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Arte do Dia: 4 obras do Vhils no Brasil [+ entrevista]

      
Arte do Dia: 4 obras do Vhils no Brasil [+ entrevista]
Arte do Dia: 4 obras do Vhils no Brasil [+ entrevista]  |  Fonte: Reprodução

Alexandre Farto, conhecido no mundo da arte como Vhils, é um artista português que esculpe rostos nas paredes do mundo todo. Ele utiliza as mais variadas ferramentas para estampar retratos de moradores em prédios, casas e fachadas. Entre elas estão o uso de estêncil, a escultura de paredes, explosões pirotécnicas e modelação 3D. Não à toa, seu trabalho é reconhecido em nível global.

A Universia Brasil falou com o artista e traz para você as suas opiniões, conselhos e experiências dentro do mundo da arte. Confira:

Universia Brasil: Para você qual é a importância da arte?
Vhils: A arte é comunicação livre, uma interpretação subjetiva, poética dos fenômenos da vida. De um modo geral todas as artes refletem a vida, a diferença é que elas têm a sua própria perspectiva sobre essa mesma vida que é depois vista, sentida e interpretada por outros olhares. O que a arte nos permite que nós tenhamos acesso a outra perspectiva, a possibilidade de sentir ou experienciar um pouco mais do que aquilo que nós sentimos, vemos e ouvimos. Quer concordemos ou não com essa perspectiva, com essa reprodução interpretativa da realidade, creio que é sempre enriquecedora.

Universia Brasil: Você pode falar um pouco dessas experiências no Brasil?
Vhils: A primeira experiência de trabalho que tive no Brasil foi uma intervenção realizada na fachada da Galeria Vermelho em São Paulo, em 2011.

Em setembro do ano seguinte cheguei ao Rio de Janeiro com a missão de desenvolver ali um projeto mais abrangente. Surgiu a oportunidade de desenvolvê-lo no Morro da Providência e interessou-me de imediato. Conheci o fotógrafo e ativista social Maurício Hora e fui informado sobre o processo de requalificação que estava afetando a vida dos habitantes da comunidade, com pontos positivos e negativos. Fiquei por lá trabalhando com a minha equipe durante um mês, conhecendo pessoas cujas casas já tinham sido demolidas ou estavam marcadas para demolição no âmbito desse programa de requalificação, falando com elas e ouvindo os seus problemas e as suas preocupações. No final esculpimos os retratos de cinco delas naquilo que restava das suas habitações.

Em abril de 2013, voltei ao Rio para produzir uma exposição individual no Clark Art Center, e desta vez decidimos realizar um projeto na Ladeira dos Tabajaras, articulado com a exposição. Essa prática de articular trabalho no exterior e ao mesmo tempo na galeria tem sido habitual no meu trabalho, e mais uma vez encontramos ali um processo em tudo semelhante ao que estava tendo lugar na Providência, mas ainda menos falado publicamente. Esse tema dos reordenamentos urbanos, expropriações e a possível gentrificação das zonas expropriadas (junto com a consequente fragmentação das comunidades) é um tema muito interessante. Tenho observado ser uma prática corrente em muitos pontos do mundo, resultado de vários interesses que, na sua maioria, nada têm a ver com o bem-estar das populações. Acho importante chamar a atenção para essas práticas, lançar a reflexão e promover a discussão aberta sobre o tema.

Em março de 2014 voltei ao Brasil para desenvolver outro projeto expositivo em Curitiba, na Caixa Cultural. No âmbito da mesma visitei e trabalhei com a comunidade indígena da Aldeia de Araçaí, em Piraquara, desenvolvendo uma colaboração que serviu de base para a exposição, uma reflexão sobre o desenvolvimento e o modo como as comunidades tradicionais estão sendo deixadas para trás. Essa mesma exposição foi depois apresentada na Caixa Cultural do Recife, em novembro de 2014, onde realizei também uma intervenção no espaço público que estabelecia uma ligação com a Aldeia de Araçaí, onde a reflexão tinha começado. Antes disso ainda passei pelo Rio de Janeiro de novo, em março desse mesmo ano, onde desenvolvi um trabalho no Museu de Arte do Rio em ligação com os projetos realizados anteriormente nas comunidades do Morro da Providência e Ladeira dos Tabajaras.

Todas as experiências que tive no Brasil foram muito enriquecedoras. É um país incrível, grande, belo, com enormes contrastes sociais e econômicos, mas com uma identidade muito própria assente na mistura, na fusão, no sincretismo. Acho que uma das diferenças mais evidentes para outros países é que o Brasil tem, num certo sentido, uma relação mais espiritual – ou assumidamente mais espiritual – com a arte.

