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Futebol se joga também com a cabeça

      
Por João Ricardo Lebert Cozac*

O futebol no Brasil não é um esporte. ? o jogo da bola, da malícia e do drible. ? o jogo que reflete a própria nacionalidade de uma terra dominada pela paixão da bola. No espaço do jogo, o futebol brasileiro é capaz de esquecer o próprio objetivo do gol, convicto de que a virtude sem alegria é uma contradição. Ganhemos a Copa ou não, somos os campeões da paixão despertada pela bola!ÿ
(Betty Milan, psicanalista e escritora brasileira)ÿ


Os anos 90 decretaram uma nova postura nas equipes de diversas modalidades esportivas através do surgimento dos clubes-empresa. Em decorrência desse tipo de patrocínio, tornou-se possível viabilizar uma nova "filosofia" organizacional, onde um dos itens mais importantes deveria ser o reconhecimento da necessidade de um psicólogo atuante e presente para garantir um rendimento positivo e estável das equipes.

Dar aos atletas respaldo psicológico é tão importante quanto lhes fornecer uma alimentação balanceada, programada por nutricionistas. Afinal, o corpo físico e o mental são as duas faces de uma mesma unidade e merecem a igual atenção. Cuidar do corpo significa também percebê-lo como um todo unificado, do qual fazem parte emoções e estruturas mentais. O papel do psicólogo responsável pela saúde psíquica de um time se desenvolve a partir de uma abordagem das emoções vivenciadas pelos jogadores em sua rotina de trabalho.

A cada novo jogo, uma quantidade de sensações são mobilizadas e, quando não existe assistência psicológica essas sensações não elaboradas tendem a se acumular levando, em muitos casos, à prática de atos impensados por parte dos jogadores que, desta forma, prejudicam a si próprios e ao grupo do qual fazem parte.

? comum ouvir grandes atletas e treinadores dizerem: "temos que nos preparar psicologicamente para esta partida" ou "fisicamente o time está bem, mas psicologicamente vem passando por dificuldades" ou, ainda, "temos que elevar o moral para virarmos o jogo" .

Com efeito, quando se diz que o atleta está precisando de melhor preparo físico para uma competição, sabe-se que o preparador físico será escalado para um trabalho mais rigoroso com esse atleta, seja definindo nova rotina de treinamento, optando por um macrociclo ou determinando-lhe que faça exercícios para desenvolver habilidades motoras necessárias ao seu desempenho: força explosiva, flexibilidade, resistência muscular localizada, agilidade etc. O preparador físico tem (ou deveria ter) formação específica e capacitação técnica para tal .

No entanto, se o atleta está mal - psicologicamente - ou se a questão psicológica é que está fazendo a diferença, quem é o profissional tecnicamente preparado para atuar na solução deste problema? O técnico, o diretor do clube, o médico ortopedista? Os mais esclarecidos dirão que nenhum deles está tecnicamente preparado para assumir a responsabilidade de intervir no plano psicológico. Já os que conhecem de perto o cotidiano do treinamento do atleta, de equipes ou clubes, dirão que profissionais sem a devida formação estão atuando como "psicólogos" no esporte. Vale lembrar aqui que um engenheiro assumiu a tarefa da preparação psicológica da seleção brasileira de futebol durante a Copa de 1998.ÿ

A psicologia do esporte é o (a) estudo dos fatores comportamentais que influenciam e são influenciados pela participação e desempenho no esporte, exercício e atividade física e (b) aplicação do conhecimento adquirido através deste estudo para a situação cotidiana".

Há uma disciplina chamada psicologia aplicada ao exercício e ao esporte e esta investiga as causas e os efeitos das ocorrências psíquicas que apresenta o ser humano antes, durante e após o exercício ou o esporte, sejam estes, de cunho educativo, recreativo, competitivo, ou reabilitador. Em suma, a Psicologia do Esporte tem por finalidade investigar e intervir em todas as variáveis que estejam ligadas ao ser humano que pratica uma determinada modalidade esportiva e, em seu desempenho.

Vários outros segmentos da psicologia têm influenciado a Psicologia do Esporte na medida em que contribuem para a ampliação do conhecimento dos fenômenos psicológicos que englobam a atividade esportiva. Entre eles, a psicologia social, a do desenvolvimento, a clínica, a experimental, a organizacional, a da personalidade e a educacional.

? importante lembrar que no atendimento ou intervenção junto ao atleta é necessário que o profissional esteja bem familiarizado com os segmentos da psicologia acima citados e suas propostas teóricas. No entanto, a Psicologia do Esporte é um segmento com objetivos específicos e área própria de interesse e, portanto, com aplicações e técnicas próprias. Psicologia do Esporte e psicologia no esporte não são sinônimos, visto que esta última inclui intervenções relacionadas com outras áreas da Psicologia e de outras ciências.

Questões como a motivação do atleta, concentração em uma competição, persistência no treino, temperamento do atleta, liderança de equipe, influência no desempenho atlético da equipe e influência negativa e positiva da torcida sobre o atleta são alguns dos temas abordados pela Psicologia do Esporte.

Já como disciplina científica e como área profissional, a Psicologia do Esporte ajuda a compreender melhor o exercício e o esporte praticados pelo ser humano, avaliando, analisando e dirigindo estas atividades através de processos psicológicos. Ela deve ser responsável pelo bem-estar do praticante de exercício ou esporte, sejam estes objetivos competitivos, recreativos, de manutenção ou reabilitação da saúde. Pode apoiar o indivíduo ou o grupo com o objetivo de maior aperfeiçoamento, segundo a tarefa proposta, melhorando as demandas situacionais, contribuindo para que ele melhore sua habilidade e alcance suas metas e necessidades.

*João Ricardo Lebert Cozac é psicólogo, formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atua na área do esporte desde 1993. Mestre em Educação pelo Instituto Mackenzie com sua Dissertação abordando os aspectos psico-sócio-culturais dos jogadores de futebol no Brasil, disponível na Biblioteca central do Instituto Mackenzie - SP. Seu último trabalho foi na equipe do Cruzeiro Esporte Clube ( MG ) onde desenvolveu um projeto de Psicologia do Esporte com atletas das equipes de base e, posteriormente, com os profissionais da mesma equipe. Professor responsável pelo curso de Psicologia do Esporte no Instituto Mackenzie - SP. Diretor e fundador do CEPPE (Centro de Estudo e Pesquisa da Psicologia do Esporte).ÿ Membro da Sociedade sul-americana de Psicologia do Esporte. Autor do livro "Com a cabeça na ponta da chuteira" em fase final de elaboração.

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