do programa está previsto para 2006, mas corre o risco de acabar antes disso por conta de problemas burocráticos. Segundo o MCT (Ministério da Ciência e Tecnologia), o acordo diplomático Brasil-Estados Unidos expira em dezembro deste ano e isto pode prejudicar o projeto.

A preocupação interna e externa em relação à Amazônia se justifica com números. Cerca de 15% da Floresta Amazônica brasileira já foram desmatados, num total de 615 mil quilômetros quadrados da área de 4 milhões de quilômetros quadrados totais existentes inicialmente em nosso território. Não parece tanto, mas segundo o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a temperatura, em especial nas regiões desmatadas, já está de 1ºc a 3ºc mais elevada quando comparada com as medições há 40 anos.

E a destruição não pára. Segundo tese de doutorado da jornalista Luciana Miranda Costa, defendida no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA (Universidade Federal do Pará), as campanhas contra o desmatamento feitas por ONGs (organização não-governamental) e instituições públicas são direcionadas para pequenos produtores, mas não são eles os principais responsáveis pelas queimadas quando se analisa o tamanho da área total perdida a cada ano, e sim os pecuaristas e fazendeiros. A questão é que embora nem sempre se tenha a intenção de colocar fogo em grandes extensões de terra, às vezes ele acaba se espalhando sem controle.

Outro problema, a derrubada de árvores para venda de madeira, também tem causado prejuízo à floresta. Empresas madeireiras nacionais e estrangeiras- já que as multinacionais também têm direito à exploração dos recursos, desde que seja dentro da lei e de forma sustentável - nem sempre seguem o que determina o IBAMA, órgão responsável por autorizar os empreendimentos.

"As madeireiras ilegais invadem terras indígenas, áreas particulares ou de preservação ambiental e o Governo não consegue cumprir 100% seu papel de fiscal", explica o professor da UnB, Rossetti. Ele salienta que a extração ilegal acaba desmotivando os madeireiros que estão dentro da lei, pois estes ficam com o ônus do reflorestamento, enquanto os outros extrãm o produto sem repor a natureza.

Uma grande necessidade, portanto, é do monitoramento da região. O Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), já em operação, estará completamente implantado até o final deste ano, ao custo total de US$ 1,395 bilhão. Serão radares fazendo o controle do tráfego aéreo, sensores de vigilância ambiental para análises da água e do ar, aviões de sensoriamento remoto e outros equipamentos.

Segundo o professor da Unicamp Humberto José Lourenção, em dissertação defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da universidade, a intenção do projeto Sivam é assegurar a soberania da Amazônia não só por meio de ações militares, mas também promover a formulação de políticas públicas voltadas ao crescimento econômico, desenvolvimento social e preservação ambiental.

Há ainda iniciativas de monitoramento sendo desenvolvidas por outras instituições. A UFG (Universidade Federal de Goiás), por exemplo, está desenvolvendo o SIAD (Sistema Integrado de Análise de Desmatamentos), um sistema automatizado que vai auxiliar a detectar o desmatamento e a entender mais detalhadamente suas causas (seja plantação de soja, pecuária ou qualquer outra atividade) e impactos. (Leia mais sobre o projeto aqui)

Com a fiscalização, o professor Rossetti defende que é necessária a criação de uma política de investimento na floresta. "Deve ser sim incentivado o uso da madeira, desde que ela seja um produto legalizado. Isso a tornaria viável economicamente e motivaria os empreendedores a formar florestas, fazendo o que existe na Alemanha desde a Primeira Guerra Mundial, que é o manejo sustentável, uma forma de explorar a mata mantendo-a viva", explica Rossetti. "O que não pode é cortar tudo, colocar fogo e transformar a região em um deserto, que é praticamente o que está acontecendo. Depois, a recuperação sai muito mais cara e pode ser até inviável", completa.

Uma das formas encontradas para o manejo sustentável pelo grupo do professor Nicolau Priante, da UFMT, é de andar junto aos empresários. "O melhor é trabalhar de maneira integrada e cooperativa. Uma parceria com a Federação das Indústrias do nosso estado já permitiu a solicitação por parte de empresários do auxílio de mestrandos da nossa universidade em atividades de produção. Se estivermos longe daquele que atua na natureza, quando chegarmos para apresentar uma solução, dificilmente seremos bem acolhidos", diz o professor.

  • Fonte:

Tags:

Aviso de cookies: Nós usamos cookies próprios e de terceiros para melhorar os nossos serviços , para análise estatística e para mostrar publicidade. Se você continuar a navegar considerar a aceitação de seu uso nos termos estabelecidos nos Política de Cookies.