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“Sempre ensinava coisas que não estavam nos livros”, conta filha de Péter Murányi

      
Fonte: Divulgação/Fundação Péter Murányi
Em 16 de outubro de 1939, um rapaz franzino, que trazia consigo somente a roupa do corpo, desembarcou no Porto de Santos do imponente SS Mar Del Plata, um navio belga, movido a vapor, de 132 metros de comprimento. A embarcação trouxe em seus compartimentos alemães, holandeses, alguns poucos brasileiros e um único húngaro, o jovem Péter Murányi.

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O imigrante de 24 anos vinha de Budapeste, fugindo do avanço das tropas nazistas de Hitler e da iminência de uma segunda grande guerra mundial, que não tardou a devastar o continente europeu. Péter Murányi servia ao exército de seu país e deixou as atividades por um detalhe que, muito em breve, o afastaria de suas funções e poderia colocar sua vida em grande risco: era descendente de judeus.

Chegou ao Brasil sem falar uma única palavra em português e conseguiu apenas um visto de turista, que permitia que ficasse no País por apenas 180 dias. Péter, que era um jovem esperto e com espírito empreendedor, foi tentar a vida em São Paulo, uma cidade próspera e do tamanho dos seus sonhos.

Foi assim que teve início a trajetória de Péter Murányi no Brasil, contada na biografia Sem Limite – A Vida de Péter Murányi (2015). O livro, que foi escrito pelo jornalista Ricardo Viveiros, pode ser lido gratuitamente na internet. Segundo os filhos do empresário, a coletânea de memórias não foi lançada visando o lucro, mas com o objetivo de disseminar os feitos do húngaro que construiu um império empresarial no País, conhecendo pouquíssimo da língua de sua nova pátria, e que ainda exerceu atividades sociais de imensa importância para a comunidade.

No fim da vida, o empresário resolveu investir no que acreditava ser a base para uma sociedade mais igual e desenvolvida: educação, saúde, alimentação e desenvolvimento científico e tecnológico. Petér Muranyi, que faleceu em abril de 1998, deixou para seus dois filhos a tarefa de criar a Fundação Péter Murányi, cujo objetivo era reconhecer e premiar trabalhos de excelência, vindos do âmbito acadêmico, do setor privado e de qualquer pessoa ou entidade que exercesse uma atividade ou projeto inovadores em um dos quatro temas de importância.

Desde a primeira edição da premiação, em 2002, já foram entregues mais de R$ 2,2 milhões a iniciativas de todo o País. Para explicar a realização desse trabalho de reconhecimento, o vice-presidente da fundação e filho de Péter Murányi, Péter Murányi Júnior, relaciona a educação na nossa sociedade com uma caixa d’água em uma colina, que está repleta de outras caixas menores em seus pés. Nessa analogia, a água é a população.

“Cada pingo que está naquela caixa deve sair de lá por canos e, se quiser ser engenheiro, ir até a caixa d’água da engenharia, e assim por diante. Se a nossa sociedade fosse perfeita, todos chegariam até lá, mas ela tem uma série de defeitos, os canos têm vazamentos, fazendo com que as gotículas se percam do caminho e parem no chão. Para sanear isso, existem dois tipos de ação: você pode pegar um pano, secar os pingos e jogar novamente na caixa d’água principal, que é o que fazem as fundações assistenciais, dando uma nova oportunidade para as pessoas chegarem ao seu destino. Ou você pode trabalhar para consertar os buracos, que é o que faz a nossa fundação, incentivando e premiando as pessoas que melhoram a qualidade de vida, ou seja, que saem de suas caixas d’água e consertam os buracos nos canos”, explica Murányi.

AS LEMBRANÇAS DO PAPAI

Vera e Péter Júnior sentaram-se um de frente para o outro na mesa, como dois irmãos que se preparam para um almoço de família. Apesar dos títulos, graduações e anos de experiência como empresários do setor privado, juntos, os dois filhos de Péter Murányi parecem voltar ao passado, como no tempo em que “papai” assistia aos telejornais durante o jantar e ficava bravo se um dos pequenos atravessasse as notícias com uma única palavra que fosse.

Em uma sessão de recordações, os filhos lembraram que passavam os jantares todos trocando pontapés e cutucões sem que o pai percebesse. Sempre que terminava o noticiário, o patriarca perguntava aos pequenos qual era a palavra mais importante que o repórter havia dito durante o telejornal. “Um dia eu virei para ele e disse: - foi ‘boa noite’, pai. E isso foi o suficiente para eu perder a sobremesa”, conta o filho, com um sorriso no rosto.

“Com o meu pai, a gente tinha uma relação de muito respeito. Ele era muito rígido, mas gostava de dar cutucadas na gente e também aceitava levar algumas cutucadinhas”, conta o engenheiro e vice-presidente da Fundação Péter Murányi, Péter Júnior.

Vera Murányi, filha caçula do empresário que teve, além dos dois irmãos, uma filha mais velha de seu primeiro casamento, falecida em 1994, lembra que apesar da rigidez e do racionalismo, o pai era um homem carinhoso e preocupado com o sucesso dos filhos. “Eu comecei a trabalhar com ele muito cedo, aos 17 anos. Era serviço de assistente [...], de aprender o bê-á-bá de um escritório de administração. Quando eu chegava com um problema, ele falava ‘você leu o que está escrito naquela porta? ’. E era assim ‘o incompetente traz problemas, o competente propõe as soluções’. Então eu tinha que chegar para ele com pelo menos uma proposta”, conta Vera, lembrando que seu pai “sempre ensinava coisas que não estavam nos livros”.

As histórias e conhecimentos de um homem com opinião forte sobre praticamente tudo, e que não tinha medo de expressá-la, estão reunidas em sua biografia. “Quando surgiu a proposta de fazer o livro foi quase como juntar todas as memórias”, conta Vera. Segundo a filha caçula, a ideia de contar a trajetória do pai surgiu em 2013 e demandou uma série de pesquisas para entender como escrever uma boa biografia. O projeto foi desenhado em dezembro daquele ano e executado durante 2014, para finalmente ser lançado no ano seguinte.


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