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Isrãl - Palestina: solução via intervenção externa é ilusão

      

Por Peter Demant*

Atualizada em 24/05 às 12h-Uma das ilusões amplamente aceitas sobre o conflito isrãlo-palestino no exterior é que uma intervenção externa é tudo o que é preciso para pôr fim ao desperdício de sangue que continua há 18 meses, quando começou a fase atual da revolta palestina. ? uma ilusão, porque a Paz nunca se impõe - se constrói, pacientemente, e seu fundamento só pode ser a vontade das populações envolvidas. O principal problema está na ausência parcial desta vontade - o que significa, na percepção desesperada tanto de isrãlenses quanto de palestinos, que uma paz incluindo um mínimo de dignidade e segurança está fora de alcance.

No dia 11 de maio se reuniram na praça principal de Tel-Aviv mais de 50.000 manifestantes em favor da paz: foi a maior manifestação deste tipo desde a eclosão da Intifada; participantes vieram de todas as partes do país, arriscando sua própria vida e segurança para manifestar sua oposição à política de Sharon. Na conjuntura isrãlense atual, porém, qualquer demonstração com menos de 100.000 pessoas é provavelmente mais um sinal de fraqueza do que de força da esquerda. O papel da esquerda é obscurecido por uma radicalização oposta, a da direita.

A reafirmação solene do Likud, o partido da situação, contra o estabelecimento de um Estado palestino na Cisjordânia e Gaza, significa uma virada que talvez se comprovará histórica. Sua proclamação de que os palestinos receberão no máximo uma forma de autonomia restrita, equivale a uma negação do reconhecimento mútuo entre Isrãl e a OLP, que em 1993 abriu o caminho de Oslo, um processo de paz baseado na única fórmula viável para ambos os lados: a troca dos territórios palestinos que Isrãl ocupa desde 1967 por uma paz abrangente. Retirando-se destas áreas, substrato para um futuro Estado palestino, o Estado judeu desistiria do sonho da "Grande Isrãl" enquanto os palestinos sepultariam o seu sonho de recuperar toda a "Palestina histórica". Essa é a única saída razoável num conflito que tem só três opções: (1) a expulsão ou aniquilação de uma nação pela outra - tentação genocidária que precisamos evitar a qualquer preço; (2) uma solução binacional onde ambas as nações compartilhariam o mesmo Estado - solução simpática, mas nas atuais circunstâncias de ressentimento e ódio recíprocos se tornaria uma receita para novas violências intermináveis; e (3) a partilha em dois Estados independentes coexistindo lado a lado.

A rejeição oficial pelo Likud do que foi há nove anos a base de uma reaproximação isrãlo-palestina, reflete o aumento do peso político dos colonos, e corresponde à lógica da direita: quem rejeita a partilha tem que prevenir qualquer negociação, pois a barganha Isrãl-Palestina no final das contas trará um acordo territorial. Poucos obstáculos serão tão eficazes para prejudicar as negociações quanto excluir de antemão a independência, reivindicação chave dos palestinos. A decisão do Likud é, portanto, uma nítida ilustração da radicalização da opinião pública isrãlense, que há dois anos ainda apoiava maciçamente a solução dos dois Estados.

Esta extremização é mútua. O resultado deste ciclo de violência e vingança é também visível no campo palestino. Há dois anos, dois terços dos palestinos apoiavam o processo de paz de Oslo, enquanto a grande maioria condenava a estratégia dos homens-bomba. Hoje, estas proporções estão invertidas. Segundo uma pesquisa do Jerusalem Media Communication Centre, realizada em março - antes da invasão isrãlense na Cisjordânia, que causou em ambos os povos uma radicalização adicional -, metade dos Palestinos ainda aceitaria a solução dos dois Estados; para 42% a Intifada atual teria que continuar até a libertação de toda a Palestina histórica, quer dizer, a liquidação do Estado de Isrãl. Estas estatísticas demonstram o quanto ambos os povos estão desapontados com o processo diplomático e acreditam que, nestas alturas, só podem alcançar suas reivindicações através da estratégia de aterrorizar e infligir sofrimento ao outro.

Não devemos, todavia, tornar estes dados numa idéia fixa. A história do conflito entre isrãlenses e palestinos indica que tais tendências públicas são voláteis, e poderiam rapidamente mudar se as circunstâncias políticas melhorassem. Infelizmente, porém, as políticas de ambas as sociedades são suficientemente populistas ou democráticas para tornar pouco provável este cenário. Sharon, Arafat e outros políticos tem medo de perder o poder, e raramente se arriscam a ir muito longe do "consenso nacional". Além disso, o próprio fracasso do processo político reforça o poder de líderes com visões extremas e mutuamente incompatíveis.

O maior impedimento a qualquer avanço político se encontra na proliferação do terrorismo. Pouco importa aqui a terminologia. O que para Isrãl é "terror" é "resistência legítima" para os palestinos. O que para os palestinos é "terrorismo de Estado", se chama "autodefesa legítima contra o terrorismo" do outro lado da colina. Em ambos os casos, o que mais do que qualquer outra coisa atiça os espíritos são as vítimas inocentes da violência política que - seja propositalmente, seja enquanto "danos colaterais", lamentados mas inevitáveis - atinge civis. Duas nações extremamente cabeçudas se enfrentam numa ilusão de que a outra pode ser desmoralizada e derrotada através de um excedente de violência e de "vontade". Aquela violência anti-civil, infelizmente, não vai acabar logo: para os palestinos parece constituir um dos poucos caminhos ainda abertos de reação; para isrãlenses, é, política e humanamente, quase impossível não reagir à reação. Mesmo se, milagrosamente, as negociações se reabrissem, grupos extremistas opostos a qualquer paz de partilha tentariam explodi-las de novo.

Neste quadro pouco promissor, onde a violência continuará quase independentemente da conjuntura, há duas opções: ou as minorias extremistas continuarão a seqüestrar politicamente as maiorias, e a escalada continuará, com risco de internacionalização; ou as populações aprenderão, gradativa e penosamente, a reagir com menos chamadas "automáticas" para mais sangue - e assim derrotarão o próprio objetivo do terror. O que será determinante é se uma paciente educação política dará resultados. Neste sentido, demonstrações de paz tem, a longo prazo, papel mais importante do que uma intervenção internacional hipotética que, no melhor dos casos, pouco realizará além de conter um conflito com potencial para provocar uma conflagração regional.

*Peter Demant é holandês, historiador e Ph.D. pela Amsterdam University. ? professor de Relações Internacionais do Departamento de História da FFLCH / USP. Além disso, Demant faz parte do Gacint - Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP, onde é o vel pela área do Oriente Médio.
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