Universia Brasil: Como você inclui um pouco de arte para sua vida?
Vhils: A arte acompanha sempre o meu dia-a-dia. Além de toda a pesquisa e trabalho que desenvolvo por causa da minha própria obra, procuro acompanhar aquilo que é feito pelo mundo fora, o que nem sempre é fácil. Sou também co-director da Galeria Underdogs em Lisboa, o que me dá a oportunidade de acompanhar o trabalho dos artistas que representamos e outros que nos despertam a atenção.

Universia Brasil: Um conselho para artistas iniciantes, ou jovens que estão começando a se envolver com isso?
Vhils: Não creio que exista uma fórmula mágica. Passa muito pela capacidade de promoção do trabalho, desenvolvimento de contatos, aproveitamento de oportunidades sem ter medo de avanços e recuos, estar disposto a investir, correr riscos. É preciso sobretudo acreditar naquilo que se faz e ser honesto consigo mesmo e com o seu trabalho.

Universia Brasil: De onde veio a inspiração para começar algo tão diferente quanto a sua técnica? 
Vhils: Veio de observar o modo como as paredes no espaço público vão ganhando camadas ano após ano, captando algo da essência do lugar e da passagem do tempo. Percebi um dia que em vez de usar as paredes como fazia até então, adicionando mais camadas de tinta, podia usar aquilo que já estava lá, escavando através destas camadas usando a técnica do estêncil ao contrário, como um processo de subtração em vez de adição de camadas.

Esta prática tinha uma ligação com a noção de vandalismo artístico que eu vinha trabalhando desde que me iniciara no grafite. Comecei escavando aglomerados de cartazes colados nas paredes, e ao fazê-lo vi que estava trazendo à superfície fragmentos da história recente da cidade – propaganda a eventos culturais, publicidade, etc. Constatei que refletiam a dimensão caótica da cidade e o seu ritmo frenético, o modo como tudo muda em tão pouco tempo. Representavam bem o ritmo das nossas sociedades urbanas contemporâneas, em que tudo parece mudar de forma vertiginosa com o avanço da tecnologia.

O ato de trazer esses fragmentos à superfície me pareceu quase como um trabalho arqueológico. O processo começou com os cartazes, passou para as paredes, e depois para outros materiais. Não foi desenvolvido com a intenção de encontrar uma técnica inovadora, mas sim evoluindo de forma orgânica, quase como se tivessem sido os próprios materiais a me apontarem a direção.

Universia Brasil: O que inspira sua arte?
Vhils: Tudo! Acho que como pessoas refletimos tudo aquilo que nos rodeia e aquilo pelo qual já passamos, todos estes elementos contribuem para moldar as pessoas que somos e isso é refletido naturalmente naquilo que fazemos. A cidade, o olhar sobre a cidade, é fundamentalmente a raiz do meu trabalho e é uma grande fonte de inspiração. Não só o espaço urbano em si, mas também os seus habitantes e as suas comunidades, a história, a passagem do tempo, as relações que os habitantes têm com o lugar onde vivem...

Gosto de absorver tudo o que a vida tem para oferecer. Interesso-me por história e cidades, por paisagens e viagens, gosto de entrar em contato com outras culturas, gosto de música e filmes e muito mais. Gosto de me sentir estrangeiro numa cidade enquanto observo o que se passa à minha volta, sem pressa; gosto de absorver e aprender. Gosto do caos do meio urbano e dos diferentes contrastes que a cidade oferece.

Dica: Clique na imagem para uma versão maior!

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FICHA TÉCNICA - PIRAQUARA, PARANÁ

Onde ver: Aldeia de Araçaí, Piraquara, Paraná, Brasil
Ano: 2014
Técnica: Esculpido em Parede

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FICHA TÉCNICA - INCISÃO

Onde ver: Travessa do Arsenal de Guerra 60, São José, Recife
Ano: 2014
Técnica: Esculpido em Parede

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FICHA TÉCNICA - MORRO DA PROVIDÊNCIA

Onde ver: Morro da Providência, Rio de Janeiro
Ano: 2012
Técnica: Esculpido em Parede

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FICHA TÉCNICA - SÃO PAULO

Onde ver: Rua Minas Gerais 350, São Paulo
Ano: 2011
Técnica: Esculpido em Parede

Coloque essa arte na sua vida:

» Site do artista
» Instagram do artista
» Entrevista do Vhils para a Universia Portugal com 4 outras obras


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